Ana Kinsella via The new York Times
Ana Kinsella via The new York Times

A bolsa perdeu espaço devido à pandemia. Isso será permanente?

Com as lojas fechadas, as vendas de itens de moda e acessórios caíram de 35% a 39%, de acordo com um relatório recente

Lou Stoppard, The New York Times - Life/Style

08 de agosto de 2020 | 05h00

Parece, às vezes, um membro fantasma, batendo contra meu corpo enquanto me movo pela casa. Sinto que está apoiada na dobra do meu braço enquanto ando de cômodo em cômodo. Era o único abrigo de tudo o que eu considerava imediatamente importante: recibos, documentos, carregador, livros, lenços (limpos e usados), garrafinha, absorvente, um cartão para aquele restaurante italiano delicioso e barato daquela vez, alguns meses atrás. O que era isso? Minha bolsa surpreendentemente espaçosa, mas de alguma forma simplificada, é claro.

Minha bolsa preferida era de couro preto com detalhes em dourado, fabricada pela Balenciaga, comprada em uma promoção. Já se foi o tempo em que eu não saía de casa sem ela. Agora, é claro, por causa da covid-19, realmente não saio de casa. Não carrego minha bolsa há meses.

A máscara pode ser definida como o acessório do momento. A bolsa parece uma relíquia do passado, acumulando poeira nos cantos do quarto e nas prateleiras do armário. Mas essa mudança será permanente em nosso guarda-roupa? Ou a bolsa vai ressuscitar? Ana Kinsella, redatora freelancer de Londres, contou com os bolsos para a maioria de suas caminhadas diárias na época do bloqueio ou com as ocasionais sacolas de lona para comprar mantimentos.

"Na minha vida pré-coronavírus, minha bolsa não era para carregar as coisas, mas para mantê-las juntas", disse Kinsella. O bloqueio provocou o inverso: bugigangas constantemente acumuladas, espalhadas e abandonadas pela casa, em vez de organizadas em apenas um lugar. "Agora não faço ideia de onde estão as coisas", acrescentou.

Kinsella contou que ficou bêbada depois de uma festa de despedida de solteira via Zoom, para a qual se vestira, e caminhou até o fim de sua rua para fumar um cigarro. Saindo de casa, pegou sua bolsa mais chique, uma pequena peça de couro laranja brilhante, apesar de não precisar. "Pensei: 'Esta roupa merece uma bolsa também, mesmo que ninguém esteja aqui para ver'", lembrou-se.

Katie Hillier conhece os artigos de couro melhor do que a maioria das pessoas, tendo trabalhado como diretora criativa da Marc by Marc Jacobs e realizado consultorias para uma variedade de marcas de luxo. Seu trabalho na antiga marca britânica Luella, a partir de 1999, fez parte do que deu início ao movimento da bolsa "It" no começo dos anos 2000. "Sempre nos concentramos na bolsa para uso no trabalho. O que significa isso agora? A bolsa do dia a dia é sua mochila, ou a bolsa que cabe na sua bicicleta, ou a bolsa que você leva à mercearia, ao supermercado ou à passeata", disse Hillier.

Com as lojas fechadas, as vendas de itens de moda e acessórios caíram de 35% a 39%, de acordo com um relatório recente da McKinsey. Parte do dinheiro que normalmente poderia ser gasto em bolsas foi, nos últimos meses, alocado para bicicletas. (Em março, as vendas de bicicletas e serviços relacionados quase dobraram em comparação com o mesmo período do ano passado nos Estados Unidos, de acordo com o NPD Group, uma empresa americana de pesquisa de mercado.)

Grandes bolsas de couro são impraticáveis para andar de bicicleta: qualquer coisa longa demais, que se move para a frente e se aloja entre as pernas, torna o ato de pedalar mais difícil, enquanto as alças nos ombros correm o risco de cair. As bolsas também não são práticas em protestos, que se espalharam pelo mundo. Na maior parte das recentes manifestações, as mochilas ou as pochetes eram onipresentes.

Em várias cidades, enquanto os manifestantes passavam pelas lojas de luxo, também havia poucas bolsas para ver. Preocupadas com os distúrbios, Gucci, Chloé, Louis Vuitton e outras marcas retiraram seus produtos, deixando despidas suas vitrines geralmente pomposas. Quando, no fim de maio, apesar da inquietação crescente, a Vuitton optou por lançar uma ampla campanha com influenciadores para sua nova bolsa, a LV Pont 9, a ação foi criticada nas mídias sociais como inadequada aos acontecimentos recentes.

A questão da adequação é primordial. Normalmente, as bolsas têm sido uma muleta financeira para as marcas de moda, sustentando as vendas de peças prontas e, graças ao logotipo, servindo como uma forma de publicidade. É discutível se isso permanecerá verdadeiro diante da recessão e da mudança de atitudes relacionadas às grandes empresas e à desigualdade social.

"Acho que as pessoas estão ficando bastante confusas sobre o que devem e o que não devem comprar. Estão pensando na origem dos materiais, se são ecológicos", analisou Hillier. Ela prevê que as pessoas vão querer "comprar para dar apoio", destinando seu dinheiro para marcas que compartilhem seus valores.

Um exemplo disso: a Tree Fairfax, uma pequena marca independente sediada na Virgínia, cujos artigos de couro feitos a mão, projetados, segundo o site, para "se movimentar facilmente", recebeu forte apoio nas mídias sociais na tentativa recente de promover negócios de proprietários negros.0,

Mas, quando contatada para discutir o efeito do momento atual sobre as tendências das bolsas, a dona da empresa, Tricia Hash, respondeu que estava exausta demais por conta do racismo e muito preocupada com o filho, que ainda trabalhava como entregador de delivery, sem equipamento de proteção pessoal, para falar sobre artigos de couro. O que parecia ser exatamente o ponto em questão.

Mais tarde, ansiosa para lembrar o que antes parecia tão importante, levei minha ex-bolsa favorita para passear pela casa. Andamos da sala para o quarto e voltamos novamente. Depois de semanas vivendo sem bolsa e com as mãos livres, minhas coisas pesando na cesta da bicicleta e não nos ombros, fui transportada de volta a um tempo de viagens, corridas, viagens aéreas, bebidas pós-trabalho e um laptop abrigado pelo couro de uma bolsa embaixo da mesa. De repente, tudo parecia tão triste.

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