Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times

A crise dos combustíveis paralisa produtores agrícolas na Venezuela

Com agricultura a beira do colapso, metade da população está com fome; cerca de 4 milhões de venezuelanos já deixaram o país

Anatoly Kurmanaev e Isayen Herrera, The New York Times

11 de julho de 2019 | 06h00

PUEBLO LLANO, VENEZUELA - Na Venezuela, onde a fome é alarmante, um produtor rural cavoucou com um arado de madeira o seu campo e mostrou milhares de cenouras murchas. Os caminhões que deveriam buscar a sua colheita não apareceram. A escassez de combustível castiga o país desde maio, levando a agricultura à beira do colapso, e ameaçando acabar com o que resta da oferta de alimentos em uma nação em que cerca da metade da população já está ficando faminta. Enquanto isso, ao que se calcula, quatro milhões de venezuelanos deixaram o país.

“Tudo perdido”, afirmou o produtor, Joandry Santiago. A Venezuela é uma nação rica em petróleo. Mas anos de má administração e corrupção na indústria petrolífera, agravados pelas sanções americanas, secaram as bombas de gasolina. A escassez impediu que os produtores agrícolas levassem seus produtos ao mercado. E, agora, está tornando difícil a semeadura das novas safras.

A prefeitura de Pueblo Llano de Santiago, cidadezinha localizada nos Andes, na região oeste da Venezuela, era responsável por cerca de 60% da produção de batatas e cenouras do país. Mas a colheita deste ano só chegou à metade da de 2018, por causa da crise dos combustíveis.

Nas planícies mais a leste, a cana de açúcar estraga no pé e os campos de arroz pela primeira vez em 70 anos estão áridos, porque os produtores não têm as sementes e os fertilizantes para novas safras nem combustível para transportar a produção até os centros de distribuição. “Não é possível que o país fique sem alimentos enquanto aqui temos 6 mil hectares de legumes sem possibilidade de escoamento”, indignou-se Augusto Alarcón, diretor da cooperativa de produtores agrícolas de Pueblo Llano.

Principal associação agrícola da Venezuela, a Fedeagro calcula que a área plantada com as principais safras do país, milho e arroz, encolherá cerca de 50% este ano. “O colapso é exponencial”, afirmou Aquiles Hopkins, presidente da associação. “A única explicação possível é que o governo simplesmente não se importa”.

Gestão de Maduro

Um colapso dos serviços sob a presidência de Nicolás Maduro deixou milhões de pessoas sem um fornecimento confiável de eletricidade, água e gás de cozinha. Quando a crise das importações coincidiu com os apagões nas refinarias, em meados de maio, o país mergulhou no caos. Pelo menos duas pessoas morreram nas filas dos postos de gasolina que se seguiram.

Maduro prometeu US$ 35 milhões em novos créditos para os produtores agrícolas a fim de sanar a crise, mas os fornecimentos de combustível são escassos. Nos estados do oeste, que produzem a maior parte dos legumes e verduras do país, os moradores recebem apenas 30 litros de gasolina por mês.

Em uma recente visita a Pueblo Llano, 150 carros esperavam fora dos postos fechados pelo sexto dia consecutivo. Muitos motoristas dormiram em seus veículos para impedir roubos. “Enquanto estou aqui sentado na fila, a minha produção apodrece nos campos”, lamentou o agricultor Richard Rondón, que distribuía abóboras na sua picape. “Não tenho nada para a colheita”.

O preço das cenouras, batatas e bananas da terra mais que dobrou em Caracas. Um saco de batatas de 54 quilogramas custa cinco vezes mais do que o salário mínimo mensal. Então, os venezuelanos reduziram o consumo de legumes e passaram a alimentar-se de macarrão, arroz e milho processado, que muitos conseguem nas caixas de alimentos subsidiadas pelo governo.

O custo do transporte das batatas de Pueblo Llano a Caracas também triplicou nos últimos meses, segundo Oswaldo García, um dos últimos atacadistas de legumes que conseguiram sobreviver. Dois anos atrás, García operava uma frota de 70 caminhões que transportavam 120 tipos de legumes frescos por todo o país. Hoje, ele tem 15.

A escassez prejudicou totalmente a colheita do arroz e do milho. Em maio, impediu que os produtores plantassem uma nova safra antes do início da estação das chuvas. “Quando for a época da nova colheita, daqui a quatro meses, veremos o custo total desta escassez", projetou Víctor Sánchez, agricultor da cidade de Turén.

O seu vizinho, Roberto Latini, veio da Itália com a família em 1956, atraído pela oferta de terra de graça em uma colônia agrícola. Em junho, pela primeira vez, ele deixou seus campos em pousio. Latini, que depende da agricultura e só tem economias para sobreviver até a próxima estação de planto, disse que a decisão mudou sua vida. "Ela traz medo, angústia”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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