Atul Loke / The New York Times
Atul Loke / The New York Times

A luta da Índia para deter a raiva continua 

Mundialmente, cerca de 59 mil pessoas morrem todos os anos por causa da raiva, a maioria na África e na Ásia; 99% delas são infectadas após mordidas de cão raivoso

James Gorman, The New York Times

02 de agosto de 2019 | 06h00

CHINCHINIM, GOA, ÍNDIA - Sete homens correram pelas trilhas, entrando atrás das casas e saltando muros. Cada um levava um puçá. O barulho da indignação canina tomou o ar, anunciando a invasão do bairro. Os cães mais assustados fugiram. Pena. Se fossem apanhados, talvez tivessem a grande chance de suas vidas. Os apanhadores trabalham para a Missão de Combate à Raiva, que vacina cães.

Goa, o menor estado da Índia, foi colonizado originalmente pelos portugueses, e é um popular destino turístico. Se a abundância de igrejas distingue Goa dos demais estados indianos, o lugar partilha com eles a abundância de cachorros de rua: eles estão por toda parte, assim como a raiva.

Mundialmente, cerca de 59 mil pessoas morrem todos os anos por causa da raiva, a maioria na África e na Ásia, 99% delas depois de serem mordidas por um cão raivoso. Cerca de 40% das vítimas são crianças, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, que anunciou uma campanha para reduzir a zero as mortes humanas decorrentes da raiva transmitida por cães até 2030. De acordo com a OMS, o número anual de casos fatais na Índia seria de aproximadamente 20 mil.

A Missão de Combate à Raiva está usando Goa para demonstrar a eficácia do seu programa para eliminar a raiva entre os cães. São gastos cerca de US$ 300 mil ao ano, resultando na vacinação anual de 100 mil cães desde 2017 (antes disso o número anual de vacinados era 50 mil). Os óbitos humanos decorrentes da raiva foram reduzidos a zero no ano passado. Quando a campanha teve início, em 2014, tinham ocorrido 15 mortes. O programa obteve o apoio do governo do estado.

Ryan M. Wallace, que dirige a unidade de epidemiologia de raiva nos Centros para a Prevenção e Controle de Doenças nos Estados Unidos, disse que os esforços da Missão de Combate à Raiva em Goa são “um dos programas mais bem sucedidos que vimos nos países de renda baixa ou média nos dez anos mais recentes". Parte dessa eficácia depende dos homens que correm atrás dos cães. 

Em uma saída recente, dois apanhadores correram pela lateral de uma casa. Um deles estava perfeitamente posicionado quando um cachorro saiu correndo de um muro na altura da cintura. Quando as patas dele tocaram o chão, ele fechou a rede, erguendo-a com um movimento que rapidamente imobilizou o animal. Um membro da equipe chegou com um cooler contendo a vacina. Ele deu uma injeção no cachorro. Outro membro da equipe marcou sua testa com tinta. Solto, o cão saiu correndo.

As organizações de combate à raiva tem como objetivo erradicar a doença, mas a maioria vê isso como uma aspiração. Não por causa de dificuldades científicas, mas porque o controle da raiva, como todos os problemas de saúde pública, depende da contínua ação do governo. Mesmo na Índia, que conta com um poderoso governo central, a parlamentar Maneka Gandhi disse que a raiva “infelizmente não é tratada pelo governo como prioridade".

Caso a caso, a raiva é a doença mais letal existente. Quando chega ao tronco encefálico, geralmente depois de duas semanas, a doença começa a causar convulsões e sensibilidade à luz. Depois que os sintomas aparecem, ela é quase 100% fatal. Entre os especialistas em raiva, o consenso é de que o nível de vacinação da população canina deve ser mantido em 70% ao longo de um período de 7 anos.

Nos países em que os cães se tornaram animais de estimação presos por coleiras, como os Estados Unidos e a Europa Ocidental, a raiva canina foi eliminada. Nas Américas, os países dedicaram seus recursos à vacinação da maioria dos cães. Na África, onde dezenas de milhares de pessoas morrem de raiva todos os anos, a maioria dos cães pertence a alguma família, mesmo que tenham liberdade de locomoção, e são levados pelos donos aos pontos de vacinação.

Na Índia é diferente. Cães de rua são frequentemente sustentados pela comunidade, mas ninguém decide onde vivem, o que comem e quando se reproduzem. Tampouco são levados para vacinar. De acordo com a Missão de Combate à Raiva, a resposta é enviar equipes para vacinar os cães de rua.

A Missão de Combate à Raiva estima que o custo de vacinação por animal seja de US$ 2.50, incluindo salários e outras despesas. De acordo com esses números, seria possível vacinar todos os cachorros da Índia por menos de US$ 90 milhões. A Missão estima que a Índia gaste atualmente US$ 490 milhões por ano em tratamento para humanos mordidos. Se os especialistas insistem que o trabalho em Goa foi um sucesso, a resposta na Índia é variada. Maneka disse em e-mail que os cães vacinados mas não castrados “terão 12 filhotes no ano seguinte, e o processo recomeça".

A organização responsável pela Missão de Combate à Raiva inclui programas que treinam veterinários na castração de cães. Mas, na Índia, uma grande redução na população de cães de rua representaria uma mudança cultural. Em reunião da comunidade em Vadodara, as pessoas se queixaram que cães que roubavam calçados. Mas, indagados se preferiam menos cães no bairro, muitos responderam negativamente, e tampouco desejavam que os cães fossem levados embora. Mas, se latissem menos, todos agradeceriam./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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