Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

À medida que os preços de habitação sobem, a Nova Zelândia enfrenta uma onda de desabrigados

País tem a maior taxa de pessoas desabrigadas do mundo desenvolvido, novo governo promete abordar o problema

Charlotte Graham Mclay, The New York Times

04 Julho 2018 | 15h15

AUCKLAND, NOVA ZELÂNDIA - A Nova Zelândia é conhecida por muitos estrangeiros como um país maravilhoso e rico, o lugar onde foram rodados os filmes da saga “O Senhor dos Anéis”. Mas Joseph Takairangi e milhares de outras pessoas a conhecem melhor pelos preços muito altos das casas, além do seu alcance.

Uma destas noites, em meio à chuva e à neblina, Takairangi e alguns amigos estavam à procura de um lugar para se abrigar. Eles haviam acampado em um estacionamento depois de terem sido expulsos de uma área de lojas de alimentos para delivery, em Henderson, um bairro de Auckland.

Logo, um alto-falante instalado em um muro sobre as suas cabeças começou a berrar: “Saiam daqui, por favor, pessoal”.

A Nova Zelândia tem a maior taxa de sem teto das nações ricas que constituem a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, mostrou um estudo da Universidade Yale do ano passado, observando porém que a definição de sem teto varia de país para país. Aqui, os assistentes sociais afirmam que os sem teto - que correspondem a 1% da população, segundo um estudo da Universidade da Nova Zelândia - incluem cada vez mais pessoas que têm um emprego.

Juntamente com os que dormem pelas ruas, os sem teto da Nova Zelândia, abrangem as pessoas que moram em automóveis, as que se encontram em lugares precários ou superlotados e famílias que estão em abrigos de emergência por um período limitado enquanto esperam que uma habitação subsidiada do governo se torne disponível.

Auckland, a maior cidade do país, costuma integrar o grupo dos 10 mercados da habitação menos acessíveis, segundo a pesquisa global anual da Demographia International, que monitora os preços da habitação em relação à renda. Uma população sem teto é o mais grave sintoma de “um mercado da habitação extremamente disfuncional”, afirmou o ministro da Habitação Phil Twyford.

Shamubeel Eaqub, economista do setor da habitação, disse que a Nova Zelândia tem um déficit de meio milhão de casas em relação à necessidade dos seus 4,5 milhões de habitantes.

O Partido Liberal de centro-esquerda de Twyford, liderado pela primeira-ministra Jacinda Ardern, chegou ao poder em outubro do ano passado em parte com a promessa de tratar dos problemas dos sem teto e das habitações excessivamente caras.

Em junho, o governo anunciou que formaria um novo Ministério da Habitação e do Desenvolvimento Urbano para ajudar a cumprir a sua promessa. E se comprometeu a construir mais habitações do governo e de baixo custo, a criar novas residências de emergência, a cuidar do problema dos sem teto a longo prazo, reduzir a burocracia, oferecer incentivos para as novas construções e conceder mais direitos aos inquilinos.

Em Henderson, as pessoas sem casa disseram que as suas opções de moradia parecem tão limitadas quanto antes. Algumas afirmaram que haviam feito acordos com instituições de assistência que prometeram ajuda, mas não cumpriram a promessa. Havia também adolescentes que fugiram de orfanatos  e temiam procurar os serviços sociais com medo de serem mandados de volta.

Mas a queixa mais comum era que uma burocracia tortuosa não trouxe qualquer resultado evidente e os desencoraja a buscar ajuda.

Jan Rutledge, que dirige a De Paul House, um abrigo de emergência em North Shore, em Auckland, afirmou que os seus clientes tinham de passar por dois ou três departamentos do governo para garantir um local mais permanente.

“Serem informadas de que se encontram na lista de espera da habitação lhes dá uma garantia que não deveriam sentir”, ela disse. Alguns que tentavam seguir por conta própria os trâmites do sistema acabaram sendo excluídos das listas de espera.

Embora muitas pessoas que vivem nas ruas enfrentem uma série complexa de problemas, até mesmo doenças mentais e uso de drogas, Jan Rutledge observou que, cada vez mais, as famílias sem teto com as quais conversou tinham pelo menos um dos pais que trabalhava. Ela saudou as novas propostas do governo, mas disse que seus clientes ainda terão um futuro difícil.

“Vai levar muito tempo para corrigir o déficit”, afirmou. “Dois ou três anos, talvez mais”.

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