Chris Helgren/Reuters
Chris Helgren/Reuters

A louca ciência de oferecer drogas aos animais

Pesquisas que envolvem drogar animais dividem cientistas

Robb Todd, The New York Times

07 Outubro 2018 | 06h00

Incentivar as lagostas a relaxar, e os polvos a mergulhar na introspecção. Os cientistas já fizeram coisas piores com os seres vivos do que dar drogas a elas. Um estudo recente exigia que as criaturas fossem abertas com tesouras e monitoradas enquanto eram comidas vivas. Pesquisadores também foram capazes de acompanhar a reação das plantas a ataques após injetar nelas uma proteína verde reluzente. O experimento mostrou que as plantas não são passivas, e enviam alertas dos ataques por meio de suas folhas.

"As plantas são diferentes, mas, às vezes, seu funcionamento é muito semelhante ao dos animais", disse o botânico Simon Gilroy, da Universidade de Wisconsin-Madison.

A pesquisa em animais mostra que eles são semelhantes aos humanos de maneira surpreendente, como o efeito do Ecstasy nos polvos, que os incentiva a buscar o tato, e o efeito da maconha nas lagostas, que parecem relaxar.

Um experimento de 1984 que ofereceu LSD a dois elefantes não pôde revelar de maneira conclusiva se "os elefantes demonstram algum interesse em bandas de improviso", escreveu Jennifer Finney Boylan no Times.

Mas ela disse que outro experimento, realizado 22 anos depois, envolvendo LSD e um elefante chamado Tusko, não foi brincadeira. Depois de injetar LSD no elefante, ele caiu no chão, defecou e começou a convulsionar. Então, deram ao animal Thorazine e sódio pentobarbital e, hoje, acredita-se que essas duas drogas tenham provocado sua morte.

"Por que temos de interferir nos cérebros dos animais?", escreveu Jennifer. "Não basta destruirmos nossas próprias consciências sem arruinar as vidas de elefantes, polvos e lagostas?".

Geralmente, os polvos são associais, e não se sabe a certo se o estudo lhes causou mal. Basicamente, eles relaxaram na companhia de outros polvos e procuraram abraços cheios de tentáculos.

"Sim, Ecstasy, droga que diminui o medo e a inibição nos humanos, induz sentimentos de empatia, distorce a percepção do tempo e ajuda as pessoas a dançarem a noite toda ao som de música eletrônica", escreveu JoAnna Klein no Times.

Os cientistas deram a substância aos polvos na tentativa de compreender melhor o desenvolvimento evolutivo de seus cérebros. Eles e os humanos compartilham um "sistema de mensagens ancestral envolvido nos comportamentos sociais", intensificado pelo Ecstasy. Como os humanos, os polvos pareceram mais sociáveis sob o efeito da droga.

"Ainda que os polvos pareçam ser criaturas vindas do espaço sideral, na verdade eles não são tão diferentes de nós", disse Gül Dölen, neurocientista da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, em Maryland, que comandou o estudo.

Este relatório pode se tornar um modelo para outros estudos que buscam tratar o distúrbio de estresse pós-traumático e compreender "como o cérebro evoluiu para produzir comportamentos sociais", escreveu JoAnna.

O MDMA, nome científico do Ecstasy, libera a serotonina, que ajuda a regular o comportamento e o humor também nos invertebrados. Mas Charlotte Gill prefere oferecer maconha aos invertebrados de seu restaurante no Maine. O Times informou que Charlotte espera aliviar o sofrimento das lagostas quando são fervidas ou deixá-las chapadas num recipiente cheio de fumaça de maconha. Embora ela diga que os resultados são positivos, alguns cientistas dizem que as lagostas não são capazes de sentir dor.

"São animais muito mais simples que os insetos", disse Joseph Ayers, professor da Universidade Northeastern que estuda as lagostas há quatro décadas. "Elas não têm esse sistema desenvolvido".

Mas, nesse ano, a Suíça discordou e proibiu que as lagostas sejam cozinhadas vivas.

Não há leis desse tipo no Maine, e o estado quer que Charlotte pare de usar maconha nas lagostas. No entanto, ela diz que, se oferecessem a ela a oportunidade de fumar um baseado antes de ser fervida até a morte, ela responderia "com um enfático sim".

Mais conteúdo sobre:
ciência Pesquisa Científica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.