Adam Ferguson para The New York Times
Adam Ferguson para The New York Times

A nova batalha por Guadalcanal

Esforço para fazer frente à influência chinesa no Pacífico

Damien Cave, The New York Times

28 Julho 2018 | 10h15

GUADALCANAL, Ilhas Salomão - Quando Toata Molea olha o mar e a sua frota de barcos de pesca na ilha de Guadalcanal fica imaginando as possibilidades de uma nova conexão com o mundo exterior: a instalação de um cabo de internet submarino que será construído pela Austrália.

No entanto, ao olhar para o outro lado, para a avenida principal que atravessa Honiara, a capital das Ilhas Salomão, vê outro tipo de investimento estrangeiro: as dezenas de edifícios e lojas adquiridos ou construídos por imigrantes chineses.

“Eles são os donos de tudo”, disse Molea, 54, referindo-se aos vizinhos chineses. “O meu medo é que nos próximos dez anos, este lugar seja tomado totalmente pelos chineses.”

Da última vez que Guadalcanal esteve envolvida em uma ocupação, 60 mil soldados americanos lutaram contra soldados japoneses pelo controle da ilha em uma das mais ferozes batalhas de Segunda Guerra Mundial. Agora, a ilha é o palco de uma nova guerra fria de competição estratégica.

Depois de anos de investimentos e imigração de chineses sem nenhum controle em todo o Pacífico Sul, a Austrália e os Estados Unidos intensificam os seus esforços em toda a região - advertindo as autoridades locais contra uma dependência excessiva da China, e intensificando a competição com mais ajuda.

Os EUA destinaram mais de 150 milhões de dólares aos países-ilhas do Pacífico, sob a forma de assistência à segurança, ajuda na gestão da pesca e outras formas de assistência. O Banco Mundial mais que dobrou  o seu orçamento para o desenvolvimento, incluindo o da região do Pacífico, elevando-o a 808 milhões de dólares no período de três anos.

Mas a Austrália foi mais longe. A ajuda ao Pacífico saltou para 1,3 bilhão de dólares australianos(960 milhões de dólares) no orçamento deste ano, um aumento de 18%. Cerca de um terço das verbas da Austrália destinadas à ajuda foi reservado atualmente para a região do Pacífico, cerca de vinte países e territórios, com uma população de cerca de 11 milhões de habitantes espalhados por mais de 20 mil ilhas.

Uma grande fatia deste dinheiro irá para a instalação do cabo submarino que ligará Guadalcanal (e Papua Nova Guiné) ao centro global da internet da Austrália. Os especialistas veem os enormes gastos  da Austrália como o maior exemplo, até agora, da intensificação dos esforços do país para fazer frente às iniciativas chinesas na região.

A companhia de networking chinesa, Huawei, anunciou no ano passado que planeja instalar um cabo e dotar as Ilhas Salomão de uma conexão da internet de banda larga.

Quando a Austrália teve conhecimento deste projeto, ameaçou retirar uma licença de conexão, caso o cabo chegasse a Sydney, por considerar a Huawei uma ameaça cibernética à segurança.

As autoridades australianas ofereceram uma alternativa: a Austrália patrocinaria um cabo que passaria a funcionar em 2019.

“O governo australiano acompanhou este processo muito de perto,” disse James Batley, um ex-alto comissário australiano para as Ilhas Salomão.

Anthony Veke, 41, o premiê de Guadalcanal, é um dos que exercem forte pressão para futuras operações com vários parceiros. Ele contou que, no ano passado, foi duas vezes à China para conseguir investimentos destinados ao desenvolvimento do turismo na ilha, que incluiria um novo aeroporto. E acrescentou que gostaria de construir uma importante estrada.

“Não podemos ficar enclausurados“, disse Veke, entrevistado em seu escritório na rua principal que atravessa Honiara, construída em grande parte graças à Segunda Guerra Mundial  e à Marinha dos 

Estados Unidos, e onde ainda predominam a poeira e os buracos. “Precisamos ter a oportunidade de olhar para outros lugares procurando tudo o que for bom para o nosso povo”.

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