Victor J. Blue para The New York Times
Victor J. Blue para The New York Times

A jornada fatal de um mexicano que tentava recuperar a vida nos EUA

O ajudante de obras Adrián Luna morreu ao confrontar sua deportação e tentar cruzar a fronteira americana ilegalmente

Simon Romero, The New York Times

27 de outubro de 2018 | 06h00

ST. ANTHONY, IDAHO - Belinda Luna, a bibliotecária deste entreposto na zona rural de Idaho, ainda treme quando recorda a visita a um escritório do Policiamento de Imigração e Alfândega (ICE) há pouco mais de um ano, em Idaho Falls. Diante dela e dos filhos, um funcionário da imigração informou ao seu marido que ele seria deportado para o México.

"Ele disse ao meu marido para dar um último abraço na família", disse Belinda, 41 anos, enxugando as lágrimas. "Pode imaginar a tristeza de um pai humilhado dessa maneira? Foi nesse dia que minha vida começou a desmoronar".

O marido dela, Adrián Luna, 45 anos, era um ajudante de obras que chegou ao leste de Idaho quando tinha 18 anos. Trabalhou duro, pagou seus impostos, construiu uma família. Apanhado na repressão do governo Trump aos imigrantes e deportado no dia seguinte para o México, em 2017, Luna não perdeu tempo planejando o retorno ao lugar que sempre chamou de lar.

A mulher dele recebeu a notícia do cunhado num dia de julho: o corpo do marido fora encontrado num deserto da Califórnia. Ele fez uma tentativa desesperada de voltar para ela, mas não sobreviveu à perigosa jornada.

A história da família Luna, cujas raízes estão mais fincadas em Idaho do que no México, está se tornando mais comum. A deportação de residentes dos EUA nascidos no exterior está aumentando muito durante o governo Trump, mas, conforme esses esforços avançam em comunidades de imigrantes situadas longe da fronteira, a chance de essa deportação ser permanente é com frequência pequena.

Mais de 15.700 pessoas - quase todos homens - foram processadas em 2017 por tentarem entrar novamente no Estados Unidos depois de serem deportadas. Embora voltar ao país ilegalmente depois de uma deportação seja considerado um delito grave, frequentemente os imigrantes com cônjuges, famílias e lares nos EUA acreditam que precisam tentar o retorno, independentemente do risco.

Mais de 40% dos novos casos de imigração apresentados pelo Departamento de Segurança Interna envolvem agora pessoas que viveram nos EUA por dois anos ou mais, uma alta em relação aos 6% dos casos observados no final de 2016.

"Adrián era um de nós", disse Chad Harding, 44 anos, supervisor da equipe de construção da qual Luna fazia parte. "Sei que as pessoas falam que imigrantes que estão aqui ilegalmente devem ser deportados, ponto final. Mas Adrián sustentava sua família e nunca causou problemas. O que aconteceu com ele foi errado".

Ansioso para se adaptar, o pai de Belinda, que criava a família nessa região de Idaho, decidiu se converter à igreja mórmon durante a infância dela. Foi um dos primeiros imigrantes mexicanos a estabelecer suas raízes na região nos anos 1970.

Depois que o pai dela foi beneficiado com a anistia oferecida pelo governo de Ronald Reagan a milhões de imigrantes ilegais, Belinda disse que a família se concentrou em viver como americanos.

Adrián Luna cresceu no estado de Jalisco, oeste do México, mas, depois de passar a maior parte de sua vida nos EUA, suas lembranças do país natal estavam se perdendo, suplantadas por novos relacionamentos e responsabilidades. Ele tinha participado de uma quinceañera (festa de 15 anos) em Idaho Falls, para a qual Belinda também tinha sido convidada. Ela o tirou para dançar. Conversaram em espanhol, e logo estavam namorando e sonhando em construir juntos uma família.

"Ele era magro, um pouco tímido", lembra ela, "e fiquei apaixonada imediatamente".

Os dois se casaram em 2009 e ela veio morar no pequeno trailer dele. A filha dele de um relacionamento anterior, Emilie, agora com 17 anos, vivia com o casal, e, com os anos, Belinda deu à luz outros quatro filhos: Ebany, de 9 anos; Aiden, de 7; Dylan, de 5 anos; e Jayce, que hoje tem 4 anos.

Como muitos de seus vizinhos, ele gostava de caçar alces e cortar a própria lenha. Torcia para o time de beisebol Seattle Mariners e procurava peças de carros antigos no site de vendas Craigslist.

Durante anos, ele e Belinda fizeram visitas constantes ao escritório do ICE em Idaho Falls na tentativa de regularizar o status de imigração dele. Nesse processo, pagaram mais de US$ 10 mil a advogados.

Por ser casado com uma cidadã americana, Luna teria direito à residência permanente no país, mas seu caso tinha uma complicação: ele já tinha sido deportado em 1992, e voltou ao país ilegalmente depois disso. Durante o que seria uma visita de rotina ao escritório do ICE em agosto de 2017, um dos funcionários da agência disse a Luna que seu tempo tinha se esgotado.

Ele passou semanas detido antes de ser deportado. Ficou alguns meses na casa de um parente em San Martín de Bolaños, em Jalisco, e começou a planejar a reunião com a família.

Em março, Luna chegou à fronteira com o Arizona, onde tentou atravessar e logo foi deportado novamente. Então, em abril, ele chegou a Tijuana. Dali, ele entrou em contato com os irmãos, alguns dos quais, há décadas, moram ilegalmente em Idaho e na Califórnia, e disse-lhes que planejava cruzar a fronteira pelo deserto perto de San Diego com um grupo comandado por um contrabandista.

O restante da trajetória dele segue envolta em mistério. Seu irmão, Rafael Luna, 50 anos, que vive no sul da Califórnia, disse ter ouvido que o grupo teve de abandonar Luna pelo caminho quando ele apresentou sinais de fadiga extrema e desidratação.

Não seria um caso incomum: pelo menos 412 imigrantes foram encontrados mortos perto da fronteira em 2017, conforme a vigilância reforçada perto de conhecidos pontos de travessia obriga os imigrantes a buscar rotas mais remotas e acidentadas.

Rafael Luna trouxe a triste notícia para a família em Idaho. Enviou fotos do documento de identidade mexicano de Luna, feitas com celular, e um santinho, pertences encontrados ao lado do corpo.

"Comecei a chorar muito e desabei no chão quando fiquei sabendo a respeito do meu pai", disse Emilie. "Mas o que posso fazer? Deixar de viver minha vida? Não posso me dar esse luxo".

Durante algum tempo, a família se ateve à esperança de descobrir que os restos seriam de outra pessoa. O corpo estava num estado de decomposição tão avançado que tinha se tornado irreconhecível. Seria possível que Luna tivesse perdido o documento de identidade e, em seguida, tivesse se perdido também?

Então, num dia de julho, até essa frágil esperança foi estilhaçada. Belinda recebeu um telefonema do Instituto Médico Legal de San Diego, que tinha conduzido testes de DNA nos restos mortais. Com a família reunida para comer, às lágrimas, ela deu a notícia a todos.

"Foi como se ele tivesse morrido novamente hoje", disse o vendedor Randy Lozano, 40 anos, cunhado de Luna. Ele disse que foi exasperante debater a deportação de um parente dele com vizinhos e colegas de trabalho em Idaho que defendem a repressão do governo aos imigrantes. "Esse é o ponto a que chegamos. Pense nisso". / Kitty Bennett contribuiu com a pesquisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.