Josh Haner/The New York Times
Josh Haner/The New York Times

A erosão da Ilha de Páscoa

Ondas cada vez mais altas colocam em risco o passado de uma civilização e o futuro de seus descendentes

Nicholas Casey e Josh Haner, The New York Times

24 Março 2018 | 10h30

HANGA ROA, ILHA DE PÁSCOA ­- Os ossos humanos jaziam sob o calor do sol. Não era a primeira vez que o arquiteto Hetereki Huke encontrava um túmulo aberto. Já há anos as ondas cada vez mais fortes arrebentavam plataformas que continham restos antigos. Dentro dos túmulos havia pontas de lança de obsidiana, pedaços de ossos cremados e, às vezes, partes das estátuas que tornaram esta ilha famosa.

Mas, nesse caso, era diferente. O local do desabamento era onde gerações de ancestrais de Huke foram enterrados. “Esses ossos têm parentesco com a minha família", disse Huke, lembrando desse dia no ano passado.

Séculos atrás, a civilização da Ilha de Páscoa entrou em colapso, mas as estátuas deixadas para trás são um lembrete do quanto esta deve ter sido poderosa. E agora, muitos dos restos dessa civilização podem ser apagados pela alta dos oceanos que está erodindo rapidamente o litoral da Ilha de Páscoa, alerta a Organização das Nações Unidas. Muitas das estátuas moai, quase todos os ahu, as plataformas que em muitos casos funcionam como túmulos para os mortos, cercam a ilha. Com alguns modelos climáticos prevendo que o nível do mar pode se elevar até 2 metros até 2100, moradores e cientistas temem que tempestades e ondas representem agora uma ameaça como nunca antes.

“Sentimos uma impotência diante da situação, por não podermos proteger os ossos de nossos próprios ancestrais", disse Camilo Rapu, diretor da organização indígena Ma’u Henua, que controla o Parque Nacional Rapa Nui, cobrindo a maior parte da ilha, e seus sítios arqueológicos. “É uma dor imensa.”

Destinos semelhantes são enfrentados pelos habitantes das ilhas de todo o Oceano Pacífico. Na ilha, que teve grande parte reconhecida como patrimônio mundial da Unesco, o futuro e o passado estão ameaçados. Os sítios arqueológicos são fundamentais para a principal indústria local: o turismo. No ano passado, a ilha de 6 mil habitantes atraiu mais de 100 mil visitantes. Os hotéis, restaurantes e empresas de turismo da Ilha de Páscoa faturam mais de US$ 70 milhões por ano.

Os turistas costumam começar a visita em Tongariki, onde acompanham o nascer do sol por trás de uma fileira de monólitos de costas para o mar. Os grupos se separam visitando Anakena, a praia da ilha, ou as plataformas antigas de Akahanga, vasto sítio de vilarejos antigos na costa onde, de acordo com a tradição, o mítico fundador da ilha, Hotu Matu’a, estaria enterrado. Os três sítios podem agora ser erodidos pela alta das águas, dizem os cientistas. “Não queremos que as pessoas tenham apenas fotos antigas desses lugares", disse Rapu.

Os arqueólogos temem que a alta das águas possa apagar indícios do que provocou o colapso da civilização que construiu as estátuas de pedra. Há cerca de mil anos, os polinésios descobriram a ilha. Criaram uma civilização que construiu mais de 1.100 moais, muitos dos quais foram transportados até quilômetros de distância das pedreiras de onde saíram. Com o aumento da população, a ilha, antes coberta pela floresta, foi desmatada. Os europeus trouxeram novas doenças. Dúzias de moais foram abandonados antes de concluídos. Já em 1870, a população local era de pouco mais de cem habitantes - no auge, estima-se que ali viveram milhares de pessoas.

Os arqueólogos debatem se a causa do declínio foi o esgotamento de recursos, as doenças, a guerra civil, ou talvez os ratos que chegaram com os ilhéus e dizimaram as florestas. E as pistas talvez estejam nas plataformas mortuárias, que guardam alguns dos restos que podem ser examinados para o estabelecimento de uma cronologia.

O estrago foi rápido na praia de Ovahe, perto de onde Huke encontrou os ossos ao sol. Durante gerações, o local ficava nas areias de uma praia. Ali perto, alguns locais de enterro não marcados eram cobertos com pedras. Agora as ondas levaram a maior parte da areia. Os locais de enterro foram afetados. “Certa vez, nadei em Ovahe e a areia parecia se estender por quilômetros", disse Pedro Pablo Edmunds, prefeito de Hanga Roa. “Agora é tudo pedra.”

Num sítio chamado Ura Uranga Te Mahina, na costa sul da ilha, funcionários do parque ficaram alarmados no ano passado quando blocos de uma parede de pedra equilibrados a uma altura de aproximadamente três metros desabaram depois de serem golpeados pelas ondas. “Agora, tudo isso vai ruir em seguida", disse Rafael Rapu Rapu, arqueólogo-chefe de Ma’u Henua, apontando para um mapa mostrando as plataformas atrás da parede de pedra.

Ele tentou usar medidas para diminuir o estrago. Usando parte de uma bolsa de US$ 400 mil oferecida pelo governo japonês, funcionários do governo local construíram uma muralha oceânica. Mas ainda não se sabe se a muralha será suficiente, ou se os ilhéus devem pensar em levar as plataformas e estátuas para longe da costa.

A cratera vulcânica de Orongo, que era o centro da atividade da civilização nos idos de 1600, últimos anos antes do contato com os europeus, representa um desafio maior. Ilhéus reunidos para uma competição anual de natação na qual jovens apostavam corrida até uma ilha próxima, Motu Nui, para apanhar ovos de pássaros. O vencedor determinava qual seria o clã governante no ano seguinte. As histórias dessas corridas são contadas principalmente em petróglifos inscritos na pedra voltada para a cratera, vulnerável à ação das tempestades e da gravidade.

Funcionários do parque disseram que estão explorando a possibilidade de ancorar as inscrições em pedras mais estáveis. “Se podemos levá-las para outro lugar?”, disse Rapu. “Sim, mas perderíamos seu contexto, perdemos sua história ao fazê-lo.”

Rapu, que cresceu na ilha, disse que hoje poucos pássaros fazem seu ninho em Motu Nui, consequência do que ele suspeita serem mudanças nos padrões climáticos. Ele contou as histórias do pai, que falava em grandes migrações de aves que chegavam com regularidade, como ocorria na ocasião das competições.

Sebastián Paoa, diretor de planejamento de Ma’u Henua, disse ter certeza que os habitantes da ilha encontrariam uma maneira de superar o desafio da alta do nível do mar, assim como sobreviveram ao colapso da civilização antiga. “Eles sabem que o meio ambiente estava se desfazendo, mas isso não os impediu de persistirem aqui", disse ele.

Huke disse ter o mesmo sentimento. “Ilhas como a nossa sempre são as primeiras a enfrentar a mudança climática", disse ele. “Estamos aqui há mil anos. Já superamos coisas assim. O mundo não está acabando. E, pode acreditar, já passamos por desastres ecológicos antes.”

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