Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

A mais nova maldição das múmias: má drenagem

Arqueólogos trabalhando para salvar antigo templo no Egito descobriram tesouros raros, incluindo uma esfinge

Declan Walsh, The New York Times

06 Outubro 2018 | 06h00

KOM OMBO, Egito - Desde que o arqueólogo britânico Howard Carter descobriu o túmulo de Tutancâmon há cerca de um século, a cultura popular e o folclore invocaram a maldição da múmia, que perseguiria os que desenterram os tesouros escondidos do antigo Egito com azar, doenças ou morte.

Mas no antigo templo de Kom Ombo, a 650 quilômetros ao sul do Cairo, onde arqueólogos desenterraram recentemente uma série de múmias em decomposição, o perigo assume uma forma mais prosaica - as fundações encharcadas de água.

Décadas de inundações benéficas nos campos das redondezas, que outrora eram deserto, encharcaram o solo em baixo do templo. A água penetrou nas fundações de arenito, e combinada ao sal e ao calor apagou alguns hieróglifos das paredes do templo.

A solução, segundo engenheiros de um projeto de 9 milhões de dólares financiado pelos americanos, é a moderna drenagem. Desde outubro de 2017, dezenas de trabalhadores estão cavando uma trincheira de nove metros de profundidade ao redor das paredes do templo na tentativa de drenar a água do lençol freático e levá-la de volta ao Nilo.

Os arqueólogos trabalham ao lado dos operários, na esperança de salvar todos os tesouros descobertos. Foram encontraram objetos significativos, inclusive um busto de Marco Aurélio, uma oficina de cerâmica utilitária do Antigo Egito, e um relevo de Sobek, o deus crocodilo do templo.

A descoberta mais impressionante é talvez uma esfinge incrustrada de areia retirada de um buraco úmido. Ela foi datada da era Ptolemaica, que vai de 305 a.C. a 30 a.C.

Com menos de meio metro de altura, a esfinge é uma anã, se comparada à Grande Esfinge de Gizé, alta, com 20 metros por 75, da cabeça à cauda.

Mas ao contrário da esfinge de Gizé, cujas feições sofreram as consequências da erosão do tempo e dos elementos, a de Kom Ombo está muito preservada.

Em Kom Ombo, e em outros sítios faraônicos ao longo do Nilo, os problemas provocados pela água são o produto de um dos mais importantes sucessos de que o Egito pode se orgulhar. A maciça barragem de Assuã, a cerca de 50 quilômetros rio acima de Kom Ombo, transformou a agricultura egípcia ao ser concluída em 1971. Depois de domar o antigo ciclo de inundações e secas, os egípcios puderam cultivar a margem do rio, ajudando a tornar o seu país uma das regiões mais produtivas da terra.

Mas, nas dezenas de anos que se seguiram, a barragem causou um aumento da salinidade em alguns trechos do fértil Delta do Nilo, obrigando os produtores rurais a mudar as culturas ou a abandonarem os campos. Os templos faraônicos nas margens do rio também sofreram.

Muitos deles ficaram cobertos de camadas de areia - quase as condições ideais de preservação. Mas hoje, eles estão cercados por campos, fazendas e por um país de cerca de 100 milhões de habitantes.

A mudança climática trouxe temperaturas mais inclementes, mais variáveis, e acelerou a decomposição com a elevação do lençol freático. O esgoto não tratado e a água que vaza das casas informais contribuíram para agravar o problema.

Entretanto, para a maioria dos egípcios, a preocupação não é o excesso de água, mas sua escassez. O país tem falta crônica de água por causa da poluição, do desperdício e de uma população que não para de crescer.            

A obra que está sendo realizada em Kom Ombo é um dos seis projetos mais importantes para o rebaixamento do lençol freático do Egito, com um custo de 100 milhões de dólares, desde a década de 90. As iniciativas anteriores concentraram-se nas Pirâmides de Gizé, nas catacumbas de Alexandria e na cidade antiga do Cairo.

O diretor de Kom Ombo, Ahmed Sayed Ahmed, afirmou: “Este projeto nos permite reescrever a história do templo”.      

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