Karsten Moran para The New York Times
Karsten Moran para The New York Times

A misteriosa rota da batata doce

Uma cultura, possivelmente originada nas Américas, que se espalhou por enormes distâncias provavelmente sem a intervenção do homem

Carl Zimmer, The New York Times

28 Abril 2018 | 11h00

Os povos indígenas da América Central e do Sul cultivaram a batata doce durante gerações. Os europeus a descobriram quando Cristóvão Colombo chegou ao Caribe. No século 18, o capitão James Cook voltou a encontrá-la – desta vez a 6.400 quilômetros de distância, em remotas ilhas do Pacífico. Posteriormente, exploradores europeus a acharam em outras partes do Pacífico.

Como a batata doce pode ter-se difundido a tal ponto? Será possível que exploradores desconhecidos a tenham levado da América do Sul para as ilhas do Pacífico? Uma análise do DNA da batata doce, publicada este mês na revista “Current Biology”, chega a uma conclusão controvertida: o homem não teve nada a ver com isso.

Alguns estudiosos propuseram que todas as variedades de batatas doces são originárias das Américas, e que depois da viagem de Colombo, os europeus as disseminaram pelas colônias, como por exemplo, nas Filipinas. E foi ali que os habitantes das ilhas do Pacífico adquiriram as culturas.

Mas os habitantes do Pacífico já as cultivavam há gerações quando os europeus apareceram por aquela região. Restos de batatas doces de 700 anos de idade foram encontrados por arqueólogos em uma ilha da Polinésia. Surgiu então uma nova hipótese: os habitantes das ilhas do Pacífico, mestres na arte da navegação no oceano aberto, conheceram as batatas doces nas Américas, muito antes da chegada de Colombo.

Na esperança de lançar alguma luz neste mistério, alguns pesquisadores empreenderam recentemente o mais profundo estudo jamais feito do DNA do tubérculo. “Encontramos claras evidências de que as batatas doces poderiam ter chegado ao Pacífico por meios naturais”, afirmou Pablo Muñoz-Rodríguez, botânico da Universidade de Oxford, autor do estudo.

A batata doce contém mais nutrientes por hectare cultivado do que qualquer outro alimento. Há séculos ela sustenta as comunidades humanas.

Os pesquisadores viajaram então pelo mundo a fim de colher amostras das variedades de batatas doces e seus congêneres silvestres. A poderosa tecnologia de sequenciamento de DNA por eles utilizada indicou que todas as batatas doces tiveram como ancestral uma única planta silvestre. O seu congênere silvestre mais próximo é uma flor do Caribe. Os cientistas calcularam que, posteriormente, os ancestrais das batatas doces dividiram-se há pelo menos 800 mil anos.

As folhas das batatas doces que a tripulação do capitão Cook colheu na Polinésia estão no Museu de História Natural de Londres. Os pesquisadores retiraram o DNA delas e encontraram a variedade polinésia que se separou das outras há mais de 110 mil anos. O homem só chegou às ilhas remotas do Pacífico nos últimos mil anos.

Tradicionalmente, os pesquisadores se mostravam céticos quanto à possibilidade de uma planta viajar  milhares de quilômetros através do oceano. Mas, nos últimos anos, os cientistas encontraram sinais de que outras plantas fizeram o mesmo.

Entretanto, alguns deles acham difícil acreditar nesta hipótese. Tim P. Denham, um arqueólogo da Universidade Nacional Australiana, disse que isto sugeriria que os ancestrais da batata doce se espalharam pelo Pacífico e depois foram domesticados várias vezes – mantendo, contudo, a mesma aparência. “Parece bastante improvável”,  afirmou.

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