Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

A leveza de ser um maratonista de sofá pode contribuir para nos manter obesos

Pesquisadores se perguntaram se a imobilidade engana os corpos, fazendo-os pensar que eles pesam menos do que realmente pesam

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

06 de agosto de 2020 | 05h00

Em um novo e interessante estudo sobre adultos acima do peso, aqueles que vestiram um colete pesado durante três semanas perderam alguns quilos, mesmo sem conscientemente alterar suas dietas, fazer mais exercícios ou mudar de hábitos.

O estudo, que partiu de uma pesquisa com roedores, sugere que nosso corpo é capaz de avaliar quanto devemos pesar e, quando passamos abruptamente desse nível, de nos fazer perder alguns quilos. Mas as descobertas também levantam questões sobre o motivo pelo qual muitos de nós ganhamos pesos irremediáveis durante a vida adulta e sobre a possibilidade de certos aspectos de nosso estilo de vida moderno, como as longas horas que passamos sentados, afetarem essa dinâmica.

Qualquer pessoa que emagreceu e depois viu os quilos voltarem sorrateiramente já experimentou o impulso da homeostase. Conceito biológico bem estabelecido, a homeostase se refere, em essência, à obstinação de nosso corpo em manter as coisas do jeito que sempre foram. Se um processo fisiológico funcionava bem, o corpo geralmente tenta retomá-lo quando alguma coisa muda dentro do organismo.

Na prática, a homeostase significa que, se conseguimos perder alguma gordura corporal, por exemplo, vários mecanismos homeostáticos em nossos cérebros e células reconhecem essa perda e começam a enviar mensagens que aumentam nossa fome ou nos fazem nos movimentar menos, até que, inexoravelmente, voltamos ao peso original.

Mas, por alguma razão, a reação homeostática oposta raramente ocorre. Se aumentamos o peso original ou, no curso da vida moderna normal, ganhamos alguns quilos, nossos mecanismos inatos de controle de peso raramente entram em ação, alertando nossos corpos e nos livrando desses quilos adicionais. Em vez disso, o sistema homeostático parece dar de ombros e simplesmente aceitar essa massa corporal extra como o novo normal.

Existem muitas teorias sobre os motivos pelos quais os quilos extras são tão teimosos, e os mecanismos completos ainda são um mistério. Mas, há alguns anos, pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, começaram a se perguntar sobre o tempo que passamos sentados. Ficar sedentário por várias horas ao dia está associado a maiores riscos de ganho de peso e obesidade, em parte porque queima poucas calorias.

Mas os pesquisadores suecos se perguntaram se a imobilidade também engana os corpos, fazendo-os pensar que eles pesam menos do que realmente pesam, já que as cadeiras suportam uma parte do peso das pessoas. Para estudar a questão, eles realizaram há alguns anos extensas experiências com roedores com excesso de peso. Os cientistas implantaram pelotas de chumbo nos animais, deixando-os instantaneamente mais pesados.

Dentro de duas semanas, a maioria dos animais havia perdido gordura corporal, para que seu peso, com as pelotas de chumbo, voltasse a ser aproximadamente o mesmo que fora um mês antes. Após a remoção das pelotas, os animais recuperaram o peso perdido. O controle de peso homeostático funcionou.

Mas as pessoas não são roedores. Então, para o novo estudo, publicado recentemente na EClinical Medicine, os mesmos cientistas recrutaram 69 adultos com excesso de peso e, em vez de chumbo, pediram que usassem coletes pesados. Alguns desses coletes adicionaram 11% ao peso corporal da pessoa; os outros adicionaram apenas 1% e serviram como controle. Os pesquisadores pediram aos voluntários que usassem os coletes durante o dia, mas que não mudassem suas dietas ou hábitos.

Depois de três semanas, os homens e mulheres que usavam os coletes mais pesados haviam perdido cerca de 1,5 quilos de gordura, em média, o que era menos do que o peso de seus coletes, mas substancialmente mais do que as mudanças observadas no outro grupo, cuja perda de peso foi insignificante. Parte dessa perda, acreditam os cientistas, provavelmente resultou do fato de que as pessoas com os coletes mais pesados agora carregavam mais massa, o que significa que queimavam mais calorias sempre que se moviam.

Mas os resultados também indicam que, assim como os animais das experiências anteriores, os humanos podem conter um sensor de gravidade, disse John-Olov Jansson, professor da Universidade de Gotemburgo que supervisionou o novo estudo. Se isto for verdade, nossos corpos e ossos confiam na pressão relativa que fazemos contra o solo para saber se nossa massa mudou e se, por uma questão de homeostase, precisamos ganhar ou perder peso.

Nesse caso, a conclusão mais ampla é que talvez precisemos ficar de pé e nos movimentar para que nosso sensor de gravidade funcione corretamente, disse Jansson. Quando você fica muito tempo sentado, “confunde” os sensores celulares, levando-os a pensar que você está mais leve do que de fato está, disse ele. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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