Cody O’Loughlin para The New York Times
Cody O’Loughlin para The New York Times

A ciência examina como nós reagimos à arte

Laboratórios de pesquisa estudam estética da música, literatura e artes do espetáculo

Tom Mashberg, The New York Times

26 Julho 2018 | 10h00

Se você alguma vez se perguntou se o título de uma obra de arte abstrata - por exemplo, 'Blue No. 2' - influi sobre a sua percepção, ficará intrigado por um novo estudo da Universidade de Pittsburgh. Os pesquisadores da escola constataram que as pessoas preferem obras com títulos diretos, como ‘Linhas Curvas” ou “Pontos doloridos” aos títulos metafóricos como 'Dançando no gelo' ou 'Sabotagem'.

Outro estudo publicado no mês passado pelos psicólogos do Boston College concluiu que uma importante razão para as pessoas preferirem a obra de um artista a uma cópia idêntica é a convicção de que parte da essência do artista é abandonada no original.

'Durante séculos, os filósofos andaram às voltas com questões referentes às artes, e os leigos quebraram a cabeça para decifrá-las', afirmou Ellen Winter, a principal autora do estudo. 'Agora, os psicólogos começam a explorar estas mesmas questões.'

Os mistérios da resposta estética tornaram-se uma área florescente para os pesquisadores científicos.

Cerca de vinte laboratórios de pesquisa dos Estados Unidos agora estudam estética - examinando não apenas as artes visuais, mas também campos como a música, a literatura e as artes do espetáculo.

Grande parte da pesquisa se resume aos esforços para solucionar dois antigos enigmas: o que é arte e por que gostamos do que gostamos?

'É um campo entusiasmante porque começamos a descobrir como usar as melhores ferramentas da ciência para avaliar coisas que imaginávamos não fossem passíveis de avaliação', disse Thalia Goldstein, editora da revista 'Psychology of Aesthetics, Creativity and the Arts'.

Em junho, pesquisadores da Universidade de Londres abordaram o enigma da arte feita pela máquina. E descobriram que, embora as pessoas tendam a desdenhar as pinturas que sabem que foram feitas artificialmente, elas reagem de maneira positiva às obras quando veem que estão sendo feitas por um robô com um braço.

Os pesquisadores concluíram que a inclusão de um robô semelhante a um ser humano no processo de elaboração da arte 'pode na realidade representar a fronteira final para a verdadeira aceitação' de obras pela inteligência artificial.

Outros estudos visam descobrir aplicações para a área da medicina e da educação.

O National Endowment for The Arts ajuda a financiar a pesquisa dos possíveis efeitos terapêuticos  da arte 'no tratamento de uma doença ou de um distúrbio, ou para melhorar os sintomas  de uma doença crônica, distúrbio ou problemas de saúde'.

A organização também trabalha com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos em um estudo para determinar se permitir que soldados decorem máscaras de gesso pode ajudar a diagnosticar e tratar do distúrbio do stress pós-traumático. Dados preliminares sugerem que as máscaras fornecem indicações dos estados psicológicos de soldados da ativa e de veteranos que, de outro modo, relutariam fornecer informações sobre seus sintomas.

A equipe de Ellen Winner publicou o estudo em junho. A pesquisa destinava-se a apurar por que motivo as pessoas chegam a desvalorizar peças que outrora admiravam, ao descobrirem que as obras não foram criadas por um artista.

O estudo foi montado em cima de uma experiência que apresentava imagens idênticas da mesma obra de arte, apresentadas uma ao lado da outra. Alguns participantes do teste foram informados de que a imagem à esquerda havia sido feita pelo artista, e a imagem à direita era do assistente do artista.

Os espectadores preferiram a imagem que teria sido feita pelo artista.

Sua conclusão foi: 'Nós gostamos de apreciar obras originais que sabemos que foram feitas pelo artista, e isto porque nos faz sentir em comunhão com a mente do artista, seu coração e essência'.

Alguns se mostram céticos à ideia de colocar a arte em um tubo de ensaio. Em um artigo de 2017, Alexis D. J. Makin, um psicólogo da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, duvidou da eficácia de se estudar as respostas a uma obra de arte em um ambiente clínico.

'É praticamente impossível evocar emoções intensas como o êxtase estético no laboratório em testes repetidos com estímulos bem controlados, porque as emoções estéticas são demasiado fugazes e idiossincráticas', ele escreveu. 'Nós somos como os cientistas que adorariam medir um redemoinho muito raro em um sistema caótico, mas não podem recriar a experiência em um tanque fluido artificial'.

Ellen Winner disse que ouviu esta crítica antes e a ignora.

'Se a psicologia é o estudo do comportamento humano', acrescentou, 'como podemos deixar de lado algo tão fundamentalmente humano quanto a arte?'

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