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A ciência por trás do vírus que cai do céu

Entendendo um importante fator na ecologia do planeta

Jim Robbins, The New York Times

27 Abril 2018 | 15h15

No alto da Sierra Nevada, na Espanha, uma equipe internacional de pesquisadores instalou baldes para recolher uma chuva de vírus que caía do céu.

Cientistas haviam feito uma suposição segundo a qual existe um fluxo de vírus circulando o planeta - acima dos sistemas climáticos, mas abaixo da altitude do transporte aéreo. Muito pouco se sabe sobre esse reino e, por este motivo, o número de vírus depositados nos baldes surpreendeu a equipe na Espanha.

Todos os dias, calcularam os cientistas, aproximadamente 800 milhões de vírus despencam sobre cada metro quadrado do planeta. “Sem o impedimento da fricção com a superfície da Terra, é possível viajar grandes distâncias e, por isso, viagens intercontinentais são muitos fáceis” para os vírus, afirmou Curtis Suttle, virologista marinho da Universidade da Colúmbia Britânica. “Não seria incomum encontrar coisas que foram levadas da África pelo vento e caíram na América do Norte.”

O estudo de Suttle e seus colegas, publicado este ano, foi o primeiro a contar o número de vírus que cai sobre o planeta. A pesquisa, porém, não foi destinada a combater doenças, mas a produzir uma noção melhor sobre a “virosfera”, o mundo dos vírus no planeta.

Geralmente se supõe que esses vírus se originam na superfície e são levados para cima pelo vento, mas alguns pesquisadores teorizam que, na verdade, eles podem se originar na atmosfera.

É difícil exagerar a respeito das funções centrais dos vírus no mundo. Eles são essenciais a quase tudo: do nosso sistema imunológico à nossa flora intestinal; aos ecossistemas terrestres e marinhos; à regulação do clima e à evolução de todas as espécies. Os vírus carregam uma vasta e diversa gama de genes desconhecidos - e os disseminam para outras espécies.

Predadores no topo da cadeia alimentar do mundo microbiano, os vírus são incapazes de se reproduzir por conta própria e são obrigados a dominar células de um hospedeiro e usá-las como uma máquina para se replicar - esse é o propósito da infecção. O vírus injeta seu próprio DNA no hospedeiro. Por vezes, esses novos genes são úteis aos hospedeiros e se tornam parte de seus genomas. Entre 40% e 80% do genoma humano pode estar associado a invasões ancestrais de vírus.

Vírus e suas presas também são grandes atores nos ecossistemas do mundo. Suttle retirou vírus de amostras de água marinha e deixou lá suas presas, as bactérias. Quando isso acontece, o plâncton para de crescer na água. Isso ocorre porque quando novos vírus infectam e matam micróbios, são liberados os nutrientes contidos neles, como o nitrogênio, que alimenta outras espécies de bactérias.

Vírus ajudam a manter o equilíbrio dos ecossistemas ao mudar a composição das comunidades microbianas. Quando algas tóxicas se proliferam nos oceanos, elas são detidas por um vírus que faz com que elas explodam e morram. 

Alguns vírus e outros organismos podem atingir certo equilíbrio, mas vírus invasivos podem causar alterações generalizadas e até levar a extinções. Quando espécies desaparecem, as mudanças podem se propagar por todo um ecossistema.

O Exército italiano levou gado ao Norte da África e, em 1887, o vírus da peste bovina se espalhou por todo o continente, matando animais ruminantes da Eritreia à África do Sul - em alguns casos, erradicando até 95% dos rebanhos.

“O vírus contaminou antílopes, gnus e outros grandes herbívoros em todo o ecossistema”, afirmou Peter Daszak, presidente da ONG Ecohealth Alliance. A menor quantidade de animais pastando criou habitats favoráveis à proliferação da mosca tsé-tsé, que causa a doença do sono. “Esses tipos de mudança ecológica podem durar séculos ou até milênios”, afirmou Daszak.

Muita gente morreu de fome em razão da disseminação da peste bovina. Após vacinações, a doença foi erradicada globalmente em 2011.

Os benefícios dos vírus são muito menos conhecidos. Pequenas manchas de vírus sobre a planta da quinoa são importantes para sua sobrevivência. “Os pequenos pontos de vírus conferem tolerância à seca, mas não provocam doenças”, afirmou Marilyn Roossinck, que estuda ecologia viral em plantas na Universidade Estadual da Pensilvânia.

“Os vírus não são nossos inimigos”, afirmou Suttle. “Certos vírus desagradáveis podem nos deixar doentes, mas é importante reconhecer que vírus e outros micróbios mundo afora são parte absolutamente integrante dos ecossistemas.

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