Camo Delgado Aguilera/The New York Times
Camo Delgado Aguilera/The New York Times

A cultura 'ballroom' cria raízes na Colômbia e traz consigo questões raciais

À medida que a cena se expande, também surgem preocupações com a apropriação e inclusão cultural

Genevieve Glatsky, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2022 | 05h00

BOGOTÁ, Colômbia - O tema era Met Gala - quer dizer, se o Met Gala tivesse vibradores e chicotes. Em uma noite de sexta-feira em outubro, centenas de convidados se espremiam em um estúdio de dança no segundo andar de um prédio ao norte de Bogotá, enfeitados com flores, correntes, espartilhos, longas asas esvoaçantes e maquiagem primorosa.

Os participantes concorriam a um grande prêmio, e no momento da categoria "sereia sexual", pegaram todo tipo de objetos, incluindo pirulitos e garrafas de bebida, para provocar os juízes, enquanto se despiam até quase a nudez total.

Sentado perto dos juízes, o comentarista da competição, Jhon Dewar Cordoba Valdes, mais conhecido como Papu, entoava frases de incentivo, alternando raps e rimas e berrando aos dançarinos expressões impublicáveis para se referir à genitália feminina. Elas soavam como elogios no dialeto da ballroom, a subcultura queer de competições de dança e desfiles fundada por homens gays e mulheres trans negras e latinas na cidade de Nova York na década de 1970.

O universo ballroom é relativamente novo na América Latina. Surgiu em 2013, quando um grupo de dançarinos começou a organizar disputas de voguing no Brasil e, desde então, espalhou-se para México, Chile, Costa Rica, Argentina e Colômbia.

Na Colômbia, um vídeo que viralizou recentemente, mostrando voguers em ônibus públicos, atraiu olhares internacionais para Bogotá. Também realçou um importante aspecto da cultura local: embora alguns eventos - como a festa inspirada no Met Gala - sejam realizados em teatros e estúdios de dança, a ballroom acontece principalmente em público. Eventos de rua atraem hordas de participantes, que desfilam e se exibem para multidões animadas. E praticamente todo domingo, há treinos de ballroom no parque Renacimiento, em Bogotá (até recentemente, organizados por Papu), onde dançarinos aperfeiçoam seus movimentos enquanto famílias passeiam com carrinhos de bebês e homens de meia-idade vestindo shorts de basquete observam, intrigados.

Contudo, com a expansão da ballroom na América Latina, aumentou a preocupação com questões de apropriação cultural, exploração e inclusão. Em que medida essa cultura deveria mudar e se adaptar a um novo contexto? Há esforços suficientes para incluir pessoas negras e trans?

No cenário colombiano, pouca gente fala tão abertamente sobre essas questões quanto Papu, de 22 anos, que nasceu em Quibdó, capital da província de Chocó, na Colômbia, mas que cresceu na cidade de Nova York. Desde que chegou ao universo ballroom de Bogotá, em março de 2020, ele vem se manifestando sobre a falta de representação afro-colombiana, e insiste no respeito às estruturas originais da ballroom, que assimilou em Nova York.

"As meninas latino-americanas não respeitam títulos, não respeitam hierarquias. Não seguem as orientações estabelecidas pela ballroom. Elas são rebeldes, só querem fazer o que querem", disse Papu em entrevista.

Em Nova York, a cultura ballroom foi fundada pelos membros mais vulneráveis da sociedade, incluindo jovens moradores de rua e trabalhadores sexuais. Porém, em toda a América Latina, a cultura foi importada principalmente por bailarinos profissionais brancos e cisgênero, que conheceram o voguing por meio do mundo da dança - e só então passam a ver a ballroom como um estilo de vida, uma comunidade.

Na festa que Papu organizou em outubro em Medellín, na Colômbia, Sky Vemanei, DJ de gênero não-binário de 32 anos, natural de Nova York, que já lidou com universos ballroom em toda a América Latina, disse à multidão, "Ballroom não é um concurso de dança. E ballroom não é um desfile de moda. E ballroom não é o Drag Race".

Segundo Vemanei - cujos comentários receberam manifestações de aprovação - a ballroom existe especificamente para valorizar e celebrar pessoas trans de pele escura. "Se sua pele não for escura assim", acrescentou, mostrando o próprio braço, "é sua obrigação criar um espaço prioritário para essas pessoas".

Vemanei, que recentemente deixou a House of Labeija para formar sua própria comunidade, disse em entrevista que muitas comunidades ballroom latino-americanas "não têm muita experiência em discutir o privilégio branco, nem a branquitude em geral - e quem efetivamente pertence à ballroom, e para quem esse espaço foi criado".

A América Latina tem 130 milhões de afrodescendentes, comparados a 42 milhões nos Estados Unidos. Mas os níveis mais altos de miscigenação levaram a mitos nacionais de democracia racial, que encobrem histórias de segregação, desigualdade e discriminação. Isso perpassa todas as áreas da sociedade, incluindo a ballroom. Participantes negros em toda a América Latina dizem que o racismo, o colorismo, a hiperssexualização de corpos negros e a valorização dos padrões de beleza eurocêntrica persistem.

Na Colômbia, que tem a segunda maior população afrodescendente na América do Sul, depois do Brasil, Papu disse sentir que o componente racial essencial à ballroom estava sendo deixado de fora. Para ele, perceber que não podia escapar do racismo mesmo em seu país natal foi desolador.

Ele se lembra de ter pensado: "Ok, estou na realidade agora. Já sou grandinho, agora já compreendo".

Contudo, muitos participantes na Colômbia consideram Papu um intruso, intrometendo-se em uma cultura que não conhece, e dizendo às pessoas como fazer as coisas sem antes conhecê-las, nem reconhecer o que já construíram.

Mauricio Godoy, de 27 anos, conhecido como Pantera, membro afro-colombiano não-binário da House of Yeguazas, disse em entrevista que enquanto houver "microrracismos" nesse ambiente, como ouvir "você até que é bonitinho para um cara negro", a ballroom colombiana ainda será um espaço em construção.

"Não dá para exigir que um recém-nascido saia andando só porque eu quero, isso não vai acontecer. É preciso ter paciência. Não se constrói uma casa de ballroom sem berros e bravatas; uma casa é construída com prática, um tijolo de cada vez", reconhece Pantera.

O que Papu chama de "rebelde" no cenário latino-americano também vem de um relacionamento historicamente tenso com os Estados Unidos, e da relutância em se sentir colonizado. Vemanei frisou que as categorias originais da ballroom americana nem sempre existem em outros lugares, pois cada país tem seu próprio relacionamento com a colonização, a opressão e os direitos queer: "Cada país responde a dinâmicas muito específicas, que nem sempre equivalem às lutas dos queer negros americanos".

E apesar da ballroom latino-americana ainda ter muito a evoluir quando se trata de debater privilégio branco e raça, já se tornou um espaço mais acolhedor para pessoas não-binárias do que a americana.

Jose Toledo, de 28 anos, mãe-fundadora da Casa das Cobras, na Colômbia, passou um período em Nova York estudando a cultura ballroom. Quando voltou à Colômbia, Toledo, que usa os pronomes ela/dela, começou a se identificar como mulher trans não-binária e fundou sua própria casa, e percebeu que certas estruturas do ambiente de Nova York não se aplicavam à sua realidade.

Toledo usa maquiagem, saia e unhas compridas, mas mantém os cabelos curtos e não sente necessidade de fazer cirurgia de transição. Se chegasse como mulher trans a uma ball em Nova York, ela diz que ouviria comentários como "Você não parece mulher: Cadê seu cabelo? Cadê os peitos?".

As pessoas queer enfrentam um risco enorme de sofrer violência e discriminação em toda a América Latina. A ballroom proporciona uma família, uma comunidade e um espaço de liberdade para celebrar as nuances de sua identidade. A Colômbia é um país majoritariamente católico e socialmente conservador, e mesmo na relativamente progressista cidade de Bogotá, que elegeu uma prefeita lésbica em 2019, histórias de agressões físicas e verbais são comuns.

Muitos participantes das balls de Bogotá consideram o gênero como algo fluido, e a transição, como um processo sem destino fixo. Pelos faciais e corporais, cabelo longo, perucas, maquiagem, vestidos, saltos altos, unhas feitas e lingerie são todos elementos válidos. Terapia hormonal e cirurgia nem sempre são opções acessíveis, e nem mesmo desejadas.

A ballroom original era geralmente dividida em categorias, como femme queens, para mulheres trans, e butch queens, para homens gays. Mas na Colômbia, as categorias são normalmente abertas a todos. Toledo considera que não seria bom separar as pessoas.

Isso também representa um desafio para as categorias tradicionais, como a "realidade", na qual participantes competem para saber se passariam por hétero, se forem gays, ou por cisgênero, se forem transgênero. A categoria celebra e recompensa o mimetismo que os gays historicamente precisavam adotar.

Na América Latina, muitas pessoas gays se ressentem do julgamento que sofrem dependendo de quão bem se enquadram nos padrões de beleza que podem nem estar tentando atingir.

Nesse aspecto, Papu também causou incômodo ao criticar as modificações às estruturas originais. Ele conta que quando começou, competir na "realidade" fazia com que se sentisse confortável e confiante em seu próprio corpo. E ver a maioria dos integrantes brancos-mestiços da ballroom da Colômbia alterar essa cultura lhe pareceu desrespeitoso; algo que chamou de "mentalidade branca".

"Se eu quiser mudar, eu posso", disse ele a respeito da atitude de alguns membros brancos-mestiços em relação à ballroom. "E se eu quiser fazer isso, eu posso. E eu posso pegar o que é seu, e tornar meu. Todos temos nosso espaço, e acho que esse é o espaço para pessoas como eu", diz Papu, mas questiona: "se eliminarem a 'realidade', para onde iremos"?

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