Dr. Seuss Enterprises
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A busca pelo verdadeiro Lórax

Novo ensaio explora possíveis exemplos da vida real para o personagem Lórax e as árvores Truffula

Joanna Klein, The New York Times

01 Setembro 2018 | 11h00

Qual foi a inspiração por trás da criatura que é “marronzinha e felpuda?” Aquele que falava numa voz “irritadinha e mandona?” Ele falava em nome das árvores, mas as chamava de suas.

Em 1970, Theodor Geisel, também conhecido como Dr. Seuss, estava combatendo um projeto imobiliário que pretendia derrubar os eucaliptos em torno do seu lar na Califórnia. Mas, quando ele tentou escrever um livro a respeito da preservação, sofreu um bloqueio criativo. Por sugestão da mulher, o casal viajou até o Clube de Safari do Monte Quênia, um resort exclusivo onde os hóspedes acompanham a vida dos animais na planície de Laikipia, no Quênia.

Foi ali que o “Lórax” ganhou forma, e sua mensagem ambiental foi criada quase toda numa única tarde. Hoje, a história já foi traduzida para mais de uma dúzia de idiomas, com mais de um milhão de exemplares vendidos e uma adaptação para os cinemas em 2012.

Na trama, o Lórax, que “fala em nome das árvores”, surge em meio aos troncos cortados para exigir que um homem de negócios chamado Erumavez pare de cortar as árvores chamadas trúfulas para confeccionar peças chamadas de “nãonecessidades". Mas o Erumavez não dá ouvidos ao alerta e termina sozinho numa fábrica vazia em meio a uma paisagem desolada.

Muitos consideram o livro um conto a respeito da política ambiental, voltado especialmente para as crianças, trazendo uma mensagem de esperança na ideia segundo a qual as gerações futuras podem salvar o meio ambiente tomando conta dele. Mas muitos se preocupam com o fato de o Lórax, ao usar o possessivo “minhas” ao se referir às árvores, parecer um arrogante defensor da natureza.

Em novo ensaio, os autores dizem que o Lórax talvez não seja tão mandão quanto parece. Defendem que o Lórax estaria possivelmente envolvido numa relação de simbiose com as trúfulas e seu entorno, ameaçado, assumindo assim uma posição defensiva.

“Se imaginarmos o Lórax não como um defensor indignado do meio ambiente, mas em vez disso como um participante do ecossistema, me parece que sua raiva se torna muito mais fácil de justificar", disse Nathaniel Dominy, antropólogo da Dartmouth College, em Nova Hampshire, e principal autor do ensaio.

A ideia de uma origem queniana para a inspiração por trás do Lórax surgiu depois que o Dr. Dominy conversou com Donald E. Pease, professor de inglês de Dartmouth e autor de uma biografia do Dr. Seuss. O debate levou à ideia de mostrar uma imagem desenhada do Lórax a um programa capaz de reconhecer rostos de macacos.

Dr. Dominy percebeu que o protagonista do livro se assemelhava a um macaco-vermelho, criatura peluda e alaranjada que emite um ruído estridente. O macaco obtém a maior parte de seus nutrientes de uma árvore retorcida chamada de acácia africana, num tipo de interação chamado comensalismo, por meio do qual um organismo se beneficia do outro sem prejudicá-lo. “Se o Dr. Seuss inventasse um macaco", disse ela ao Dr. Pease, “este seria o resultado". 

Dr. Pease se convenceu da semelhança depois de pensar em como o Lórax surge do tronco cortado da árvore, indicando que de algum modo a criatura era parte dela. Isso tora muito mais razoável o uso do possessivo quando o personagem se refere às “minhas árvores". “O Lórax deixa de parecer um policial ecológico", disse ele.

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