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A briga pela terra em Hong Kong: manter clubes de golfe ou construir habitações?

Preços dos imóveis de Hong Kong atingiram os patamares mais elevados do mundo

Mary Hui, The New York Times

26 de maio de 2018 | 10h15

HONG KONG - O Clube de Golfe de Hong Kong é um enclave privilegiado criado há 129 anos, cujo traçado normal antigamente atendia às necessidades dos governantes da colônia britânica, mas hoje, o seu estacionamento está lotado de Teslas e Porsches de sua elite chinesa.

Mais recentemente, este enorme clube, com 54 buracos, tornou-se o foco de um debate sobre o uso do recurso mais escasso e valioso de Hong Kong: a terra.

“O golfe é um esporte britânico”, disse Ng Cheuk-hang, 23, porta-voz da Land Justive League, um grupo ativista que quer que o terreno seja reurbanizado e destinado à construção de habitações para pessoas de baixa renda. “Não é um esporte do povo, e ele cria enormes injustiças sociais”.

Yoshihiro Nishi, 51, o presidente da Hong Kong Golf Association, grupo que representa quatro clubes de golfe privados da cidade, acha que os ativistas estão levando a questão para o lado político. 

“Todos os membros do Clube de Golfe de Hong Kong compreendem a necessidade de habitações na cidade”, afirmou Nishi. “Mas não é preciso transformar a questão em uma briga entre os que têm e os que não têm”.

Os preços dos imóveis de Hong Kong atingiram os patamares mais elevados do mundo; as famílias de funcionários do setor administrativo e da classe média não têm mais acesso a este mercado. A prefeitura busca lugares para construir - as margens dos parques públicos, algumas fazendas remanescentes, aterros e áreas industriais reurbanizadas, como antigos estacionamentos para contêineres.

Grande parte destes terrenos montanhosos e densamente povoados com mais de sete milhões de habitantes foi tomada por arranha-céus, shopping centers e concreto em geral.

Os campos de golfe e outros clubes de recreação privados - que recebem um tratamento especial desde a época em que a cidade procurava tornar-se um centro atraente para banqueiros e executivos - também enfrentam protestos em que a crise do uso da terra é atribuída a questões mais graves de desigualdade econômica e declínio da mobilidade social. Frequentemente, o aluguel destes imóveis cobrado pelo governo é muito inferior ao do mercado.

Em março, os manifestantes invadiram o Clube de Golfe de Hong Kong no bairro de Fanling, e aos gritos de “Terra para todos!” e “Queremos habitações populares”, ocuparam um campo. Um mês mais tarde, os manifestantes entraram em confronto com os seguranças, e um golfista foi visto agarrar um manifestante pelo pescoço e jogá-lo no chão.

Um relatório divulgado recentemente pelo governo propôs que o clube de 170 hectares fosse reurbanizado totalmente ou em parte para a construção de habitações e outros usos públicos. Segundo estimativas, no campo poderiam ser construídos prédios com 13,2 mil apartamentos, e a possibilidade de abrigar 37 mil pessoas. O clube é um dos seis campos de golfe e 24 clubes esportivos privados alugados pelo governo que, em conjunto, ocupam uma área de 330 hectares e atendem a 56 mil membros.

Yam Chun, 24, organizadora comunitária para a Concerning Grassroots’ Housing Rights Alliance, disse que viveu toda a sua vida em apartamentos superlotados subdivididos. “Quando minha família e eu ainda estávamos à espera de uma habitação pública, pensei: Será que Hong Kong não tem mesmo terra suficiente?” indagou. “Agora sou uma pessoa adulta, e me dou conta de que o problema real está uma injusta distribuição da terra”.

No entanto, alguns afirmam que acabar com o campo de golfe seria prejudicial para Hong Kong.

“Não se pode ter uma cidade cercada de muros de concreto”, disse Arnold Wong, 44, o capitão do Clube de Golfe de Hong Kong.

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