Ed Alcock para The New York Times
Ed Alcock para The New York Times

A joia francesa retorna da beira do abismo

Após seis anos de silêncio e uma grave doença, Françoise Hardy está de volta com dois novos lançamentos

Agnès C. Poirier, The New York Times

17 de junho de 2018 | 11h00

PARIS - “Bob Dylan se recusou a voltar ao palco se eu não fosse vê-lo imediatamente”, lembrou Françoise Hardy. Na noite de 24 de maio de 1966, no 25º aniversário de Bob Dylan, o compositor se apresentava em seu primeiro concerto em Paris e queria nada menos que encontrar a cantora francesa, então com 22 anos, à qual dedicara uma canção, mas que não conhecia pessoalmente.

“Fui, e ele concordou em voltar para o palco”, ela disse. Meses antes, em Londres, Françoise conseguira virar a cabeça de Mick Jagger, Keith Richards, George Harrison, Paul McCartney, John Lennon e Brian Jones. Cantando em francês, inglês, italiano e alemão, a jovem francesa, uma tímida e talentosa beldade, enfeitiçou muitos dos seus contemporâneos - e a França, há mais de 60 anos.

Ela acaba de publicar um livro de memórias, “The Despair of Monkeys and Other Trifles”, e lançou um novo álbum, “Personne d’Autre” (Ninguém mais). É o 28º da cantora, e o primeiro depois de seis anos de silêncio durante os quais esteve gravemente doente. Françoise soube que estava com câncer linfático em 2004; sua saúde começou a declinar; e, em 2016, foi posta em coma induzido, do qual os médicos acharam que jamais despertaria.

Contra todas as probabilidades, Françoise voltou e recuperou sua voz sensualmente adolescente, e o prazer de escrever.

Em 1968, aos 24 anos, Françoise chegou ao topo dos maiores sucessos em francês e inglês com “It Hurts to Say Goodbye”, de Serge Gainsbourg. Desde então, ela se tornou uma joia nacional da França, conhecida por sua longa silhueta andrógina, elegância austera, canções melancólicas, humor e rápida inteligência.

Em seu livro de memórias, Françoise examina o que significou ser catapultada para a fama aos 17 anos, e como é ser um ídolo na França há quase 60 anos. É uma história de sucessos e fracassos contada com impiedosa honestidade.

Nascida em 1944 em Paris, Françoise era filha de uma jovem operária e do seu amante rico, muito mais velho, um homem casado que nos últimos anos de vida se declarou gay.

Aos 16, François recebeu um violão como prêmio por seu sucesso nos estudos e começou a compor canções. Um ano mais tarde, depois de aprender música e de alguns testes, a gravadora Vogue lhe ofereceu um contrato. O turbilhão dos anos 1960, que ela viveu entre Paris e Londres, fez o resto.

Françoise fascinou o público e a crítica. Apareceu em filmes, como “Grand Prix”, de John Frankenheimer, de 1966. “No entanto, eu preferia a música ao cinema”, ela contou. “A música e as canções me permitem penetrar a fundo em mim mesma e nos meus sentimentos, enquanto no cinema devo interpretar um papel, um personagem que pode ser muito diferente do que eu sou”.

Françoise atualmente devora obras de literatura e é amiga do romancista Michel Houellebecq, conhecido como um provocador. “O que distingue um escritor de um grande escritor é a originalidade e o estilo, e Houellebecq tem ambas as coisas”, ela disse.

Françoise gosta de escritores que podem despir-se de tudo sem perder o senso de humor. Em suas memórias, ela escreve sobre a eutanásia da mãe, a esquizofrenia da irmã e o assassinato do pai por um amante muito mais jovem do que ele.

“Escrever”, ela disse, “sempre foi para mim um mergulho profundo em mim mesma”.

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