Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

A persistente radiação de Chernobyl é uma ameaça à saúde

Dezenas de anos após o desastre nuclear, vacas comem vegetação contaminada

Richard Pérez Peña, The New York Times

16 de junho de 2018 | 10h30

LONDRES - Mais de 30 anos depois do desastre nuclear de Chernobyl na Ucrânia, longe do local do acidente, as vacas ainda produzem leite com perigosos níveis de radiação, as crianças ainda se alimentam dele, e o problema poderá persistir por outras dezenas de anos, afirmam os pesquisadores.

Em aldeias distantes até 225 quilômetros da usina nuclear de Chernobyl, os níveis de radioatividade no leite são cinco vezes superiores ao limite oficial estabelecido pelo governo ucraniano para adultos, e mais de 12 vezes o limite para as crianças, segundo cientistas da Greenpeace Research  Laboratories da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha, e do Instituto Ucraniano de Radiologia Agrícola.

Sem uma intervenção em grande escala, a radiação continuará acima do nível determinado para adultos até pelo menos 2040, e acima do limiar para crianças por mais tempo ainda, eles previram. Suas conclusões foram publicadas na revista “Environmental International”.

Os pesquisadores examinaram amostras de 14 aldeias na região de Rivne, no noroeste da Ucrânia.

“Estas pessoas sabem que o leite não é apropriado, mas dizem: não temos outra escolha, precisamos alimentar as nossas famílias”, contou Iryna Labunska, pesquisadora da Universidade de Exeter e principal autora do estudo. “Trata-se de comunidades rurais e as pessoas são pobres”. Consequentemente, prosseguiu, “as crianças continuam tomando leite contaminado; é de partir o coração”.

Uma explosão de vapor e um incêndio na usina, no norte de Kiev, em 1986, jogou uma nuvem contaminada na atmosfera, no maior desastre nuclear da história. Depois do acidente, a precipitação radioativa foi detectada no mundo inteiro, mas a situação pior foi registrada na Ucrânia e na Bielo Rússia. As pessoas  ainda são proibidas de morar em uma “zona de exclusão” de 2,6 mil quilômetros quadrados, mas algumas continuam no lugar.

Ao longo dos anos, outros cientistas descobriram radiação no leite procedente do norte da Ucrânia, mas o novo estudo mostra que ela persiste em níveis consideráveis, e mesmo muito longe da área mais afetada de Chernobyl.

Grande parte do material radioativo liberado pela usina se desagregou e já não representa uma ameaça. O principal perigo agora vem de um isótopo, o césio-137, que persiste por mais tempo, e permanece no solo e na vegetação consumida pelas vacas.

A exposição a esta substância pode causar uma série de problemas para a saúde, como alguns tipos de câncer, catarata e doenças do aparelho digestivo. Segundo os pesquisadores, o perigo pode ser amenizado pela adição de uma substância química, o hexacianoferrato, à ração animal. O composto é usado para tratar o envenenamento por metais pesados, como o césio, porque adere a eles e permite que eles transitem pelo trato digestivo sem serem absorvidos.

O problema é o custo. Iryna Labunska disse que a redução da radiação a níveis aceitáveis nas aldeias estudadas, onde vivem apenas 800 pessoas, custaria cerca de US$ 80 mil ao ano.

 

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