Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

A história do muçulmano que se tornou um astro do futebol adorado na Inglaterra

Popularidade de Mohamed Salah, egípcio do Liverpool, ajuda a fazer frente à islamofobia

Rory Smith, The New York Times

19 Maio 2018 | 10h15

Liverpool, Inglaterra - A rotina de Mohamed Salah agora é conhecida. Enquanto o estádio de futebol do Liverpool explode de alegria ao seu redor, comemorando mais um dos gols do egípcio, ele corre até os torcedores mais próximos dele, de braços estendidos. Então, para de repente, absorvendo as homenagens.

Depois de receber as congratulações dos companheiros do time, ele volta lentamente para o meio do campo. “Então, há esta pausa”, explica Neil Atkinson, anfitrião do Anfield Wrap, um podcast dos torcedores do Liverpool, que já se tornou obrigatória no estádio.

Salah ergue as mãos ao céu e então se ajoelha no campo, prostrando-se em uma manifestação da sua fé muçulmana. “A multidão  se acalma um pouco, concedendo-lhe este momento de reflexão”, prosseguiu Atkinson. Há outro grito da torcida e ele se levanta, “e então todos continuam a comemoração”.

Salah, 25, é o grande astro do futebol europeu desta temporada. Já marcou 43 gols em 49 jogos em sua primeira temporada no Liverpool e realizou a façanha de levar o time à sua primeira final na Liga dos Campeões em mais de dez anos. Foi eleito o jogador do ano da Inglaterra tanto na eleição por jogadores quanto pela Associação de Jornalistas de futebol.

Sua religião - e sua exibição pública - também o tornaram uma figura de considerável prestigio social e cultural. Nesta época em que a Grã-Bretanha luta contra a crescente islamofobia, em que a política do governo tem sido criar um “ambiente hostil” aos imigrantes ilegais, ele é um norte-africano muçulmano que não só foi aceito no país, como inclusive é adorado.

“Ele é uma pessoa que personifica os valores do Islã e expõe publicamente a sua fé”, disse Miqdaad Versi, o secretário geral assistente do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha. “Ele é um consenso universal no país. É o herói do time. Liverpool, em particular, o apoia de uma maneira totalmente positiva. Ele não é a solução da islamofobia, mas pode desempenhar um papel preponderante para tanto”.

No Egito, a condição de Salah de tesouro nacional foi confirmada em outubro do ano passado, quando bateu o pênalti, com total segurança, no último minuto do jogo, que garantiu à seleção egípcia a classificação para a Copa do Mundo deste ano, em sua primeira participação no Mundial desde 1990. Salah, com um sorriso delirante de alegria, deu a volta do estádio nos ombros dos torcedores na cidade de Alexandria, no Egito.

O seu rosto está em inúmeros muros no Cairo. Um mural com a sua figura na parede de um café no centro da cidade tornou-se uma atração turística. Os mercados do Cairo oferecem sua imagem nos produtos mais variados, desde roupa de cama a lampiões.

A primeira divisão, e o futebol europeu em geral, sempre foram populares no Egito, mas agora milhares de pessoas lotam os cafés do Cairo e os bares de shisha (onde se fuma narguilé) para assistir aos jogos do Liverpool.

“Nenhum egípcio conseguiu o que Mohamed fez, e é por isso que a sua ascensão é tão importante para o público”, afirmou Ahmed Atta, um analista de futebol egípcio. “Todos assistem aos jogos da primeira divisão agora. A mídia social está repleta de fotos dele”.

A popularidade de Salah não é apenas o resultado de suas façanhas no campo; mas igualmente importante é a sua filantropia. Ele doou um aparelho de diálise ao hospital em Nagrig, pagou o terreno para a construção de uma usina de tratamento de esgoto e reformou um centro esportivo público, uma escola e uma mesquita. “Ele doa continuamente dinheiro a entidades assistenciais e à sua cidade”, disse Said Elshishiny, o treinador  que descobriu o seu talento quando era ainda criança em Nagrig, uma pequena cidade no Delta do Nilo. “Isto é o bastante para ser adorado por todos”.

Ele não vê a necessidade de esconder a sua fé, o que só contribui para a sua popularidade. “As pessoas adoram o fato de ele não ter medo de se ajoelhar e orar na frente de todo mundo em um país que não é muçulmano em uma época de crescente islamofobia”, prosseguiu Atta. “É como uma vitória para elas”.

O mesmo acontece com a comunidade muçulmana - de origem síria, iemenita e do Bangladesh - no Merseyside, a região que inclui Liverpool. “Os muçulmanos estão sofrendo pressões de toda parte” na Grã-Bretanha, afirmou Abu Usamah Atthababi, o imã da mesquita Al Masra de Tosteth, um distrito do centro de Liverpool.

Nos últimos anos, a polícia vem sugerindo que o ódio em relação aos muçulmanos aumentou em toda a cidade, com surtos por ocasião de crimes por motivos religiosos depois dos ataques ocorridos em Paris e arredores em 2015, em Londres em 2016 e 2017, e em Manchester, Inglaterra, em 2017. Um relatório da organização de assistência Tel MAMA, no ano passado, sugeriu que os ataques islamofóbicos subiram 47% em 2016.

Liverpool se considera uma cidade mais hospitaleira do que muitas outras na Grã-Bretanha: “uma cidade de gente de fora, uma cidade contra o establishment”, como disse Atkinson. Atthababi ressaltou que a cidade “tem um longo passado de aceitação da diversidade e de sua celebração”.

No entanto, a polícia teve de aumentar a segurança nas mesquitas de Liverpool depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. A polícia de Merseyside registrou um aumento de 75% dos crimes de ódio de 2012 a 2016.

Salah ajudou a “tirar esta pressão”, segundo Atthababi. As canções em sua homenagem ressoam em Anfield, o estádio do Liverpool, e os torcedores carregam bandeiras com a sua imagem, usando o enfeite da cabeça dos Faraós. Multidões formam-se ao seu redor onde quer que ele vá.

Isto é natural em uma cidade definida pelos seus dois times de futebol (o Everton é o outro) quanto  por ser o berço dos Beatles. Mas o fato de ele ser muçulmano e estar sendo festejado também é significativo.

“Todo muçulmano tem orgulho dele”, segundo Ali Aden, que vende produtos alimentícios e perfumes em sua banca em frente à mesquita Al Rahma, em Liverpool. “Às vezes, nós nos sentimos cidadãos de segunda classe. Para as pessoas que vieram do Oriente Médio ele é um grande motivo de orgulho”.

Uma canção dos torcedores em sua homenagem diz: “Se ele marcar mais gols, vou me tornar muçulmano”, e não passou despercebida. Na opinião de Anwar Uddin, ex-jogador que agora trabalha para a Federação de Torcedores de Futebol em seu programa sobre a diversidade, apesar das críticas, a letra é bem intencionada.

“Coisas como esta podem derrubar barreiras”, ele disse. E enfatizou que o fato de as pessoas verem Salah prostrar-se e orar depois de marcar um gol pode ajudar a “acabar com o estigma” que alguns podem atribuir à visão de um muçulmano orando.

“Ele pode contribuir para estabelecer uma ponte entre a comunidade muçulmana e o resto da cidade”, afirmou Atthababi. “Ele pode mostrar às pessoas que nós estamos mais perto de Salah do que aos extremistas”.

Para outros, a mensagem que o sucesso de Salah envia aos muçulmanos é  igualmente importante, porque  ele fez o seu triunfante regresso à Inglaterra depois de ficar esquecido quatro anos no banco dos reservas por uma temporada no Chelsea.

“Ele transmite mais confiança particularmente à geração mais nova”, falou Radwan Albarbandi, um médico proveniente da Síria que atualmente mora em Liverpool; “Eles estão mais ativos, mais extrovertidos, sua moral está mais forte. Ele mostrou que se você se envolve, se trabalha com afinco e prova o seu valor, ninguém  irá impedir que você ore, ninguém irá impedir que você use uma barba. As pessoas irão respeitá-lo, seja você quem for”.

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