João Fazenda
João Fazenda

A moderna culinária britânica será afetada pelo Brexit?

Alguns temem que, com a saída da Europa, a Grã-Bretanha volte à Idade das Trevas da culinária

Lara Prendergast, The New York Times

22 Setembro 2018 | 10h00

Há poucas coisas que conseguem irritar mais os britânicos do que sugerir que a nossa culinária é revoltante. Atualmente, gostamos de nos considerar uma ilha de gourmets. Se alguém afirmar o contrário, teremos de brigar.

Quando Jacques Chirac, então presidente da França, disse ao presidente Vladimir Putin da Rússia, em uma reunião do G-8, em 2005: “Não podemos confiar em um povo que tem uma culinária tão ruim”. O comentário deixou o primeiro-ministro Tony Blair muito nervoso. O crítico de culinária Egon Ronay fez suas as palavras de muita gente quando disse: “Não há outra nação no mundo cuja comida tenha melhorado tanto e tão depressa, nos últimos 15 a 20 anos quanto esta”.

No mês passado, quando um colaborador do jornal “The New York Times” sugeriu que o paladar dos londrinos só evoluiu recentemente, indo além de sua preferência pelo mingau e pelo cozido de carneiro, seu artigo foi recebido com um risinho ressentido em toda a mídia social e com respostas no “The Times” de Londres, “The New Statesman” e “The Guardian” - para mencionar apenas alguns. Será que ele não se deu conta de que a comida da capital há muitos anos é invejada pelo mundo todo?

Somos tão sensíveis a este respeito porque, durante grande parte do século 20, a culinária britânica era realmente horrorosa. A dieta dos meus avós foi definida pelo racionamento do pós-guerra e por legumes e carne que precisavam de um abridor de lata. Para os meus pais, a opção foi ligeiramente mais sofisticada: talvez um restaurante indiano ou um pequeno restaurante de “haute cuisine” desse uma impressão nada convincente de comida francesa.

Nos últimos 30 anos, as coisas mudaram. Sempre foi considerado grosseiro falar muito dos nossos apetites, um tanto galeses. Agora, muitos britânicos falam de algumas coisas mais. O interesse pela comida é visto como a marca de uma pessoa civilizada, evoluída, alguém aberto para o mundo. Graças a esta nova obsessão, Londres e grande parte da Grã-Bretanha  têm uma culinária fabulosa, que vai da sofisticação ao despojamento. Os domingos não são mais dedicados exclusivamente à igreja, mas aos festivais de comida e aos mercados dos produtores rurais. Veneramos os chefs que se tornaram celebridades e assistimos horas a fio a programas de culinária como “The Great British Bake-off”. 

Adoramos explicar aos estrangeiros que a nossa comida supera a de Nova York ou de Paris.

Mas agora, parece que o Brexit poderá pôr em risco a confiança culinária adquirida há relativamente pouco tempo. O referendo para deixarmos a União Europeia, em 2016, provocou certa insegurança quanto a quem somos como nação e o que nos tornamos. Nem a culinária foi poupada.

Até os partidários mais ferrenhos do “Deixar” provavelmente admitirão que a comida britânica melhorou desde 1973, quando aderimos à Comunidade Econômica Europeia, o bloco que antecedeu a União. 

Quando aderimos ao clube da Europa, ficamos fascinados com os hábitos gastronômicos europeus, e então os imitamos (e eventualmente os aperfeiçoamos). A facilidade do intercâmbio com o continente encheu as prateleiras dos nossos supermercados de uma rica variedade de produtos. Há cinquenta anos, o azeite de oliva era usado como remédio e frequentemente podia ser encontrado nas farmácias. Hoje em dia, é o azeite de cozinha mais vendido no país.

E assim, a discussão a respeito do Brexit muitas vezes se transforma em uma disputa a respeito de comida. Imediatamente depois do referendo, em junho de 2016, começou a circular na internet uma imagem que mostrava uma mesa: de um lado, cerveja alemã, doces franceses e laranjas espanhola; do outro, uma solitária lata de feijão, o clássico prato básico que costuma estar em todos os armários de cozinha. “Esta imagem resume perfeitamente o que o Brexit poderia significar”, disse um tabloide.

Há algumas preocupações práticas que se referem a como a Grã-Bretanha comerá quando deixarmos o Mercado Único Europeu. Apesar de todo o falatório sobre a nossa corajosa ilha que decidiu seguir em frente por conta própria, é difícil ignorar a realidade: não podemos nos alimentar sem os outros. 

Considerando que importamos 30% da nossa comida da União Europeia, não surpreenderá que com a proximidade da entrada em vigor do Brexit estejamos ficando nervosos. A perspectiva de novos acordos de comércio globais não acalmou a discussão: apareceram artigos desvairados prevendo que a Grã-Bretanha será inundada de frangos cheios de cloro da América e carne bovina encharcada de hormônios da Austrália.

O governo não ajudou a acalmar os temores de que logo poderemos voltar a um regime de comida enlatada e cartões de racionamento. No verão, os conservadores apresentaram planos de um Brexit “sem nenhum acordo”, ou então deixar a União Europeia sem um novo acordo comercial em vigor. Se isto acontecer, a confusão na alfândega interromperá o fornecimento de alimentos frescos. A opção racional é “estocar”, disse a primeira-ministra Theresa May. Se a situação se tornar realmente negra, o exército distribuirá rações.

O lado contrário à União Europeia afirma que isto não passa de exagero, de uma campanha destinada a apavorar os eleitores a fim de levá-los a sair do Brexit. Até certo ponto, está correto: a maioria das pessoas não acredita que os britânicos possam passar fome sem a União Europeia.

As maiores preocupações a respeito do Brexit são mais de cunho cultural do que prático. Nós tememos que a Grã-Bretanha que se abriu para os gostos europeus desapareça; tememos voltar a ser um povo insular, atrasado, comedor de mingau. Isto explica certo grau de esnobismo perverso em muitos artigos de jornal sobre culinária. Pessoas mais gordas são notoriamente mais propensas a votar para sair do que para permanecer: por “mais gordas” entenda-se também “mais pobres”. 

A empresa de panificação Greggs, a padaria mais conhecida, famosa pelos doces de massa e pelo pão com linguiça, experimentou um “boom do Brexit”, enquanto se afirma que os restaurantes chiques de Londres correrão o risco de fechar as portas se perderem o seu pessoal europeu. O lado do "Permanecer" nunca perdoará o do "Deixar" se o Brexit destruir a nossa ousadia culinária que começa a florescer agora.

O que consola é que os nossos apetites hoje são mais globais do que europeus. Não é tão moderno talvez ser tão nostálgico do Império Britânico, mas certamente é popular gostar dos acepipes das antigas colônias bem como dos de países que a Grã-Bretanha jamais chegou sequer perto de invadir. Se tivéssemos de definir nosso prato nacional, teríamos de dizer o frango tikka masala ou o pad thai assim como peixe e batatas. Que, a propósito, se acredita tenham sido introduzidos na GB no século 19 por refugiados judeus.

Ninguém tem muita certeza quanto ao que o Brexit significará para as nossas dietas. O nosso gosto pelos pratos do mundo todo poderá ajudar quando começarmos a estabelecer novos laços comerciais e a abandonar os baratos produtos europeus. Mas a cultura culinária, como a própria comida, pode perecer. Por mais que doa admiti-lo, devemos muito da nossa confiança aos nossos primos europeus. 

Por isso voltaremos aonde estávamos anteriormente - ao motivo de chacota do mundo da culinária - ou poderemos provar que os críticos estão errados?

Lara Prendergast é editora assistente de “The Spectator”. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.