Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

A Europa precisa de um plano B

Depois da atuação de Trump em Helsinque, os europeus questionam a confiabilidade de seu governo

Wolfgang Ischinger, The New York Times

28 Julho 2018 | 10h00

BERLIM - As últimas semanas foram difíceis para os defensores europeus da parceria transatlântica para os quais ainda não chegou a hora de desistir dos Estados Unidos. O presidente Donald J. Trump quase acabou com uma cúpula da Otan, ofendeu seus anfitriões na Grã-Bretanha e chamou a União Europeia de "adversária" dos EUA, para em seguida se aproximar de Vladimir Putin, um "bom concorrente".

Durante meses, os europeus preocupados com as afirmações de Trump receberam garantias de seus amigos americanos: ignorem as mensagens no Twitter, concentrem-se naquilo que este governo está fazendo e confiem em nossos freios e contrapesos. Isso fazia algum sentido. Integrantes do alto escalão do gabinete, como o secretário de defesa, mantiveram seu compromisso com a ordem liberal internacional e com as alianças e parcerias dos EUA. O congresso defendeu eloquentemente a Otan. E soldados americanos ainda garantem a segurança da Europa.

Mas, nas relações internacionais, os atos não falam por si; as palavras também são importantes. As crenças centrais de Trump estão em conflito com os fundamentos da grande estratégia seguida pelo Ocidente desde meados dos anos 1940. Ele acredita que os EUA estão sendo prejudicados em suas relações com os aliados europeus. Demonstra admiração por autocratas como Kim Jong-un e Putin, enquanto reserva seus comentários mais ácidos para aliados democráticos como Angela Merkel, da Alemanha, e Justin Trudeau, do Canadá. Trump representa o oposto do internacionalismo liberal.

Isso transmite à Europa uma mensagem triste: a era da benigna hegemonia americana pode ter chegado ao fim, e a Europa se encontra extremamente mal preparada para lidar com essa nova realidade.

Nos dias 11 e 12 de julho, Trump sabotou uma cúpula da Otan que estava produzindo resultados: a reafirmação da meta dos países membros de gastar 2% do PIB em defesa já em 2024. Embora os gastos militares europeus venham aumentando, Trump apontou corretamente que alguns membros, entre eles a Alemanha, não estão fazendo o bastante. As preocupações dele em relação aos desequilíbrios comerciais também são legítimas.

Ainda assim, descrever equivocadamente este objetivo como uma "dívida" em relação aos EUA dificulta para os líderes europeus o trabalho de pedir a seus eleitores que aumentem os gastos com a defesa. E seus comentários fanfarrões levaram os europeus a suspeitar que ele estaria mais interessado em abandonar a aliança do que em liderá-la.

Ameaças veladas desse tipo atacam os alicerces da aliança: a ideia de solidariedade mútua e o compromisso com a segurança uns dos outros. Os americanos nos dizem que Trump não pode deixar a Otan sem o consentimento do senado - um aspecto questionável que desvia o foco da verdadeira questão. Qualquer dúvida em relação ao compromisso dos EUA enfraquece a credibilidade da capacidade de dissuasão da Otan.

É isso que torna tão perigosos os comentários de Trump. Talvez eles consigam mais alguns bilhões de dólares em gastos com a defesa, mas destroem as garantias que esses dólares - ou euros - buscam sustentar.

Essas incertezas foram ampliadas pela bizarra aparição do presidente ao lado de Putin em Helsinque,  na Finlândia. Na prática, Trump desacreditou sua própria comunidade de espionagem. Perdeu a oportunidade de declarar que a interferência russa em democracias ocidentais é inaceitável. Se Putin não se sente encorajado agora, o que mais pode faltar? Quem poderá acreditar que a interferência em eleições democráticas tem um preço? O papel prestado por Trump pareceu indicar que os EUA estão prontos para abrir mão da ambição de serem os líderes respeitados do mundo livre.

Para os amigos e aliados europeus dos EUA, foi um espetáculo doloroso de assistir. Durante o governo Trump, tentamos manter a proximidade e a amizade com os EUA, influenciar o governo Trump e proteger os interesses europeus. Não funcionou. 

Trump ignorou nossas preocupações ao abandonar o acordo climático de Paris e o pacto nuclear com o Irã, e aplicou tarifas comerciais a seus aliados mais próximos. Por que os europeus deveriam considerar este governo um parceiro confiável?  Uma recente pesquisa de opinião realizada pela ZDF Politbarometer revelou que apenas 9% dos alemães confiam no atual governo americano.

Mas não há plano B, o que nos leva a um dilema: os europeus não podem enfrentar o mundo sozinhos, mas devemos estar preparados para sermos deixados sozinhos. Assim, precisamos desenvolver um plano B. Simplesmente baixar a cabeça e esperar o pior passar não será  suficiente. 

Primeiro, a Europa precisa de uma abordagem dupla. Devemos reforçar nossa prontidão militar e capacidade de decisão, ao mesmo tempo mostrando para a Casa Branca que suas ações têm um custo para os EUA. Devemos também abordar algumas das preocupações de Trump, como o aumento nos gastos com a defesa - mas devemos fazê-lo de acordo com nossos próprios interesses, e não para agradá-lo.

Devemos também fazer uma oferta para trabalhar em conjunto com os americanos que acreditam que uma forte parceria com a Europa continua sendo do interesse dos EUA. Os europeus precisam conversar, se comunicar e fortalecer seus laços com o congresso dos EUA, com governadores americanos, com a comunidade comercial americana e com a sociedade civil do país.

Mas será que podemos confiar no sistema de governo americano e em seu funcionamento prometido? Agora é o momento de colocar em prática seus freios e contrapesos! Não quero correr o risco de "interferir com uma potência estrangeira", mas será que há senadores republicanos dispostos a se recusarem a votar num indicado por Trump até que ele pare de diminuir sua própria comunidade de espionagem?

A segurança não deveria ser uma questão que opõe EUA e Europa. Muitas sociedades ocidentais estão divididas entre aqueles que acreditam em preservar a ordem posterior à Segunda Guerra Mundial e aqueles que preferem substituí-la pelo nacionalismo do século 19.

Nós, europeus que acreditamos que o abandono da ordem liberal ocidental seria um ato de estupidez extraordinário, precisamos fazer mais. Mas não teremos sucesso sem o apoio robusto de amigos que compartilhem da mesma mentalidade do outro lado do Atlântico.

Wolfgang Ischinger é presidente da Conferência de Segurança de Munique desde 2008, e é professor da Faculdade de Governança Hertie, em Berlim. 

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