Christina Simons para The New York Times
Christina Simons para The New York Times

A mulher que está levando a Austrália ao espaço

'Vemos no espaço a curiosidade que tínhamos quando crianças', diz Megan Clark

Brittany Hope Flamik, The New York Times

30 Dezembro 2018 | 06h00

CAMBERRA, AUSTRÁLIA - A líder da nova agência espacial da Austrália, Megan Clark, reconhece que seu país chega atrasado na festa orbital. O continente, situado num ponto perfeito do hemisfério sul para a observação da galáxia, é um dos últimos países desenvolvidos a ter uma agência espacial, e ela não conseguia entender o motivo disso.

Assim, no ano passado, Megan comandou uma comissão de especialistas que avaliaram as capacidades espaciais da Austrália, e suas descobertas surpreenderam. O tamanho da indústria existente era muito maior do que sugeriam as estimativas anteriores. E nunca antes ela viu os envolvidos se unirem tanto em torno de uma causa: a grande maioria deles ansiava há muito para que uma agência espacial atuasse como portal unificado atraindo o investimento, suporte e orientação na Austrália. “Trata-se de algo que o país deseja", disse Megan.

A Agência Espacial Australiana começou a funcionar oficialmente em julho - e Megan foi nomeada diretora executiva. Agora, ela supervisiona um plano para triplicar o valor da indústria espacial australiana, chegando a algo entre 7 bilhões de dólares e 9 bilhões de dólares por ano até 2030. A agência assinou acordos com órgãos semelhantes na França, Grã-Bretanha e Canadá, e foi citada numa resolução da câmara dos deputados dos Estados Unidos prometendo cooperação ampla.

Quando a agência foi anunciada, o público se mostrou cético diante do humilde orçamento de 30 milhões de dólares para quatro anos. Isso levou a caricaturas de foguetes em forma de bumerangue (em comparação, a NASA, agência espacial americana, teve esse ano um orçamento de aproximadamente 20 bilhões de dólares). Para Megan, o tamanho do orçamento não é um fator terrivelmente importante. Enquanto o orçamento da NASA permite que a agência dite os rumos da indústria espacial americana, o objetivo da ASA é orientar a indústria e uni-la sob uma bandeira nacional para ajudá-la a crescer.

Megan acredita estar bem equipada para guiar a agência nesse período inicial. A carreira dela abrange áreas como a genealogia mineral, o capital de investimento, a indústria bancária e até o marco de ter se tornado a primeira mulher na direção executiva da agência australiana de pesquisas CSIRO. Para si, ela repete sempre o mesmo mantra: “simplesmente faça o que está na sua frente".

Megan cresceu em Perth, a capital mais isolada do mundo, um lugar que ela chama de “último capilar da rede global". Gosta muito de aventura, um traço que ela diz ser da essência australiana, e sempre teve a sensação de que “o mundo está lá fora, e não aqui". Ela escolheu a instituição onde obteria o doutorado em geologia econômica - Queen’s University, em Ontário, Canadá - ao calcular qual seria o ponto oposto a Perth no planeta. Ela diz que agora a próxima geração de australianos deve se valer do seu espírito de aventura para viajar para além do planeta, não se contentando com o outro lado do globo, como ela fez.

Megan recebeu cartas de crianças que a fazem lembrar do poder que o espaço tem de inspirar os jovens. “Vemos no espaço a curiosidade que tínhamos quando crianças", disse ela. “Algumas pessoas acabam perdendo esse instinto, mas outras, não, e vão parar na área espacial.” Talvez demore até que a Austrália pense em mandar um foguete para Marte. Mas ela tem certeza que verá um 

humano no planeta vermelho antes de morrer, e espera que haja um australiano entre eles.

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