Kiana Hayeri para The New York Times
Kiana Hayeri para The New York Times

A geração de viúvas afegãs devido à Guerra no Afeganistão

Mulheres que perderam maridos na guerra tentam superar dificuldades e reconstruir suas vidas

Mujib Mashal e Fatima Faizi, The New York Times

07 Dezembro 2018 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Com o cair da noite em Cabul, o pequeno Benyamin, 3 anos, percebe que é hora do pai voltar do trabalho. Mas meses já se passaram desde quando uma bomba matou seu “Aba", Sabawoon Kakar, e mais oito jornalistas afegãos. Benyamin chora e insiste com a mãe, Mashal Sadat Kakar: onde está Aba? Quando Aba vai voltar para casa?

Com o bebê Sarfarz nos braços, Mashal tenta distraí-lo com brinquedos. Mas, como ele não para de chorar, a mãe o leva até o terraço e aponta para a estrela mais brilhante. “Aba está ali", diz ela.

A guerra no Afeganistão mata principalmente os jovens rapazes, e deixa para trás uma geração definida por essa perda. Crianças como Benyamin guardam apenas suas primeiras lembranças dos pais. Bebês como Sarfarz terão ainda menos que isso, com a morte levando pais que eles nem chegaram a conhecer.

Quem suporta todo esse fardo são as dezenas de milhares de viúvas criadas pela guerra desde 2001, abandonadas para criar famílias num país de escassas oportunidades econômicas e uma guerra que mata 50 pessoas por dia. Com frequência, uma viúva recente precisa depender da família do marido, que muitas vezes exige dela que se case com o próximo irmão ou primo disponível.

Rahila Shams também ficou viúva - aos 22 anos, grávida de seis meses da segunda filha. O governador distrital Ali Dost Shams, marido dela, foi morto num ataque do Talibã em abril. “Sinto como se tudo estivesse acabado. Mas tento me manter forte porque prometi a ele que cuidaria das nossas filhas", disse Rahila.

Rahila cursava o nono ano do ensino fundamental no distrito de Malistan, ao sudoeste de Cabul, quando Shams, um parente distante, viu-a num casamento e enviou a família para pedi-la em casamento. A moça tinha metade da idade dele, mas disse que o considerava bonito, e ele começava uma promissora carreira no governo. O casal se mudou para Cabul, onde ela se matriculou numa escola de enfermagem. Shams se tornou governador distrital na província de Ghazni e passava longos períodos afastado de casa. A primeira filha dos dois, Sofia, nasceu após quatro anos de casados.

Sabawoon e Mashal Kakar se conheceram num curso noturno de direito. Mashal trabalhava para uma organização humanitária, e Sabawoon era jornalista de uma emissora de rádio. O relacionamento dos dois floresceu ao longo de um ano de troca de mensagens no telefone e discretos encontros na hora do almoço dos dias de trabalho.

Depois que suas famílias oficializaram o noivado, o casal juntou suas poupanças para comprar um apartamento. “Ele era um bom homem e me amava muito, e eu também o amo - para sempre, pelo resto da minha vida", disse ela.

Mashal estava trabalhando no dia 30 de abril quando recebeu uma mensagem de alerta falando de uma explosão no bairro onde ficava o escritório de Kakar. “Quando telefonei, meu marido atendeu e disse, ‘Estou morrendo, Mashal jan’”, disse ela. “Respondi‘Aguente firme, estou chegando’.”

Ela chegou ao hospital e procurou por ele em cada quarto até encontrá-lo. Sabawoon disse a ela que havia um buraco nas suas costas e talvez ele não sobrevivesse, mas, quando o levaram para a cirurgia, ela achou que o marido resistiria. Sentou-se, exausta, adormecendo enquanto pensava em receitas nutritivas para preparar para ele durante a recuperação.

A equipe a despertou para avisá-la da morte de Sabawoon. “Tudo ficou escuro como a noite", disse Mashal. Sua gravidez já estava no oitavo mês. Para a família de Shams, a tragédia acabou com a alegria do retorno esperado de Shams. Na véspera do seu assassinato, no segundo trimestre do ano, ele telefonou prometendo que estaria em casa em um ou dois dias. Sofia não pôde conter o entusiasmo, pulando e cantarolando: “Meu Atai está vindo! Meu Atai está vindo!”

Combatentes do Talibã atacaram o escritório dele no dia seguinte e entraram atirando. Nos meses seguintes à morte de seus maridos, as jovens viúvas enfrentam não apenas o próprio luto e a confusão dos filhos, mas também o inevitável processo de serem repassadas entre os parentes dos maridos.

Os sogros de Mashal pediram a ela que viesse viver com eles na província de Helmand. Educadamente, ela recusou o convite. Eles se tornaram mais diretos, dizendo que não era bom uma jovem viver sozinha com os dois filhos em Cabul. “Expliquei a eles que estudei e sei cuidar da minha vida", disse Mashal.

Ela voltou ao trabalho. Mas, sentindo-se vulnerável como jovem solteira no Afeganistão, ela decidiu deixar o país. Começou a receber mensagens indesejadas de amigos e colegas de trabalho com segundas intenções. Com o passar dos meses, Benyamin deixou de perguntar a respeito do retorno do pai. Mas, ao anoitecer, o menino fica inquieto. Desempregada, Rahila vive agora com os filhos na casa do irmão mais velho do marido. O casal já sabia que o segundo bebê seria uma menina, mas ela mantinha a esperança de que fosse um menino, que pudesse cuidar dela e de Sofia.

“Se o bebê for menino, poderá salvar minha vida", disse ela durante visita ao ginecologista. A médica tentou consolá-la. “Você não está sozinha", disse ela a Rahila. “Há muitas mulheres como você no Afeganistão.”

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