Philippe Lopez/Agence France-Presse - Getty Images
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A mulher que ainda consegue gostar de Louis C.K.

Comediante francesa Blanche Gardin está assumindo todas as ortodoxias do feminismo

Pamela Druckerman, The New York Times

01 Dezembro 2018 | 06h00

PARIS - Em maio de 2017, a comediante Blanche Gardin apareceu no palco do Molières, a premiação do teatro francês, e disse que, em se tratando de diretores acusados de violência sexual: “Temos que aprender a separar o homem do artista".

“Ainda assim”, acrescentou ela, inocentemente, “é engraçado que essa distinção se aplique apenas aos artistas. Por exemplo, ninguém diz a respeito do padeiro, ‘É verdade, ele abusa de crianças na padaria, mas espere aí, sua baguete é extraordinária’”.

O segmento conquistou uma audiência viral na França. Quando o escândalo de Harvey Weinstein veio à tona cinco meses mais tarde, Blanche parecia prestes a se tornar a nova heroína feminista da França. Mas então, em março, ela apareceu no Cesar Awards - a versão francesa do Oscar - usando um broche com a foto de Louis C.K., comediante americano que admitira recentemente ter pedido a colegas do sexo feminino que assistissem enquanto ele se masturbava. Diz-se que os dois estariam agora saindo juntos.

Recentemente, Blanche adquiriu fama na França ao chamar atenção de maneira provocadora para os problemas enfrentados pelas mulheres, para então recusar-se a seguir a linha geral feminista em relação a como resolvê-los. A controvérsia gerada por ela ajuda a explicar a ambivalente resposta dos franceses ao movimento #MeToo, e como eles enxergam as relações entre homens e mulheres.

“Devemos comemorar - de agora em diante está claro para todos que os produtores não têm mais o direito de estuprar atrizes", disse Blanche a um público de celebridades francesas na premiação do César. “Mas há algo que não está claro, e que precisamos esclarecer rapidamente: ainda temos o direito de trocar sexo por papéis? Porque, se não pudermos mais fazê-lo, teremos que aprender falas e participar de audições, e, sinceramente, não temos tempo para isso.”

Blanche, 41 anos, cresceu num subúrbio de pedra em Paris, filha de esquerdistas endinheirados. Na adolescência, teve depressão e fugiu de casa. Acabou voltando e obtendo um diploma de sociologia. 

Trabalhou com crianças e, como atividade paralela, fazia vídeos de comédia com amigos. Pouco depois dos 30 anos, quando foi hospitalizada após uma separação, um psiquiatra recomendou a ela que escrevesse a respeito da própria vida.

Mais ou menos na mesma época, Blanche começou a assistir os vídeos de Louis C.K. nos palcos. Na época, os comediantes franceses ainda criavam suas apresentações em torno de personagens ou de esquetes caçoando dos outros. O resultado era mais parecido com o teatro ou a sátira do que com o stand-up ao estilo americano. Blanche ficou impressionada com a forma como Louis C.K. simplesmente ficou de pé ao microfone e descreveu sua própria vida, falhas e tudo mais. Posteriormente, ela explicou que foi salva “por Louis C.K. e pelo hospital psiquiátrico”.

Já em 2014, Blanche estava se apresentando sozinha num pequeno teatro numa balsa sobre o Sena. Ela descreveu com naturalidade seus fracassos amorosos e a sensação de estar desesperadamente sozinha. 

Naquela época, quando a entrevistei pela primeira vez, ela se indagou fora do palco se o número não seria melancólico demais para servir como entretenimento. “Demorei muito para conseguir ser engraçada", disse ela a uma revista.

Louis C.K. continuou a ser uma influência de peso. “Sou obcecada por Louis C.K., seu seriado e suas apresentações", disse ela a outro entrevistador. “Assisti oito ou nove vezes tudo que ele fez. É um monstro da sinceridade.”

O púbico dela estava aumentando. Um espetáculo subsequente foi comprado pela Netflix. Os parisienses - que costumam relegar os sentimentos íntimos a um “jardim secreto” - ficaram fascinados com o estilo de Blanche, semelhante a um fluxo de consciência de autocrítica irônica. Os críticos comparara o estilo dela ao de Louis C.K.

Então, surgiu o movimento #MeToo. O presidente Emmanuel Macron revogou o título da Legião da Honra de Weinstein. Legisladores franceses aprovaram leis proibindo o assédio nas ruas. Uma jornalista francesa incentivou as pessoas a divulgarem no Twitter os nomes das pessoas que as tinham assediado sexualmente no trabalho com a hashtag #BalanceTonPorc - denuncie seu porco.

Mas o movimento nunca alcançou as proporções febris observadas nos Estados Unidos.

Blanche defendeu Louis C.K. após sua queda em desgraça. Ela argumentou que é hipocrisia rechaçar Louis C.K. De acordo com Blanche, o humor dele “explora seu lado sombrio, suas perversões, e decifra a escuridão da alma humana".

“As pessoas o adoravam por causa disso", disse ela, “pois ele fazia com que se sentissem melhor em relação ao seu próprio lado sombrio".

No mais recente espetáculo de Blanche, as relações entre os gêneros são um dos temas principais. A mensagem dela: tudo isso é complicado. A violência sexual é inaceitável, mas ela teve de parar de ler os artigos marcados com o #MeToo - geralmente relatos suntuosos de atrizes maravilhosas sendo abusadas - porque “me deixavam excitada demais".

Enquanto a versão americana do #MeToo muitas vezes se assemelha a uma guerra dos sexos, Blanche demonstra compaixão pelos homens. Descreve com os desejos deles podem deixá-los vulneráveis, e como isso pode dar poder às mulheres. Os homens são impelidos ao sexo, diz ela, enquanto “nós precisamos apenas chegar ao ponto em que sentimos no olhar masculino que podemos arruinar a vida dele".

Piadas como essa enfurecem algumas feministas francesas, para quem suas queixas de violência sexual parecem ser deixadas de lado em nome de uma defesa do galanteio e do flerte. Uma delas é Sandra Muller, a jornalista que criou a hashtag #BalanceTonPorc. O movimento está ligado ao abuso de poder: “Nunca foi algo contra o flerte, a sedução ou o sexo", disse ela à revista L’Obs. “A França misturou as duas coisas e se envergonhou perante o mundo."

Um levantamento publicado recentemente revelou que 86% das francesas já foram assediadas nas ruas. Grupos feministas organizaram uma marcha.

Mas Blanche nunca foi tão popular como agora. Este ano, tornou-se a primeira mulher a ser premiada com o Molière na categoria de humor. Em março, seu novo programa será transmitido ao vivo para mais de 150 cinemas em três países. Uma parisiense me disse que começou um grupo de WhatsApp para debater com amigos o trabalho da comediante, pois ela “consegue transmitir a ideia de que as coisas são mais complexas do que os ativistas gostariam que acreditássemos".

Blanche chama a atenção porque parece não pertencer a nenhum grupo. Ela representa aquilo que os franceses chamam com admiração de femme libre - uma mulher livre. Quando ela e Louis C.K. foram fotografados de mãos dadas em Nova York em outubro, alguns no Twitter a acusaram de trair o movimento #MeToo. Mas, na França, acredita-se que todos têm o direito ao amor, até os pecadores. Um redator da revista Marianne citou Victor Hugo: “A liberdade de amar não é menos sagrada que a liberdade de pensamento".

Pamela Druckerman é a autora de “There Are No Grown-Ups: A Midlife Coming-of-Age Story". 

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