AFP Photo/Presidencia Colombia
AFP Photo/Presidencia Colombia

A guerra na Colômbia, travada via Cuba

Grupo guerrilheiro ELN afirma ter desistido do socialismo e quer negociar com o governo

Nicholas Casey, The New York Times

05 Setembro 2018 | 15h00

HAVANA - Os rebeldes explodiram trechos de oleodutos e delegacias de polícia na Colômbia com bombas caseiras. Eles bloqueiam rodovias e fecham partes do país durante dias. Matam soldados em emboscadas - e mantêm outros como reféns do movimento guerrilheiro.

Durante anos, a cadeia de comando dos rebeldes foi liderada por Israel Ramírez Pineda, um dos cinco maiores chefes da guerrilha à frente do último grande grupo de rebeldes na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Do subsolo de um hotel vazio em Havana, Ramírez exige que o governo negocie com ele, e enumera os últimos prisioneiros capturados por seu grupo rebelde: quatro soldados, três policiais e dois funcionários militares de serviço.

"Um líder liberal colombiano disse certa vez, há meio século, que é melhor usar sua boca do que usar a sua bala", disse Ramírez ao jornal The New York Times no final do mês passado, afirmando que preferia falar com o governo a tomar reféns.

Os esforços declarados por Ramírez para chegar à paz baseiam-se em uma estratégia violenta que provocou dezenas de assassinatos este ano.

Mas durante décadas, a luta armada foi o slogan do ELN, que prometeu combater a pobreza com ataques contra o Estado. Ramírez foi condenado a 39 anos de prisão por planejar o sequestro de um avião colombiano em 1999.

Agora, aos 64 anos, o comandante, mais conhecido por seu nome de guerra, Pablo Beltrán, admite que as ambições do grupo são muito menos vastas. "Não estamos pedindo o socialismo", disse, e acrescentou que o que seus rebeldes buscam são proteções básicas para os camponeses e uma solução para que baixem as armas.

Em 2016, o maior grupo rebelde do país – as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia, conhecido como Farc - obteve um acordo de paz com o governo que protegesse seus membros de condenações à prisão.

O acordo pôs fim a mais de 50 anos de conflito e proporcionou ao presidente Juan Manuel Santos um Prêmio Nobel da Paz. Mas também destruiu sua popularidade. Muitos colombianos ficaram furiosos com o acordo, considerando-o demasiado brando com as Farc. A reação negativa contribuiu para alimentar a ascensão do novo presidente, Iván Duque, que mostrara revolta com o acordo. Agora, ele precisa decidir se aceitará a exigência de conversações de paz com o ELN.

Durante anos, o ELN participou de negociações com Santos e até prometeu parar sua luta. Mas quando o cessar-fogo expirou, o grupo retomou os ataques.

Como o derramamento de sangue não terminara, o Equador, que fora a sede das conversações, disse que não mais as sediaria, obrigando Ramírez e a sua delegação a se transferir para Cuba.

O próprio Ramírez admite que não foi fácil convencer seus seguidores. "Persistem sérias dúvidas", afirmou, acrescentando que muitos combatentes não confiam no governo.

Duque pouco falou a respeito das negociações. Mas o governo continua na ofensiva. No dia 22 de agosto, o presidente anunciou a captura de um importante financiador da guerrilha. "Continuaremos o nosso plano de infligir choques", afirmou no Twitter.

As Farc depuseram as armas no ano passado. Mas quando fundaram um partido político, os assassinatos de seu pessoal de campanha e ataques contra candidatos obrigaram-nas a interromper a campanha em fevereiro. Além disso, um dos principais comandantes das Farc foi preso em abril, acusado de narcotráfico. Alguns comandantes de patente inferior continuam lutando.

"Temos um exemplo que nos dá medo", afirmou Ramírez referindo-se ao acordo das Farc.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.