Oana Cristina/Unsplash
Oana Cristina/Unsplash

A Geração Z dá novo sentido (e estilo) à menstruação

Com naturalidade e calcinhas reutilizáveis para o período, adolescentes tratam do tema sem tabu ou constrangimento

Pooja Makhijani, The New York Times

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

Quando Sapna Palep era mais jovem, ficava mortificada com conversas sobre menstruação. “Era tipo, ‘Não vamos falar sobre isso, preciso sair da sala’”, disse a mãe de 43 anos com duas filhas. A mera menção à menstruação evocava “puro constrangimento e medo”.

A filha de 9 anos de Palep, Aviana Campello-Palep, ao contrário, aborda o assunto com zero constrangimento ou hesitação. “Quando minhas amigas falam sobre menstruar, elas simplesmente falam sobre isso”, contou Aviana. “É normal na vida de uma garota.”

Essas conversas francas levaram Palep e suas filhas, Aviana e Anaya, de 8 anos, a criar a Girls With Big Dreams, uma linha de roupas íntimas para pré-adolescentes, que inclui calcinhas reutilizáveis para o período menstrual, que oferecem uma alternativa ecologicamente correta aos absorventes regulares e íntimos descartáveis.

“Espero fazer a diferença na vida de alguém para que elas não fiquem envergonhadas em algum momento por algo tão normal”, afirmou Aviana.

As meninas Campello-Palep são representativas de duas tendências emergentes que se tornaram claras para os defensores da menstruação, e qualquer um que siga casualmente #PeriodTok: as integrantes da Geração Z e das posteriores são mais diretas sobre sua menstruação do que as passadas e também são mais propensas a se importarem se os produtos que usam são ecologicamente sustentáveis. A convergência dos dois ideais pode significar uma mudança cultural na forma como os jovens estão abordando a menstruação.

Mais opções de produtos menstruais reutilizáveis, como roupas íntimas absorventes, coletores menstruais, absorventes de pano, protetores íntimos e absorventes internos sem aplicador estão mais do que nunca no mercado – alguns feitos apenas para adolescentes e pré-adolescentes.

“Todo esse movimento é dirigido por jovens”, informou Michela Bedard, diretora executiva da Period Inc., uma organização global sem fins lucrativos focada em fornecer acesso a suprimentos de menstruação e em acabar com o estigma da menstruação. “As jovens que menstruam estão tendo uma experiência completamente diferente em termos de gerenciar a menstruação com opções reutilizáveis ao longo da vida.”

Os produtos reutilizáveis são apenas uma fração dos suprimentos de menstruação comprados nos Estados Unidos. As americanas gastam US$ 1,8 bilhão em absorventes regulares e US$ 1 bilhão em absorventes internos anualmente, o que supera as vendas de todos os outros produtos combinados. Mas analistas acreditam que a participação de mercado para produtos reutilizáveis cresça na próxima década, impulsionada pela aceitação de coletores menstruais nos países ocidentais.

Ainda assim, a média das mulheres que menstruam pode usar milhares de absorventes internos durante a vida. E os produtos menstruais de plástico de uso único levam cerca de 500 anos para se decompor, segundo um relatório de 2021 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. 

Participação e preocupação com sustentabilidade

Os estudos descobriram que os membros da Geração Z são mais propensos a se envolver nas mudanças climáticas e nos esforços de sustentabilidade do que as gerações anteriores e estão ensinando seus pais sobre novas maneiras de lidar com seu ciclo menstrual de forma aberta e sustentável.

“Eu costumava conversar sobre como esconder seu absorvente interno ou regular na manga ou no short”, observou a pediatra Cara Natterson, autora da série best-seller The Care and Keeping of You (O Cuidado e O Suporte a Você, numa tradução livre), da American Girl e fundadora da Oomla, linha de gênero inclusiva com relação ao tamanho de sutiãs e produtos para puberdade. “Não tenho mais essa conversa porque as meninas dizem: ‘Por que deveria esconder meu absorvente interno e o regular?’ Elas estão 100% certas.”

A filha de 18 anos de Cara ensinou-a sobre novos produtos no mercado. Alguns ela descobre de influenciadores do Instagram ou vídeos #PeriodTok. “Os adolescentes estão procurando conversas sobre as experiências das pessoas”, lembrou.

A sustentabilidade ambiental e a menstruação podem estar tendo seu momento, mas não é a primeira vez, garantiu Lara Freidenfelds, historiadora de saúde, reprodução e parentalidade, e autora de The Modern Period: Menstruation in Twentieth-Century America (O Período Moderno: Menstruação nos Estados Unidos do Século 20). Os panos menstruais caseiros eram a norma na virada do século 20, até a Kotex se tornar o primeiro absorvente com sucesso no mercado de massa em 1921. Modernidade significava descartabilidade.

As primeiras discussões robustas sobre sustentabilidade nos cuidados menstruais começaram na década de 1970, quando as pessoas experimentaram absorventes de pano e esponjas. “Sempre houve jovens que eram idealistas e pensavam nessas coisas, mas não achavam os produtos disponíveis práticos”, avaliou. A sustentabilidade tem sido historicamente sacrificada pela conveniência, acrescentou.

Os pais da Geração Z se beneficiam de melhorias na tecnologia menstrual: os absorventes de pano de outrora não são os mesmos de hoje e roupas íntimas para o período menstrual, por exemplo, são feitas de tecido altamente absorvente sem serem volumosas. As jovens que menstruam geralmente recorrem aos pais em busca de produtos e conselhos. Agora, podem entregar mais do que um absorvente regular ou íntimo descartável, potencialmente redirecionando alguns dos mais de 15 bilhões de produtos descartáveis que acabam em aterros sanitários todo ano nos Estados Unidos.

“O mundo quando esses progressistas da Geração Z se tornarem pais, em 20 anos, será fascinante”, analisou Nadya Okamoto, ex-diretora executiva da Period Inc. e cofundadora da marca de produtos menstruais sustentáveis August.

Apesar das mudanças culturais e dos avanços na tecnologia, existem barreiras para o uso de produtos reutilizáveis ou recicláveis. “Quando você menstrua pela primeira vez, absorventes são a coisa mais fácil de achar e comprar”, disse Anaya Balaji, que tem 13 anos. Como líder da comunidade online do Inner Cycle, fórum virtual da marca August, ela compartilha educação e conscientização. “Você pode encontrar os produtos que se adaptam ao seu corpo e que funcionam para você e o meio ambiente.”

Ainda assim, algumas jovens não podem comprar produtos reutilizáveis, especialmente em comunidades onde a pobreza menstrual – ou a falta de acesso a produtos menstruais – é um problema. “Mesmo que o investimento em uma roupa íntima de US$ 25 ou um coletor de US$ 60 economize dinheiro, muitas pessoas não têm essa quantia todo mês”, disse Michela, da Period Inc., que atende pessoas economicamente desfavorecidas.

Barreiras culturais e religiosas

Apesar do esforço dos jovens para normalizar a menstruação, o estigma cultural que assola o ciclo persiste. Os tabus patriarcais em torno da virgindade, pureza e “sujeira” em muitas culturas e religiões anulam a conversa e podem impedir o uso de produtos menstruais internos, como absorventes ou coletores.

As mensagens corporativas ainda enfatizam em grande parte a discrição e a limpeza, o que faz com que a menstruação pareça suja ou ruim, disse Chella Quint, ativista menstrual, educadora e autora do livro Own Your Period: A Fact-Filled Guide to Period Positivity (numa tradução livre, Seja Dona da Sua Menstruação: Um Guia Repleto de Fatos Pela Positividade da Menstruação). “Durante muito tempo, a indústria de produtos descartáveis foi a grande responsável por propagar e perpetuar tabus negativos que mantêm as pessoas deprimidas e assustadas.”

A saúde menstrual é uma questão de saúde pública e não tem gênero, ressaltou a pediatra Cara. Para combater os tabus em torno do assunto, qualquer pessoa, mesmo quem não menstrua, deve poder falar livremente sobre o tema. Ela contou que se certificou de que seu filho de 16 anos saiba dar seu moletom a uma colega de classe com uma mancha de sangue na calça e tenha um absorvente interno ou regular para entregar a ela. “Ensinar todo mundo a respeitar os corpos de outras pessoas: todos precisam fazer parte dessa conversa”, concluiu.

Tradução de Lívia Bueloni Gonçalves

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.