Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

A guerra tirou dele a família, depois os olhos, e a amada

Zaheer Ahmad Zindani encontra consolo na poesia, nas imagens da mente e em um sonho de paz

Mujib Mashal, The New York Times

07 Julho 2018 | 10h30

CABUL, AFEGANISTÃO - A última vez em que Zaheer Ahmad Zindani achou que ainda enxergava tinha 17 anos e estava em um leito de hospital, coberto de feridas provocadas pelos estilhaços de uma mina do Talibã.

Pediu um espelho ao médico.

“O médico disse: ‘Meu filho, você não tem olhos, como vai ver?’”, lembra Zindani. “Levantei a mão para sentir os meus olhos - só havia as cinzas do que o fogo queimara, nada mais”.

Isto aconteceu há cinco anos. Embora a realidade da cegueira o fizesse urrar pela aflição, outro pensamento fez o seu coração parar: o seu amor pela namorada de infância já era difícil porque a família dela não o considerava digno. Agora, estava seguramente condenado.

“Se eu tivesse perdido a vista e tivesse a sua mão, ainda assim estaria feliz”, disse. “Mas agora não tinha nem os olhos, nem ela”.

Zindani é um dos idealizadores de uma marcha pela paz que chegou a Cabul, a capital do Afeganistão, em junho, depois de percorrer 640 quilômetros em cerca de 40 dias, no calor do verão, através de um território destroçado pelos combates. É o seu protesto contra a guerra que, até agora, devorou o seu pai, o tio, sua irmã, seus olhos e o seu amor.

Zindani, hoje com 22 anos, é analfabeto. Mas é um poeta. Em sua casa, guarda 50 páginas de poesia original que ele ditou aos irmãos, inclusive estas linhas:

Mesmo depois de morto, meus olhos não se fecharam

Espero por você, e sempre olho à porta.

 

Quando ele tinha sete anos, sua família morava em Gereshk, na província de Helmand. Cultivava papoulas para a produção de ópio, trigo e uva ao longo de uma rodovia importante usada pelas forças da coalizão  para levar suprimentos às unidades que avançavam no antigo território do Talibã.

Um dia, seu pai e seu tio preparavam os campos para uma plantação de cebolas, quando foram atingidos em um ataque aéreo americano, contou Zindani.

“Não encontramos nada deles, nem o sangue”, afirmou. “Ficou apenas uma grande cratera, e pó”. Seu pai, Ghulam Wali, tinha 29 anos quando foi morto.

Depois do ataque, a família de Zindani se mudou para Kandahar, perto de parentes distantes que tinham uma filha. Ela também tinha sete anos, e as duas crianças ficavam muitas vezes juntas. Quando brincavam de esconde-esconde, Zindani dava um jeito de se esconder com ela, “de propósito”.

“Eu gostava da maneira de ela falar, de andar, do seu perfume, tudo o que ela tinha”, ele disse. “Aonde ela fosse, estava sempre ao seu lado. Então, eu não sabia - mas poderia morrer ali”.

As duas crianças foram ficando cada vez mais próximas, mas Zindani se mudou com os membros restantes da família para outro distrito, onde se tornou aprendiz de mecânico. E toda vez que sua mãe visitava os parentes, ele a acompanhava, só para ver a menina.

Quando foi que se deu conta de que estava apaixonado? Eles tinham 12 anos. Estavam indo a uma loja.

“Lembro que, a certa altura, peguei na mão dela”, ele disse. Ela correspondeu e eles sorriram um para o outro.

A mãe da menina percebeu que havia um romance entre os dois, disse Zindani. “Seja qual for o destino dela”, a mãe da menina disse com um sorriso.

Entretanto, não era esta a atitude típica em relação ao casamento no Afeganistão, e o pai dela, que vinha de uma família rica, não o considerou adequado para a filha. Mas Zindani tinha um trunfo, o coração da garota lhe pertencia. Ela o amava.

Tudo mudou quando ele perdeu os olhos.

Na noite anterior, Zindani havia comprado duas passagens de ônibus em Kandahar. Pouco antes do amanhecer, ele e sua irmã Ahmadia, 15, embarcaram para visitar alguns parentes na província de Herat. Ele e Ahmadia haviam crescido juntos - ela era a sua confidente, e muitas vezes ela levava seus recados à amada.

Estavam sentados na quarta fileira de bancos atrás do motorista quando o ônibus esbarrou em uma mina plantada na estrada pelo Talibã. Agora só lembra de fogo ao seu redor, e ele ou Ahmadia gritando o nome da mãe.

Ela não resistiu.

“Quando cheguei ao hospital, lembro que falei o nome dela”, disse Zindani. “Ninguém falou nada”.

Depois do bombardeio, a família da sua amada deixou clara a sua oposição. Não só ele era de outra província e de outra tribo, como agora estava cego e não poderia sustentar uma família. Ela teve de casar com outro homem, e agora tem um filho, ele disse.

Zindani contou que ainda conversa com ela às vezes às escondidas, pelo telefone.

As imagens não são apenas coisas do passado para ele. Elas cresceram, o mantêm ocupado.

“Na minha mente, eu estou em um lugar onde não há mais ninguém. Caminho, sozinho, começo um poema e vou até o fim de outro. Caminho sem parar”, disse Zindani. “Às vezes, nos meus pensamentos, ela agora é minha, estamos muito longe”.

Fez uma pausa.

“Depois, como se costuma dizer: ‘Levantei a cabeça, e eu não era nada’”.

Hoje, tenta decidir se um amor negado não será melhor do que nenhum amor. “Não cheguei a uma resposta”, afirmou.

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