Foto por Lee,Chang W.
Foto por Lee,Chang W.

A difícil arte de pedir desculpas

Catolicismo e futebol trazem lições de remorso

Alan Mattingly, The New York Times

16 Setembro 2018 | 10h00

Serena Williams queria um pedido de desculpas. A estrela americana do tênis estava sendo penalizada na final do US Open na semana passada, e estava furiosa com o juiz da partida, Carlos Ramos.

“Você me deve um pedido de desculpas", exigiu ela. “Peça! Diga que pede desculpas.”

Muitos fãs tomaram o partido de Serena depois que ela acabou derrotada por Naomi Osaka, mas outros defenderam a imparcialidade de Ramos. Para eles, era Serena quem deveria se desculpar por manchar a conclusão do torneio.

No fim, a única pessoa a pedir desculpas foi aquela que ninguém acusou de ter feito nada de errado.

“Sei que todos estavam torcendo por ela", disse Naomi, 20 anos, logo depois de ganhar seu primeiro título do Grand Slam, dirigindo-se à multidão. “Sinto que as coisas tenham terminado desse jeito.”

Para alguns observadores, essa foi a maior injustiça do torneio. “É péssimo que o momento de alegria e triunfo dela tenha sido estragado pelas vaias da plateia a ponto de ela sentir a necessidade de se desculpar por ter derrotado a favorita do público", escreveu Margaret McGirr numa carta ao Times.

Isso não deve ter surpreendido Margaret Renkl, que já apontou a dificuldade que as pessoas têm de pedir desculpas mesmo depois que a opinião pública se volta contra elas. Analisando alguns casos de maior destaque, como o da mensagem vista por muitos como racista publicada pela atriz Roseanne Barr, “há muito indicando que quase ninguém na vida pública sabe o significado do arrependimento genuíno", escreveu Margaret Renkl no Times. “Ou ao menos como expressar esse arrependimento.”

Mas estamos falando de um conhecimento que pode ser aprendido. Basta perguntar a qualquer um que conheça a ideia da “culpa católica”, como a própria Margaret Renkl.

“Uma das coisas mais úteis que o catolicismo me ensinou foi a estrutura fundamental de um pedido de desculpas", escreveu ela. A origem dessa estrutura estaria numa prece, o Ato de Contrição, que começa assim: “Ó meu Deus, com todo o meu coração eu me arrependo…”

De acordo com Margaret Renkl, quando chegamos ao fim da prece, aprendemos que um verdadeiro pedido de desculpas inclui o remorso autêntico, a aceitação das consequências e a decisão de não voltar a cometer a falta, nem de se colocar numa situação em que exista essa possibilidade.

Ela escreve que a prece é “uma ótima referencia básica para algo que não parece mais ser elementar: como arrumar a bagunça que nós mesmos fazemos".

É claro que nem todos se sentirão inclinados a buscar o catequismo para aprender a contrição, principalmente agora. “Deus sabe que o mundo ainda está esperando um pedido de desculpas da Igreja Católica pelos crimes cometidos pela instituição", escreveu Margaret Renkl.

Mas talvez haja um método de desculpas que possamos aprender com uma das outras grandes religiões do mundo: o futebol. Quem acompanhou um pouco a Copa do Mundo este ano deve ter visto a cena muitas vezes: jogadores que perderam um gol, erguendo as mãos e levando-as à cabeça. Os astros fazem isso. 

Equipes fazem isso juntas. Psicólogos e zoólogos estudaram o gesto, e dizem que este transmite descrença, ou vergonha.

Ou, como no Ato de Contrição, expressa o bom e velho remorso.

O movimento significa que “você sabe que fez besteira", disse Jessica Tracy, professora de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica. “É algo que indica aos outros, ‘entendi e peço desculpas, não há necessidade de me expulsar do grupo nem me matar.’”

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