Gabriella Demczuk para The New York Times
Gabriella Demczuk para The New York Times

A dinamarquesa que mete medo no Vale do Silício

Margrethe Vestager é a reguladora mais poderosa do mundo, tendo arrecadado bilhões de empresas como Apple, Google e Facebook

Sarah Lyall, The New York Times

15 de junho de 2018 | 15h45

COPENHAGUE - A decisão de Margrethe Vestager de investigar os planos de aquisição da plataforma de identificação musical Shazam pela Apple pode parecer de menor importância, de acordo com os critérios dela. Como comissária da concorrência da Europa, Margrethe é conhecida por sua agressividade nos processos contra gigantes do Vale do Silício, e a compra do Shazam é peixe pequeno, avaliada em muito menos de US$ 1 bilhão.

Mas o interesse de Margrethe na transação não está ligado ao volume de dinheiro em jogo, e sim ao volume de dados. Numa economia da informação em rápida expansão, ela acredita que o controle dos dados é a nova fronteira regulatória.

“Estamos nos esforçando para compreender as diferentes leis dos dados: como eles funcionam enquanto ativo, e como influenciam o mercado", disse Margrethe. “O que vai acontecer quando os dados mantidos pela Apple forem combinados aos dados do Shazam?”

A dinamarquesa Margrethe, 50 anos, é talvez a autoridade regulatória mais famosa do mundo. Ela passou os últimos quatro anos investigando empresas americanas de tecnologia, ordenando que pagassem bilhões de dólares em multas e impostos vencidos.

As decisões dela contra Apple, Facebook, Google e Qualcomm fizeram da União Europeia (em vez de Washington) a Grande Autoridade Reguladora do universo da tecnologia, fazendo de Margrethe uma espécie de celebridade da regulamentação internacional. Ela foi uma das inspirações para a personagem principal de uma série de TV dinamarquesa. Multidões a acompanham para ouvi-la falar.

Seu apelo fala a um impulso populista da esquerda, uma crença segundo a qual já passou da hora de alguém enfrentar as corporações gigantes numa batalha de Davi e Golias. Mas nem todos a consideram uma heroica guerreira da regulamentação.

Seus críticos incluem líderes de empresas americanas de tecnologia que discordam da abordagem dela e dos fatos que apresenta, bem como republicanos do congresso dos EUA e alguns funcionários do governo Trump.

“O mais fascinante no trabalho dela é o fato de, na sua concepção, o novo combate à formação de trustes está ligado aos dados, e não ao poder de mercado", disse o executivo Randy Komisar, veterano do Vale do Silício.

Outras jurisdições estão seguindo o exemplo europeu. Entre outros países, o Brasil abriu um processo contra formação de trustes envolvendo o Google. “É ótimo que possamos inspirar o trabalho uns dos outros pelo mundo", disse Margrethe.

Formada em economia, ela cresceu em Glostrup, subúrbio de Copenhague, filha de dois pastores luteranos (é seguidora da filosofia “amar a Deus, temer a igreja”).

Ela começou na política aos 21 anos, entrando para o Partido Social Liberal Dinamarquês, fundado pelo seu bisavô. Eleita para o parlamento em 2001, ela se tornou a líder do partido na câmara seis anos depois e foi criticada por ser jovem demais, monótona demais e mulher, quando os sociais liberais perderam metade de seus assentos na eleição subsequente.

A sorte do partido mudou nas eleições de 2011. Nomeada para o novo cargo de ministra da economia e do interior, Margrethe fez avançar cortes muito impopulares nos benefícios de aposentadoria e seguro-desemprego, ao mesmo tempo aprovando políticas de imigração mais liberais.

Ela fez inimigos, entre eles um grupo de trabalhadores aposentados furiosos com a redução de seus benefícios. Ela ainda guarda em seu escritório de Bruxelas a escultura que ganhou do grupo, com uma mão mostrando o dedo médio, dizendo que serve como “lembrete do fato de que cometemos erros, e as pessoas terão diferentes pontos de vista, e isso deve fazer parte do nosso entendimento de nós mesmos".

O marido de Margrethe, Thomas Jensen, professor de matemática e filosofia, vive em Copenhague com a filha mais nova do casal, de 15 anos. As duas filhas mais velhas estão na faculdade.

Recentemente, ela tem pensado no poder: o que é, quem o possui, como é usado. “O movimento #MeToo pode, talvez, ser o mais importante catalisador das décadas mais recentes", disse Margrethe.

“O poder não é algo que pertence a alguém", prosseguiu ela. “Trata-se de algo que só pode ser emprestado.”

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