Kayana Szymczak/The New York Times
Kayana Szymczak/The New York Times

A onda de mulheres negras no mercado de cuidados com o cabelo

Uma nova safra de negócios está reivindicando uma fatia crescente de uma indústria de bilhões de dólares

Tiffany Martinbrough, The New York Times - Life/Style

16 de janeiro de 2022 | 05h00

Por mais de uma década, Whitney White, também conhecida como @naptural85, postou tutoriais sobre cabelo no YouTube para mulheres negras com cabelo crespo, como o dela. Com um cabelo definido por ela como natural, White, de 35 anos, domina a arte do lavar e sair de casa (o visual dos "naturalistas", com cachos clássicos), do abacaxi (a maneira de prender o cabelo na parte de cima para não estragar o penteado na hora de dormir) e o "twist-out" (o penteado no qual se torce o cabelo, seca-o e depois o solta). Ela também ensinou aos seguidores como criar xampus nutritivos, condicionadores que penetram mais fundo e máscaras capilares que deixam o cabelo saudável e promovem um crescimento ideal.

No fim das contas, muitos de seus mais de dois milhões de seguidores a incentivaram a produzir sua própria linha de produtos para o cabelo. E agora, como cofundadora da Melanin Haircare, ela é mais uma pessoa negra que tem uma empresa que vende produtos que atendem às necessidades do cabelo dos negros. "Sou uma mulher negra, e sei o que queremos. É o nosso momento FUBU (sigla em inglês para: Por nós, para nós)."

A indústria global de produtos para os cabelos, estimada em US$ 77,15 bilhões, deve atingir o valor de US$ 112,97 bilhões até 2028, de acordo com a Fortune Business Insights. O número de empresas que produzem esses produtos e são de propriedade de pessoas negras está crescendo, aumentando a participação de mercado para US$ 2,5 bilhões em 2021, gerando uma onda de entusiastas com uma boa visão de negócios.

Reconhecendo o tamanho considerável da indústria, Monique Rodriguez pensou que com sua engenhosidade poderia ter sucesso em uma indústria dominada por pessoas que não se pareciam com ela. "Pensei: 'Essa indústria de beleza vale mais de US$ 1 bilhão'. Tenho que conseguir participar disso, pegar um pequeno pedaço do bolo e atender as mulheres que se parecem comigo. Percebi que faltava compreensão e educação, e falei: 'Se eu puder atender ao menos as pessoas desatendidas, então vencerei nessa categoria", comentou Rodriguez, de 37 anos, cofundadora e presidente-executiva da Mielle Organics.

Rodriguez fundou a Mielle Organics em 2014 enquanto trabalhava em tempo integral como enfermeira. Ela também transformou sua paixão por desenvolver produtos caseiros para o cabelo e falar sobre eles nas redes sociais em um negócio.

"É inspirador, especialmente para as mulheres negras, ver alguém igual a elas indo atrás de seus sonhos - uma mulher que não tinha nenhum tipo de status de celebridade, que nasceu praticamente do nada e que tinha uma carreira estável, como a maioria das americanas", continuou Rodriguez.

Assim como White, Rodriguez sabia que se conectar com mulheres que buscavam informação sobre como estilizar e manter o cabelo com uma certa textura era algo importante e autêntico e, consequentemente, a chave para a construção de uma marca.

"O cabelo natural não é fácil. Cada padrão de cacho é diferente. Uns têm baixa porosidade e outros alta. Quais produtos devemos usar para cada tipo de cabelo? Não havia ninguém falando sobre isso. Percebi que estava nessa jornada do cabelo natural e queria aprender. Queria saber usar os produtos, porque todos os produtos que usava deixavam meu cabelo com frizz. Mas não havia ninguém para me ajudar a entender o que eu estava fazendo de errado", explicou.

Rodriguez, que agora mantém um cabelo saudável que vai até a cintura, reconheceu que não apenas poderia fazer ótimos produtos com ingredientes de alta qualidade, mas também poderia ajudar a educar suas clientes sobre como usá-los e assim obter os melhores resultados.

Cabelo natural exige muito cuidado

Muitas mulheres negras têm o cabelo crespo tipo 4, que se refere a um sistema numérico criado para avaliar a textura dos fios. Esses cachos compactos fazem com que o sebo do couro cabeludo, cuja função é lubrificar o cabelo, tenha dificuldade para descer até a ponta, assim, os óleos naturais não conseguem revestir e, em última análise, hidratar os fios. Isso causa um ressecamento excessivo, tornando necessário a aplicação de produtos extras como um condicionador para lavagem ou um condicionador convencional, manteigas, óleos e cremes. Várias marcas de propriedade de pessoas negras fazem produtos que atendem tais especificidades.

O óleo, especificamente o óleo de mamona do Haiti, é o carro-chefe da Kreyol Essence. Ele rendeu à empresa um acordo de investimento no Shark Tank e permitiu a criação de empregos para produtores de mamona no Haiti. Os moradores locais usam as sementes para muitas finalidades há gerações: para hidratar o cabelo e o corpo, como um bálsamo cicatrizante para ferimentos e para a saúde digestiva. A semente de mamona é cultivada em várias partes do Caribe, mas no Haiti é tradicionalmente torrada à mão, moída e cozida, produzindo um óleo não refinado.

"Isso está muito ligado à nossa cultura e faz parte da vida cotidiana no Haiti", disse Yve-Car Momperousse, de 39 anos, haitiana-americana cofundadora da Kreyol Essence, que leva o nome da língua dominante do Haiti.

Depois de embarcar em sua própria jornada do cabelo natural e, em seguida, ver seu cabelo virgem ser danificado por um esteticista, Momperousse optou por uma pomada haitiana bem conhecida, a semente de lwil maskriti, rica em nutrientes e ácidos graxos. Ela então percebeu que poderia montar um negócio com esses ingredientes, o que também estimularia a comunidade rural do Haiti e a colocaria em contato com os agricultores locais - muitos dos quais são mulheres - que já cultivavam mamona. "Isso é algo que eles fizeram, e se sentem respeitados ao vê-lo embalado de maneira tão linda. E também melhor a autoestima. Eles perguntam: 'Quem está comprando? Eles ficam tão orgulhosos com o produto final quanto nós?'"

Depois que a Kreyol Essence expandiu suas operações em nível nacional, Momperousse fez história na primeira metade do ano como a primeira marca de beleza haitiana no canal de televisão QVC. "Por muito tempo, o Haiti teve de lutar contra o estigma de ser o país mais pobre do Ocidente. Então, lidar com a discriminação, conseguir mostrar um lado diferente do país, apresentar algo bonito e que as pessoas querem é um grande negócio para nós."

Uma chance de 'recuperar nosso poder'

Dar um exemplo de forte empreendedorismo feminino foi igualmente importante para Chris-Tia Donaldson, fundadora e executiva-chefe da tgin: Thank God It's Natural.

"Você está inspirando a próxima geração de mulheres negras a se sustentar fora do mundo corporativo americano. Todo esse talento, por muito tempo, ia para o lixo porque éramos preteridas quando havia alguma promoção. Não éramos consideradas para os cargos de liderança, de alta gestão e de chefia. Esse movimento realmente nos deu a oportunidade de retomar nosso poder", disse Donaldson em uma entrevista antes de morrer de câncer de mama em novembro.

Donaldson, advogada formada em Harvard, desenvolveu sua marca depois de escrever seu primeiro livro, Thank God I'm Natural. Há quase 20 anos, depois de parar de alisar o cabelo e aprender a abraçar suas curvas e cachos, ela teve uma luz. "Pensei: 'Graças a Deus sou natural'. Graças a Deus posso nadar, caminhar na chuva em vez de ficar sentada no cabeleireiro. Posso fazer tudo isso."

A política do cabelo negro

Hoje, o cabelo negro natural é uma declaração de orgulho, um repúdio a um padrão de beleza imposto e uma afirmação da identidade negra. Isso se acentuou com a aprovação da Crown Act em 2019 nos Estados Unidos, lei que proibiu a discriminação com base no penteado e na textura do cabelo e que já foi adotada por 14 estados. Com ela, as mulheres negras têm o direito cultural e legal de usar o cabelo da forma que desejarem.

Por muito tempo, muitas pessoas de comunidades afro-americanas acreditaram que as principais empresas de produtos para o cabelo não ofereciam um atendimento ao cliente de alta qualidade e sabiam que não perderiam seus clientes negros. Como resultado, as empresas de propriedade de pessoas negras foram postas em um patamar mais elevado por seus consumidores, que esperam um certo nível de autenticidade e de eficácia.

Para White: "Estamos muito acostumadas com empresas que não se importam conosco de verdade. Elas acham que aceitaremos qualquer coisa e sabem que gastaremos muito dinheiro cuidando de nossa beleza. Com a Melanin Haircare, queríamos dar à comunidade uma marca de qualidade que não tivesse de apelar, que soubesse o tipo de produto que a comunidade quer e que o oferecesse a um preço acessível."

Como muitas empresas de produtos para o cabelo de propriedade de negros começaram com a intenção de ajudar as mulheres negras, a filantropia costuma fazer parte da missão. Depois do terremoto devastador no Haiti, a Kreyol Essence doou dinheiro para dois hospitais na área afetada e fez uma transmissão no canal de televisão QVC para chamar a atenção dos telespectadores para o problema.

A iniciativa More Than a Strand da Mielle ajuda mulheres empreendedoras com financiamento e recursos para dar o primeiro passo em seus negócios. Por meio do Programa de Certificação Global, que é parte da parceria com a Universidade Rutgers e o Newark Business Hub, a empresa disponibilizou recentemente 60 bolsas para mulheres que querem empreender.

Os embaixadores globais da Mielle, a atriz Keshia Knight Pulliam e a rapper Megan Thee Stallion, colaboram com sua agenda de educação empresarial. Esse compromisso com a filantropia ajudou a convencer a Berkshire Partners a investir na empresa.

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