Wenkai Mao para The New York Times
Wenkai Mao para The New York Times

A batalha de titãs da área de tecnologia da China

A Tencent Holdings e o Grupo Alibaba ampliam sua competição com o objetivo de dominar a maneira como 770 milhões de pessoas se comunicam, compram, investem dinheiro e se divertem na internet

Raymond Zhong, The New York Times

12 Junho 2018 | 10h00

PEQUIM - Esqueçam do confronto do Google versus Facebook. Esqueçam do Uber versus Lyft. Esqueçam da Amazon versus... bom, versus todo mundo.

A batalha mais feroz do mundo pela supremacia na área de tecnologia está sendo travada na China. E ela poderá apontar para o futuro da Tecnologia, com T maiúsculo, em todas as outras partes do mundo.

A Tencent Holdings e o Grupo Alibaba estão ampliando sua competição sem barreiras a fim de dominar a maneira como 770 milhões de usuários de internet se comunicam, fazem compras, circulam, se entretêm e até mesmo investem suas poupanças e procuram o médico.

As duas titãs há muito tempo se expandiram a partir de suas atividades principais - jogos e mídia social para a Tencent e comércio eletrônico para a Alibaba - com o objetivo de competir em muitos outros campos: envio de mensagens,  microblogging, streaming de vídeo e computação em nuvem. Até entrega de comida.

Hoje, elas travam sua luta mais feroz em torno da moeda digital nos smartphones.

Os pagamentos por celular transformaram a economia chinesa. Ambas as gigantes, mais a Ant Financial, uma empresa irmã da Alibaba, gastam consideravelmente nesta parte de seu negócio.

No campo da internet, a China mostra uma visão assustadora do futuro, em que as mastodontes online como Tencent e Alibaba se tornam as guardiãs da economia toda, dotando-se de um poder imenso sobre as indústrias tradicionais e enriquecendo de maneira espantosa durante este processo.

Em uma conferência realizada em dezembro, na cidade chinesa de Guangzhou, o diretor executivo da Tencent, Pony Ma, disse que estava dando conta de que as duas companhias competiam em um “número excessivo” de áreas.

“Às vezes, penso: ‘Estamos competindo nisto também? Ótimo’”, disse Ma, dando uma risadinha. “É um pouco frustrante”.

As titãs da internet da China têm um poderoso aliado que não se encontra em parte alguma: o governo chinês. Tencent e Alibaba evitaram a repressão contra o monopólio mantendo as boas graças de Pequim, disse Hu Wenyou, sócio do escritório de advocacia Yingke de Pequim. As dimensões espantosas das duas torna mais fácil para as autoridades controlá-las. Elas simplesmente teriam demais a perder.

“Se você se torna tão grande, e tão bem-sucedido em tantas áreas, isto demonstra que você deve ter mantido relações extremamente amistosas, extremamente boas com o governo”, disse Hu.

E as duas gigantes seguem melhorando.

Cada uma tem uma capitalização de mercado perto dos US$ 500 bilhões, o que as inclui entre as empresas de tecnologia de maior valor do planeta.

Google e Facebook, contudo, reivindicam mais usuários, mas os pesos pesados chineses certamente fazem mais - e muito, muito mais - para os seus.

Ambas criaram empresas que oferecem educação online, produzem carros elétricos e alugam bicicletas. As gigantes consideram tais iniciativas novas oportunidades para as pessoas usarem suas carteiras digitais - a Alipay da Ant Financial e a WeChat Pay da Tencent - e novas maneiras de compilar dados sobre o comportamento dos consumidores.

Os analistas da Sanford C. Bernstein contaram 247 negócios de investimentos da Tencent nos últimos anos, e 156 da Alibaba, embora, dado o ritmo da realização de negócios das companhias, elas afirmem que o seu banco de dados “provavelmente ficará perenemente incompleto”.

O próximo campo de batalha serão as lojas físicas. A Alibaba gastou consideráveis somas de dinheiro - US$ 2,9 bilhões em uma loja de departamentos e uma operadora de centro comercial - para conquistar o mundo real. A Tencent seguiu o exemplo com suas próprias parcerias nos setores de varejo e de investimentos. O Walmart disse recentemente que não aceitará mais a Alipay em suas lojas na China ocidental, o que constitui uma vitória para a Tencent.

Uma vez que as companhias prendam os consumidores em seus sistemas de pagamento, elas podem atuar em todos os tipos de comércio e serviços financeiros.

Indicando o grau de entusiasmo dos investidores com as possibilidades que se abrem, a Ant Financial está fazendo planos para abrir o capital, em uma oferta de ações espetacular que dará à companhia um valor de mercado maior do que o da Goldman Sachs.

A China se tornou um modelo para as tendências da tecnologia a engolir o mundo, segundo as circunstâncias.

Como o país está produzindo startups bem financiadas de maneira acelerada, plantar bandeiras em um terreno novo é frequentemente a única maneira para as grandes jogadoras não perderem constantemente terreno.

“Todo o mercado da internet da China é muito mais competitivo do que o mercado americano”,  disse Xiaoyan Wang, um analista da 86Research de Xangai. “Cada empresa tenta expandir sua presença em todos os setores”.

Além disso, tanto o Alibaba quanto a Tencent lutaram para ganhar muito dinheiro fora do mercado nacional. Isto significa que a maneira mais segura para elas continuarem crescendo é envolvendo-se cada vez mais em novas áreas da vida dos seus usuários chineses./ Carolyn Zhang contribuiu para a reportagem

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