Isaiah Winters/The New York Times
Isaiah Winters/The New York Times

A galáxia musical de Moor Mother fica ainda maior

Camae Ayewa faz uma mistura de hip-hop, poesia falada, punk e electro como Moor Mother e com Irreversible Entanglements, ela grava um free jazz escaldante

Marcus J. Moore, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2022 | 05h00

A poeta e musicista Camae Ayewa é um estudo de movimento contínuo. Em uma recente videochamada de Los Angeles, ela conversou enquanto andava pelo seu apartamento, parando para abrir alguns armários em busca de uma pastilha Ricola para tosse. “Quando as pessoas saem comigo, não vamos ficar apenas sentados e conversando o tempo todo”, ela disse. “Gosto de criar. É minha energia.”

Não é novidade que Ayewa é uma talentosa artista multitarefa. Nos últimos cinco anos, ela lançou uma mistura melancólica de hip-hop, poesia falada, punk e electro sob o nome de Moor Mother - um punhado de LPs solo aclamados pela crítica, dois (com outro a caminho) como membro do quinteto de free jazz Irreversible Entanglements e um disco de rap conjunto com o rapper do Brooklyn Billy Woods. Não há como saber onde ela vai aparecer: com a trupe de jazz britânica Sons of Kemet, se apresentando com o Art Ensemble of Chicago ou no palco com o pianista Vijay Iyer.

“Eu conheço pessoas, então estabelecemos uma ligação e algo acontece”, disse Ayewa. A pandemia de covid-19, no entanto, forçou-a a explorar algo diferente para seu novo álbum, Black Encyclopedia of the Air, que foi lançado na semana passada. Sem a interação cara a cara que prefere, ela começou a trabalhar no álbum sozinha na primavera de 2020 como um divertido projeto paralelo para explorar as texturas tradicionais do hip-hop.

Produzido em grande parte por Olof Melander (cujas batidas misturam free jazz e eletrônica), e com participações dos rappers maassai, Nappy Nina, Lojii e Pink Siifu, o último álbum de Ayewa é um dos mais diretos até agora. “Como a maioria das pessoas na Costa Leste, comecei a entrar em depressão”, ela explicou. (Ela atualmente leciona composição na University of Southern California, mas passou a maior parte da pandemia na Filadélfia.) “Então, eu ouvia este álbum e ele tornou-se um processo de cura, enquanto trabalho em outras coisas.”

A maior parte do catálogo Moor Mother é, em uma palavra, intenso. Veja The Myth Hold Weight de seu álbum de 2016 Analog Fluids of Sonic Black Holes. “Queremos nosso dinheiro de volta / impresso em algodão novo e um copo de sangue da fonte Confederada / que corre pelas montanhas Blue Ridge”, ela fala em uma faixa de bleeps e bloops leves que soam como uma nave espacial aterrissando. Às vezes, pode parecer que Ayewa vive em seu próprio mundo. (Quando questionada sobre sua idade, ela respondeu: "Eu não acredito em idade.")

Iyer, que colaborou com Ayewa em um show em Prospect Park em agosto, disse que suas letras são "tão ecléticas, tão vastas, tão profundas, tão cortantes".

“Tudo isso”, ele continuou, “o lado sonoro da artista, o lado do hip-hop, a poesia espontânea, a colaboração e a comunidade, a imaginação que se expande, tudo isso junto continua a ser super empolgante de seguir e ser uma parte do mundo dela de alguma forma. ”

Algumas das primeiras memórias musicais de Ayewa incluem ouvir gospel quando era criança em Aberdeen, Maryland. Seu pai cantava no coro da igreja e ela acabou seguindo o exemplo, até que parou para começar a praticar taekwondo.

Ela sorriu muito ao falar sobre seu primeiro amor - o basquete - que ela começou depois que sua irmã Paulette se tornou uma grande jogadora no North Carolina A&T. “Então eu descobri Bob Marley,” ela disse com um sorriso. “Comecei a ser um pouco mais criativa, tipo ‘talvez eu queira ser uma artista ’.” Ela começou a ouvir hip-hop; os rappers MC Lyte e Da Brat estão entre seus favoritos.

“O hip-hop era tão legal”, disse Ayewa. “Havia tantos artistas diferentes em tantas caixas diferentes, não apenas um tipo único.”

Quando Ayewa se mudou para a Filadélfia para estudar fotografia no Art Institute, ela começou uma dupla de rap com sua melhor amiga, Rebecca Roe, chamada Mighty Paradocs, que logo se transformou em uma banda punk - “uma espécie de encontro entre Rage Against the Machine e Bad Brains”, disse Ayewa - com letras políticas e instrumentalização ousada. Isso levou a uma série de concertos mensais chamada Rockers !, um lugar para músicos com ideias semelhantes que faziam arte esotérica que não se encaixava em um determinado espaço. Os shows duraram mais de uma década. Ao longo do caminho, Ayewa começou ou fez parte de várias bandas ou coletivos, cada um representando diferentes aspectos de sua arte: Girls Dressed as Girls, um estilo punk lo-fi; Black Quantum Futurism, uma dupla multidisciplinar com o autor Rasheedah Phillips.

Em 2015, Ayewa se juntou ao saxofonista Keir Neuringer e ao baixista Luke Stewart para tocar no comício Musicians Against Police Brutality, organizado após o assassinato de Akai Gurley, um negro desarmado, em East New York. Eles conheceram o trompetista Aquiles Navarro e o baterista Tcheser Holmes lá, e logo entraram em um estúdio de gravação do Brooklyn como um grupo. O álbum resultante, Irreversible Entanglements (também o nome do projeto), foi um conjunto combativo de free jazz que repreendeu a polícia, o racismo, o capitalismo e a política.

“Cada um de nós tinha ideias diferentes, mas a primeira coisa que fizemos foi começar a tocar”, disse Stewart. O LP chegou em 2017 em meio a uma maior conscientização em torno da morte de negros desarmados. As letras de Ayewa não faziam rodeios. “Ela traz a intensidade de sua entrega vocal a um nível básico de musicalidade”, acrescentou Stewart. “O som e o timbre de sua voz se adaptam bem a esse tipo de situação. Observando seus movimentos como artista e organizadora da comunidade, acho que ela está vindo de um lugar muito profundo ”.

O terceiro álbum do coletivo, Open the Gates, embora tenha todo o fogo de seus dois primeiros lançamentos, tem o objetivo de abrir um caminho a partir da raiva. Ayewa estava estudando livros sobre Tai Chi como uma forma de aliviar o estresse durante a pandemia e decidiu levar a prática para a escrita do novo disco do grupo. “Entramos com a intenção de meditar”, ela disse.

Quanto ao seu próprio álbum, Black Encyclopedia of the Air, Ayewa disse que era hora de voltar  um pouco ao chão, de apresentar um projeto mais direto que não sacrificasse a complexidade. “Quero que seja acessível para que você possa ouvir quando estiver com sua mãe ou irmã mais nova”, ela disse . “Você ainda pode captar a mensagem, ela não está incompreensível, sabe? Os sentimentos ainda estão lá. ” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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