John Miller/Associated Press
John Miller/Associated Press

A construção – fracassada – de um mundo ecológico isolado

Com projeto intitulado Biosfera 2, cientistas previam reconstruir a civilidade em um ecossistema paralelo 

Carl Zimmer, The New York Times

08 de abril de 2019 | 06h00

Antes da aurora do dia 4 de abril de 1994, Abigail Alling e Mark Van Thillo cruzaram o vale ao pé das Montanhas Santa Catalina, no Arizona, chegando a um monumento composto por pirâmides e redomas geodésicas conhecido como Biosfera 2. O complexo de 2,5 acres (10117,1 m²) continha uma floresta tropical, um manguezal, um deserto, um recife de coral - e sete pessoas que foram trancadas ali por um mês.

Abigail e Van Thillo tinham completado recentemente uma estadia de dois anos no Biosfera 2. Posteriormente, depois de serem detidos, eles disseram temer pela segurança das pessoas confinadas ali dentro. Estavam determinados a encerrar a missão. Eles abriram cinco das portas do Biosfera 2 e romperam os lacres. Então, chegaram ao sistema de ventilação e o destruíram.

Essa invasão marcou o fim de um dos experimentos mais estranhos da história da ciência. Ninguém jamais tinha tentado construir um mundo ecológico isolado tão grande quanto o Biosfera 2, e ninguém tinha sobrevivido por tanto tempo num ambiente assim. O projeto acabaria desacreditado, considerado um desperdício de recursos e energia. Ainda assim, passados 25 anos, trata-se de um experimento que merece ser redescoberto. O Biosfera 2 pode oferecer algumas lições a respeito de como administrar o Biosfera 1: nosso planeta.

A ideia do Biosfera 2 surgiu em um rancho no Novo México no início dos anos 1970. Os moradores do Rancho Sinergia - que dividiam seu tempo entre o teatro experimental, a agricultura e a produção de móveis - viram-se recolhendo os destroços da civilização.

Eles conquistaram o apoio de Ed Bass, um texano rico que se tornou presidente de uma empresa chamada Space Biospheres Ventures. Em 1984, a empresa anunciou que construiria uma estrutura pressurizada e isolada, conhecida como Biosfera 2, dentro da qual os ecossistemas prosperariam, fornecendo aos moradores ar para respirar, água para beber e alimento. Os planos exigiam 3.800 espécies de plantas e animais, incluindo beija-flores e primatas semelhantes a lêmures.

Na manhã do dia 26 de setembro de 1991, oito membros do grupo da Biosfera, entre eles Abigail e Van Thillo, acenaram para a imprensa ao entrarem na instalação. A empresa pretendia ganhar dinheiro com a ciência. A ideia era construir biosferas sob medida, na esperança de colocar uma delas em órbita até 1995 e, quem sabe, levar outra até a Lua ou Marte. Mas, passadas duas semanas, uma integrante da equipe da Biosfera chamada Jane Poynter cortou um pedaço do dedo num acidente. O médico da missão fez um curativo, mas decidiu que era melhor ela ir ao hospital.

Algumas horas mais tarde, ela voltou, trazendo consigo uma sacola preparada pela administradora da Biosfera 2, contendo suprimentos como peças de computador. Os repórteres só ficariam sabendo dessa sacola meses depois. Também seria revelado que membros da equipe administrativa fizeram várias entregas à Biosfera 2, fornecendo sementes, vitaminas e outros itens em entregas quinzenais. Um ex-funcionário revelou que engenheiros instalaram um filtro de dióxido de carbono para possibilitar que a atmosfera da Biosfera 2 fosse administrada artificialmente.

Esses não foram os únicos problemas: o tempo fechado impediu o crescimento das plantas, e a instalação começou a perder oxigênio porque o solo foi tomado por uma bactéria que consumia grandes quantidades de oxigênio. Os beija-flores e abelhas morreram, impedindo que as plantas fossem polinizadas. As baratas estavam por toda parte.

Dez meses após o início da missão, o conselho de especialistas envolvidos no projeto produziu um relatório crítico. Então, eles renunciaram suas funções. Em seguida vieram os problemas financeiros. Quando a primeira equipe da Biosfera 2 deixou a instalação e após o início de uma segunda missão, a liderança da Space Biospheres Ventures foi demitida, em abril de 1994. Foi esse expurgo que motivou a invasão de Abigail e Van Thillo ser finalizada. Abigail disse que eles estavam preocupados com a segurança da equipe.

A segunda missão foi abreviada. A Universidade Columbia, em Nova York, administrou o que restou do Biosfera 2 até 2003, quando essa função foi assumida pela Universidade do Arizona. O Biosfera 2 continua de pé, e a ciência não parou. Mas não há mais pessoas vestindo macacões.

Muitos cientistas analisam o resultado do projeto Biosfera 2 como um fracasso. Mas não devemos esquecê-lo por completo. Durante dois anos, oito pessoas cultivaram mamões, beterrabas, bananas, arroz e outros gêneros. A água que beberam não os envenenou. Os ecossistemas resistiram.

Recentemente, o ecologista William Schlesinger escreveu que a história do que ocorreu no Biosfera 2 “é demasiadamente valiosa para ser perdida”. Mas boa parte dessa história parece já ter se perdido. Apenas uma pequena fração desses dados foi publicada. A Universidade do Arizona diz não ter o restante em seu poder.

Nos 25 anos transcorridos desde o dia em que Abigail e Van Thillo invadiram o Biosfera 2, nossa espécie alterou profundamente a Biosfera 1, e é possível que tenhamos pela frente mudanças que ainda não podemos compreender. Talvez, nos registros de um extravagante experimento no Arizona, algumas pistas estejam à nossa espera. No Biosfera 2, as bases para reconstruir a civilização. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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