Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
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A floresta está caindo mais rápido no Brasil

Parte da Amazônia brasileira perdeu mais de 3.445 quilômetros quadrados de floresta desde a chegada à presidência do populista Jair Bolsonaro

Leticia Casado e Ernesto Londoño, The New York Times

01 de agosto de 2019 | 06h00

BRASÍLIA - A destruição da floresta tropical da Amazônia, no Brasil, vem aumentando rapidamente desde que a posse do novo presidente de direita, e o seu governo vem freando gradativamente os esforços empreendidos contra a derrubada ilegal de árvores, a abertura de fazendas e a mineração.

Parte da Amazônia brasileira perdeu mais de 3.445 quilômetros quadrados de floresta desde a chegada à presidência do populista Jair Bolsonaro, em janeiro deste ano, ou seja, um aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a agência governamental que acompanha o desmatamento. Bolsonaro minimizou os números relativos ao desmatamento, e chamou de “mentiras” os dados do seu próprio governo.

Uma análise dos registros públicos feita pelo jornal The New York Times constatou que as ações da principal agência ambiental brasileira - como multas, advertências e apreensão ou destruição de equipamentos ilegais em áreas protegidas - caíram 20% nos seis primeiros meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2018. A queda significa que vastos trechos da floresta poderão ser  arrasados sem que as autoridades oponham grande resistência.

“Enfrentamos o risco de um desmatamento descontrolado na Amazônia”, escreveram em maio oito ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil em uma carta conjunta, afirmando que o país precisa fortalecer suas medidas de proteção ambiental.

A postura do governo Bolsonaro provocou fortes críticas dos líderes europeus, introduzindo um elemento de atrito no acordo comercial concluído em junho entre a União Europeia e um bloco de quatro países, entre eles o Brasil.

Durante uma recente visita, o ministro da Cooperação e Desenvolvimento Econômico da Alemanha, Gerd Müller, afirmou que a proteção da Amazônia é um imperativo global, principalmente considerando o papel vital da floresta tropical na absorção e armazenamento do dióxido de carbono, essencial para a redução do aquecimento global, conforme é o objetivo da iniciativa. Quando as árvores são cortadas, queimadas ou arrancadas com tratores, o dióxido de carbono volta diretamente para a atmosfera.

Alemanha e Noruega também contribuem para o fundo de conservação da Amazônia com $ 1,3 bilhão, mas o governo Bolsonaro questionou a sua eficácia.

“Sem as florestas tropicais, não será possível resolver a questão do clima”, disse Müller.

Bolsonaro descartou as críticas internacionais, afirmando que os apelos para a preservação de grandes regiões do Brasil fazem parte de um complô global com a finalidade de prejudicar o desenvolvimento do seu país. No mês passado, ele acusou lideres europeus de pressionarem para uma maior conservação da Amazônia porque eles próprios esperam desenvolvê-la. “O Brasil é como uma virgem que todo pervertido  de fora deseja”, afirmou. “A Amazônia é nossa, não de vocês”.

Em anos passados, o Brasil procurou  apresentar-se como um líder da proteção da Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, e do combate ao aquecimento global. De 2004 e 2012, o país criou novas áreas de preservação, aumentou o monitoramento e retirou os créditos governamentais de produtores rurais apanhados arrasando áreas protegidas. Esta medida contribuiu para atingir o menor patamar de desmatamento desde que começou a coleta de dados.

Mas com a recessão econômica de 2014 em diante, o país passou a depender mais das commodities agrícolas que produz - carne e soja, justamente os fatores do desmatamento - e do poderoso lobby rural. A limpeza da terra aumentou novamente. Bolsonaro prometeu acabar com as barreiras remanescentes ao desenvolvimento de terras protegidas. E também se referiu de maneira debochada ao trabalho da agência do meio ambiente, que ele experimentou em primeira mão.

Em 2012, agentes ambientais interceptaram um pequeno barco pesqueiro em uma reserva ecológica em que viajava Bolsonaro, então deputado federal. José Augusto Morelli, o agente encarregado, disse que Bolsonaro se recusou a sair e foi multado.

Ele jamais pagou a multa, rescindida logo depois que ele prestou juramento como presidente. No final de março, Morelli foi rebaixado de posto, decisão que ele considera um ato de retaliação pela multa.

Agora o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, quer criar um mecanismo que confere a um painel do governo o poder de reduzir ou suspender as multas ambientais, o que preocupa as autoridades de governos anteriores, para as quais esta medida enfraquecerá ainda mais a aplicação da lei.

Outros funcionários dos altos escalões do governo Bolsonaro reagiram ao aumento do desmatamento com uma mescla de desmentidos e atitudes de defesa. Onyx Lorenzoni, o chefe de gabinete, combate o que ele chama de tentativas externas de impor uma política ambiental ao Brasil.

“Não somos ingênuos”, afirmou Lorenzoni. “Há uma visão por aí, patrocinada por organizações não governamentais, que relativiza a soberania do Brasil em relação à Amazônia”.

Mas, em um recente encontro com os jornalistas ele advertiu: “Aqui vai uma pequena mensagem: ‘Não brinquem com a gente!”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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