Via The New York Times
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A história do espião que incomodou Vladimir Putin

Após a queda da União Soviética, Sergei Skripal e Vladimir Putin, ambos funcionários da agência russa de espionagem, tiveram destinos muito diferentes

Michael Schwirtz e Ellen Barry, The New York Times

15 Setembro 2018 | 10h30

MOSCOU - Sergei V. Skripal era um peixe pequeno. É assim que as autoridades britânicas descrevem agora Skripal, funcionário das agências de espionagem russas que os ingleses recrutaram em meados dos anos 1990. Quando os russos apanharam Skripal, também o consideraram pouca coisa, aplicando-lhe uma sentença reduzida. E o mesmo pensavam os americanos: o diretor de espionagem que orquestrou a libertação dele no Ocidente, em 2010, nunca tinha ouvido falar dele nem sabia por que tinha sido incluído numa troca de espiões com Moscou.

Mas Skripal era importante aos olhos de um homem - Vladimir V. Putin, funcionário das agências russas de espionagem com a mesma idade e treinamento que ele. Os dois dedicaram suas vidas a uma guerra de espionagem entre a União Soviética e o Ocidente. Quando essa guerra foi suspensa, ambos tiveram dificuldade em se adaptar.

Um deles viveu a ascensão, e o outro, a queda. Enquanto Skripal tentava se reinventar, Putin e seus aliados, ex-funcionários dos serviços de espionagem, estavam reunindo os cacos do antigo sistema soviético. Chegando ao poder, Putin deu início a um acerto de contas, reservando um ódio especial contra aqueles que traíram a comunidade de espiões quando esta se encontrava no momento mais vulnerável.

Seis meses atrás, Skripal foi encontrado ao lado da filha, Yulia, largado num banco de uma cidade inglesa, alucinando e espumando pela boca. O envenenamento dele levou a um confronto entre Rússia e Ocidente no estilo da Guerra Fria, com ambos os lados expulsando diplomatas e fazendo acusações quanto a quem seria o responsável pela tentativa de assassinato e quais seriam os seus motivos.

No dia 5 de setembro, autoridades britânicas apresentaram um relato detalhado do caso, acusando a Rússia de ter enviado dois assassinos para borrifar uma substância paralisante na maçaneta da porta da frente da casa de Skripal, versão contundentemente negada por Moscou. Diretores das agências britânicas de espionagem dizem ter identificado os suspeitos como membros do GRU, ou Departamento Central de Inteligência, a mesma unidade de espionagem militar russa em que Skripal trabalhara.

Ainda não se sabe ao certo se Putin desempenhou algum papel no envenenamento de Skripal, que sobreviveu e agora está escondido. Mas dúzias de entrevistas realizadas na Grã-Bretanha, Rússia, Espanha, Estônia, Estados Unidos e República Tcheca, além da análise de documentos dos tribunais russos, revelam que as vidas desses dois homens se cruzaram em momentos fundamentais.

Em 2010, quando Skripal e três outros espiões condenados foram libertados no Ocidente, Putin já estava aguardando nos bastidores, com fúria cada vez maior. Indagado a respeito dos espiões soltos, Putin revelou publicamente seus devaneios com a morte dos traidores. Não importava o fato de Skripal ser um peixe pequeno.

Enriquecer os próprios bolsos

No fim dos anos 1990, Skripal voltou de Madri, onde tinha um emprego de fachada no gabinete do adido militar russo. A Rússia vivia um período de caos. Trabalhadores das minas de carvão, soldados e médicos estavam há meses sem receber.

Skripal não parecia deprimido com a situação, aproveitando a companhia dos colegas. Vivia num apartamento ruim, dirigia um antigo Niva e sempre contava histórias da época em que foi paraquedista do exército. Mas havia um detalhe inusitado: nos restaurantes, ele insistia em pagar a conta da mesa toda.

"É preciso entender que a União Soviética tinha ruído", disse Oleg B. Ivanov, que trabalhou com ele em Moscou. "Toda a ideologia soviética que embasava o governo também ficou para a história. Havia um lema naquela época: enriquecer os próprios bolsos".

De acordo com ele, era essa a explicação para o comportamento de Skripal, sempre em busca de alguma oportunidade escusa. "Ele era simplesmente louco por dinheiro", disse Ivanov.

E, para ele, isso justificaria a traição do amigo. Em 2006, Ivanov estava em seu carro quando ouviu o nome de Skripal no noticiário. Os promotores afirmavam que, durante sua estada na Espanha, Skripal tinha estabelecido uma parceria de negócios com um agente da espionagem espanhola, que o "encaminhou" a um recrutador do serviço britânico de espionagem estrangeira. Segundo a promotoria, Skripal vinha se encontrando secretamente com este contato desde 1996, trocando segredos pela soma de US$ 100 mil. Os promotores pediram uma sentença de 15 anos, que o juiz reduziu para 13, graças à cooperação de Skripal durante o processo.

Um país que 'não existia mais'

Vladimir V. Putin, outro funcionário da espionagem em plena carreira, também enfrentava uma perda de status semelhante. Em 1990, no quartel-general da KGB na Alemanha, ele foi mandado para casa antecipadamente. Voltou sem resultado algum para apresentar depois dos anos passados no exterior.

O fatídico desenlace afetou Putin no nível pessoal, pois ele não foi capaz de proteger todos os seus agentes alemães, subsequentemente denunciados. Putin pediu ao comando militar soviético que defendesse o quartel-general da KGB, que se encontrava cercado de manifestantes alemães. "Naquele momento, tive a sensação de que o país não existia mais", diria ele posteriormente.

Numerosos agentes dos serviços de espionagem procuraram o Ocidente na época, como informantes ou desertores, e Putin não consegue evitar a expressão de desgosto ao se referir a eles. São "animais" e "porcos".

Quando assumiu o poder, Putin foi atrás dos traidores usando os mesmos métodos que empregou para combater outros males dos caóticos anos 1990. Seus primeiros anos de governo foram marcados por uma série de processos e condenações contra espiões, com alguns episódios claramente vingativos.

O tom foi dado mais ou menos na época em que Putin foi eleito para a presidência pela primeira vez, em 2000 - na verdade, no dia anterior. Foi então que o Serviço Federal de Segurança, que Putin tinha comandado recentemente, vazou a identidade de um agente britânico do MI6 conhecido como prodigioso recrutador de espiões russos. Posteriormente, foi revelado que o agente tinha sido responsável por recrutar Skripal.

O colapso de uma família

Depois de condenado, em 2006, Skripal se tornou "intocável", segundo Ivanov. Encontrando-se subitamente sozinha, a família Skripal manteve sua vergonha no âmbito privado. A mulher dele, Lyudmila, apresentava sintomas de câncer endometrial. Mas, de acordo com um parente, ela se recusava a ir ao médico "até que Sergei Viktorovich voltasse para casa". 

O filho do casal, Sasha, estava entrando num buraco. Boa parte de sua vida dependia dos contatos do pai no GRU: quando sua traição se tornou pública, tudo isso desapareceu. Ele começou a beber muito. Recebeu tratamento para uma doença nos rins e morreu em 2017, aos 43 anos.

Mais ou menos nessa época, Skripal tentava antecipar sua saída da prisão, enviando uma detalhada apelação a um tribunal militar. A apelação fracassou.

Uma proposta de troca

Do seu escritório em Langley, Virgínia, o diretor da Agência Central de Inteligência, Leon Panetta, não se sentia muito otimista ao telefonar para seu equivalente russo. Panetta já tinha se reunido com Mikhail Fradkov, diretor do serviço de espionagem estrangeira da Rússia. Os dois tinham jantado em Washington e, antes de terminarem, Panetta perguntou a ele qual seria, na sua opinião, o maior fracasso da espionagem russa. No caso dos EUA, sugeriu Panetta, o fracasso tinha sido a justificativa para a invasão do Iraque.

Fradkov fez uma longa pausa, e então respondeu simplesmente, "Penkovsky".

A resposta dizia muito a respeito de como os russos enxergam os informantes. Oleg Penkovsky era um coronel do GRU que atuou como espião da CIA e da espionagem britânica nos anos 1950 e 1960. Foi preso pelas autoridades soviéticas e, acredita-se, fuzilado.

Agora estávamos no verão de 2010, e Panetta estava ao telefone com Fradkov, na esperança de iniciar um acordo para libertar outro informante dentro do GRU. Dias antes, o FBI tinha detido 10 agentes russos em inatividade, que viviam nos EUA há quase uma década aguardando ordens.

"Esses agentes são seus", Panetta teria dito a Fradkov. "Vocês têm três ou quatro pessoas que queremos, e proponho uma negociação".

Os dois adversários da Guerra Fria viviam um breve momento de reaproximação durante a presidência de Dmitri A. Medvedev (o limite ao número de reeleições fez de Putin primeiro-ministro). Os russos concordaram com a troca. Panetta deu à Rússia quatro nomes, incluindo o de Skripal. 

"Acho que foram nossos especialistas em Rússia dentro da CIA que citaram o nome dele", disse Panetta. 

Skripal foi tirado de sua cela e levado à prisão de Lefortovo, em Moscou, onde se reuniu brevemente com a família antes de embarcar num pequeno avião. Três ex-prisioneiros o acompanharam. Todos ficaram em silêncio durante as três horas do voo até Viena.A bordo do avião americano enviado para buscar os quatro, agentes federais abriam garrafas de champanhe.

‘Viver eternamente escondidos’

Mas havia um homem furioso com a situação.

"Uma pessoa dedica a vida ao serviço de sua pátria, e então aparece um desgraçado desses e a trai", disse Putin, entre dentes, quando indagado a respeito da troca. "Seja o que for que tenham recebido em troca, os trinta vinténs que ganharam… vão acabar engasgados com eles. Pode acreditar".

Mesmo que não morressem, eles sofreriam. "Terão de viver eternamente escondidos", disse Putin.

Putin retomou o poder em 2012 e começou a reverter cada elemento do breve degelo de Medvedev. Mas Skripal e os outros, entregues nas mãos as agências ocidentais de espionagem, já tinham desaparecido.

Era difícil não reparar em Skripal em Salisbury, Inglaterra, onde acabou vivendo. "Nas tardes de domingo, ele bebia muita vodca", disse uma autoridade da cidade. "Falava muito alto".

A solidão de Skripal aumentou depois que a mulher, Lyudmila, sucumbiu ao câncer em 2012. "Ele tinha saudades da Rússia", disse Ross Cassidy, corpulento ex-oficial de submarinos que se tornou um de seus amigos mais próximos.

Duas viagens de Moscou

Este ano, em Moscou, filha de Sergei Skripal, Yulia, tinha algo importante a fazer. Ela planejava seu casamento. Skripal não podia viajar em segurança para acompanhar o casamento na Rússia, e ela queria contar com a bênção do pai. No dia 3 de março, embarcou num voo da Aeroflot com destino a Londres.

No dia anterior, de acordo com as autoridades britânicas, dois agentes da espionagem russa chegaram a Londres a bordo de outro voo da Aeroflot. Em uma de suas malas havia um recipiente especial, disfarçado como vidro de perfume Premier Jour, da marca Nina Ricci, contendo uma substância paralisante usada pelo exército.

Enquanto Yulia Skripal passava pela imigração no aeroporto de Heathrow e aguardava suas malas, os dois já estavam em Salisbury preparando a operação.

Na tarde seguinte, uma mulher encontrou duas pessoas caídas num banco em Salisbury. A mulher estava apoiada no homem, que olhava para o céu, como seu visse algo ali, fazendo estranhos e bruscos movimentos com as mãos.

Naquele momento, os dois agentes já estavam embarcando num trem na estação de Salisbury, o primeiro trecho de sua fuga para Moscou.

A notícia do crime começou a se espalhar, relatada pelos serviços de espionagem de uma dúzia de países, chegando ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e à entidade internacional encarregada de proibir o uso de armas químicas. Para as agências que supervisionam os espiões que ficaram para trás após a Guerra Fria, o episódio coloca em questão todas as regras do jogo.

Mas, por enquanto, o trabalho foi concluído. Contemplando um futuro incerto, um agente do GRU de meia idade traiu seus semelhantes. Assim, dois assassinos foram à Inglaterra para cuidar de um peixe pequeno.

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