Alessandro Grassani para The New York Times
Alessandro Grassani para The New York Times
Robb Todd, The New York Times

05 de abril de 2020 | 06h00

É difícil saber quão pretensioso pode ser um pequeno ato de bondade. No início dos anos 1960, alguém encontrou um envelope no metrô de Nova York e alterou o curso da história literária, apenas entregando-o ao espaço de achados e perdidos. Richard Marek era um jovem editor da Scribner na época e recebeu um dos manuscritos mais importantes da carreira de Ernest Hemingway, "Paris é uma festa".

Nas margens, havia notas insubstituíveis do autor. Quando Marek chegou em casa, ele percebeu que não tinha consigo o envelope que continha o manuscrito. “O pânico tomou conta dele. Ele chorou a noite toda e disse a si mesmo: "Minha carreira acabou", escreveu Katharine Q. Seelye no obituário do The Times para Marek, que morreu em 22 de março aos 86 anos."

Na manhã seguinte, ele foi ao espaço para achados e perdidos do metrô e, com espanto, viu que alguém tinha entregado o envelope. A pessoa que entregou o envelope provavelmente não tinha ideia que o ato preservaria as memórias de Hemingway e salvaria a carreira literária de Marek.

Ele editou mais de 300 títulos para publicação, incluindo obras importantes como Se a Rua Beale Falasse, de James Baldwin, A identidade Bourne, de Robert Ludlum, e O silêncio dos inocentes, de Thomas Harris. O que aquele estranho do metrô fez é a definição de bondade, segundo Judith Newman, uma autora. "A bondade é fazer pequenos atos pelos outros sem esperar nada em troca", escreveu ela no The Times.

Judith citou um estudo que ilustra os efeitos positivos da bondade. Em 1978, os pesquisadores estavam examinando seus efeitos no colesterol alto. Eles alimentaram coelhos com uma dieta rica em gordura, o que causou problemas cardíacos para muitos deles.Os coelhos que evitavam esses problemas, apesar de receberem a mesma comida, haviam sido cuidados por alguém que os acariciava e falava com eles quando comiam.

Um estudo separado produziu os mesmos resultados. "Existem inúmeras pesquisas sobre fatores de estresse e alterações hormonais no corpo com doenças", escreveu Judith, "mas muitas se resumem a isso: você fica sozinho quando está doente ou recebe visitas que trazem flores ou revistas? Se você faz parte da segunda opção, provavelmente se recuperará mais rápido. "

Enquanto muitas pessoas lidam com o coronavírus, os atos de bondade se destacam - apesar do risco adicional de pegar ou espalhar o vírus ao praticá-los. Em uma calçada em Nova York, alguém escreveu “AMEM UNS AOS OUTROS” em giz rosa dentro de um coração, informou o Times, e é uma mensagem que as pessoas estão abraçando em países afetados pela pandemia: os americanos estão costurando máscaras para funcionários de hospitais enquanto italianos em quarentena se reúnem em suas varandas para aplaudir médicos, cantar e tocar música.

"Para passar por tempos esmagadores e incertos, os especialistas dizem que é fundamental que as pessoas se lembrem de que há vislumbres de esperança e bondade", escreveu o Times. Emily Claypoole encarna isso. Recentemente, ela perdeu o emprego de garçonete, mas usou parte de seu tempo extra para ajudar um vizinho no Brooklyn. Fazer isso, disse ela, "foi um prazer, não foi um fardo".

E ela toma precauções, como higienizar as mãos e limpar as compras com água sanitária antes de deixá-las do lado de fora da porta dele. "A gentileza está no centro do que significa ser bom", disse Harriet Lerner, psicóloga e autora, ao The Times. "Pode exigir muito pouco de nós, ou o oposto." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.