(Nadia Shira Cohen/The New York Times)
(Nadia Shira Cohen/The New York Times)

A obra mais surpreendente da Bienal de arquitetura de Veneza é a do Vaticano

Por séculos, Vaticano foi um dos maiores patrocinadores mundiais de obras de arquitetura

Elisabetta Povoledo, The New York Times

01 Junho 2018 | 15h30

VENEZA - Há seis países participando pela primeira vez da Bienal de Arquitetura de Veneza, que permanece na cidade até novembro, mas o estreante mais surpreendente é sem dúvida o Vaticano. Por séculos, a Santa Sé, uma das maiores patrocinadoras mundiais de obras de arquitetura públicas, não participou desta exposição global de arquitetura.

Entretanto, dada a tradição da igreja, não deve causar surpresa o fato de o pavilhão do Vaticano representar uma espécie de peregrinação: a instalação de 10 capelas criadas por uma dúzia de arquitetos num jardim de folhagem densa, abrigado numa ilha na lagoa veneziana.

Essa peregrinação foi um pouco difícil numa recente manhã de maio, enquanto as escavadeiras nivelavam trilhas de terra transformadas em lama por dias de chuva, e o som de marretas e motosserras abafava o barulho dos pássaros e da água que chegava em ondas pequenas à praia da Ilha de San Giorgio Maggiore. 

Desviando distraidamente de poças e buracos, Francesco Dal Co, curador do pavilhão, fez uma apresentação do local: 10 capelas projetadas por um rol de arquitetos internacionais que Dal Co disse ter escolhido porque “tinham concepções estruturais diferentes e trabalhavam com materiais diversificados". Entre eles estão dois ganhadores do Prêmio Pritzker, Norman Foster e Eduardo Souto de Mouro.

Normalmente, os pavilhões nacionais da Bienal tendem a mostrar ilustrações, maquetes e rascunhos documentando a criação de edifícios. “Capelas do Vaticano", como é chamado o pavilhão, apresenta as próprias construções finalizadas.

Os arquitetos foram instruídos a observar um edifício concebido há quase cem anos, a “Capela Woodland”, projetada pelo arquiteto sueco Gunnar Asplund, como inspiração. Numa apresentação do projeto, Dal Co disse ter escolhido a capela como espécie de exemplo espiritual para os arquitetos, descrevendo-a como “pequena obra-prima".

A primeira estrutura encontrada pelos visitantes no jardim é a cabana de estilo nórdico projetada por Francesco Magnani e Traudy Pelzel, com desenhos e uma maquete em escala da capela de Asplund.

A capela do arquiteto paraguaio Javier Corvalán Espínola inspira surpresa, no sentido físico: os visitantes se veem sob um imenso anel de aço erguido num tripé.

Uma das poucas capelas com teto é a “Cross Chapel”, de Terunobu Fujimori. Os visitantes entram por uma passagem estreita numa capela de aparência tradicional cuja abside é marcada por pedaços de carvão emoldurando uma cruz de madeira. No catálogo, Fujimori escreveu que sua ideia era levar as pessoas a “vivenciarem a sensação de ascensão do Filho de Deus ao verem a cruz".

Em certos casos, Dal Co optou pelo contraste entre os materiais de construção: a capela de Francesco Cellini, uma intersecção cuidadosamente estudada de placas de cerâmica lisas pretas e brancas, por exemplo, foi colocada em justaposição a “Morning Chapel”,dos arquitetos Ricardo Flores e Eva Prats, de Barcelona, feita com cocciopesto veneziano, material feito de azulejos esmagados.

Para convencer o cardeal Gianfranco Ravasi - que é o ministro da cultura de facto do Vaticano - que o Vaticano deveria expor obras concluídas em vez de maquetes e rascunhos, Dal Co disse ao cardeal que as exposições de arquitetura costumam “representar a união carnal entre um pai e uma mãe, mas não a criação que nasce dela". Era chegada a época de dar vida a esses rascunhos estáticos, argumentou ele.

Já existe um considerável debate em torno do que vai acontecer com as capelas após o fim da exposição, em novembro.

Durante quase 70 anos, a ilha abrigou a Fundação Giorgio Cini, dedicada a projetos de estudiosos. E o jardim que abriga o pavilhão do Vaticano, administrado pela fundação, não fica aberto ao público normalmente.

Renata Codello, diretora da fundação, disse que ficaria feliz se as capelas continuassem ali. 

“Um grandioso parque de esculturas e arquitetura religiosa nos daria muitos motivos para reflexão", disse ela.

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