Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

A lenda de um 'contador de histórias cantadas' na Itália

Por mais de 60 anos, Franco Trincale cantou sobre a exploração dos trabalhadores e a injustiça social

Elisabetta Povoledo, The New York Times

11 de novembro de 2018 | 06h00

MILITELLO, SICÍLIA - Não é uma sensação a qual ele estivesse acostumado: Franco Trincale ficou sem palavras.

O cantor, que passou cerca de 60 anos impressionando o público com canções a respeito da exploração dos trabalhadores, das injustiças sociais e dos episódios da história política e criminal da Itália durante décadas de instabilidade social viu-se incapaz de emitir mais que um suspiro.

“Perdi a voz", gemeu ele num cômodo repleto de visitantes que vieram vê-lo na prefeitura de Militello, cidade onde ele mora na Sicília, para homenagear seu compatriota.

Trincale, 83 anos, estava em Militello para a inauguração em outubro de uma exposição dedicada à sua longa carreira como um dos últimos tradicionais “cantastorie” da Sicília (literalmente, "cantores de histórias”), que relatam acontecimentos sob a forma de canção.

Trincale ligou o smartphone a um amplificador e escolheu uma canção, com sua poderosa voz de tenor preenchendo o cômodo.

A balada contava a história de um ataque suicida contra o quartel-general da polícia militar italiana em Nasiriya, Iraque, em 2003, que deixou 18 italianos e 9 civis iraquianos mortos.

A apresentação de Trincale não pôde contar com recursos comuns da arte dele: um violão e o amplo painel pintado que os cantastorie sicilianos costumam usar, ilustrando o trágico relato como numa história em quadrinhos.

A exposição, montada numa ala da prefeitura, continha painéis desse tipo em quantidade suficiente para toda uma vida, coloridas codas da tradição dos cantastorie. Pintados por Trincale, e também por artistas profissionais, os painéis capturam essa abordagem frequentemente irônica para a recente história italiana, filtrada por sua opinião pessoal esquerdista e seu imenso coração.

Havia relatos da imigração maciça do empobrecido sul da Itália para o norte do país, mais industrializado, e a agitação trabalhista que se seguiu; histórias do controle exercido pela Máfia nessa região; e um apanhado das figuras da política recente, incluindo o primeiro-ministro Giulio Andreotti, nomeado sete vezes para o cargo e morto em 2013, e o magnata da mídia convertido em político, Silvio Berlusconi.

Os advogados de Berlusconi, indiciado numa série de processos, chegaram a alegar que seu cliente não receberia um julgamento justo por causa das ácidas canções de Trincale.

“Trincale tem o mérito de trazer a arte dos cantastorie para era moderna", disse Claudio Piccoli, editor de um periódico a respeito dos cantastorie. “Ele transformou a arte.”

Os cantastorie tradicionais se concentravam em temas folclóricos e eram capazes de alongar as histórias por horas, disse ele. Trincale falava de assuntos tão variados quanto o terrorismo e o astro do futebol, Maradona, em canções de três ou quatro minutos.

Trincale começou a cantar ainda menino, quando era aprendiz numa barbearia local.

“Aprendi a tocar quatro acordes no violão, os mesmos quatro acordes que uso até hoje", disse ele.

“Quando era pequeno, eu costumava fugir para a barbearia para escutar o cantastorie, de boca aberta", lembrou ele. “Ficavam de pé numa cadeira, para serem facilmente notados. Não usavam microfone, apenas o violão, e uma multidão se reunia para ouvi-los, e eu pensava, ‘Quero aprender a cantar desse jeito.’”

“Acho que sou um pouco exibicionista", acrescentou ele.

Na exposição, Trincale aparecia abraçado com um violão que ganhou em 1968 dos operários de uma fábrica da Alfa Romeo em Arese. “Eu era a voz dos trabalhadores", disse ele.

Em 2006, a província siciliana de Catânia comprou o acervo de versos, painéis, cartazes, troféus, prêmios e documentos de Trincale. Mas um museu, proposto, nunca se materializou (“Minhas coisas ficaram hibernando na Catânia", resmungou Trincale). Esse ano, o prefeito de Militello, Giovanni Burtone, estabeleceu um acordo de empréstimo para ficar com o material por cinco anos, na esperança de transformá-lo numa atração turística da cidade.

“Quando se apresentou em Militello na última vez, no ano passado, Franco tocou algumas baladas novas", disse Burtone. “Nunca parou de trabalhar.”

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