Ilustrações por R. Kikuo Johnson
Ilustrações por R. Kikuo Johnson

Mercado de répteis de estimação ameaça sobrevivência de espécies

A venda ilegal desses animais pode estar esgotando espécies desconhecidas

Rachel Nuwer, The New York Times

20 Abril 2018 | 15h15

JACARTA - A crescente popularidade de répteis exóticos e anfíbios como bichos de estimação fez surgir um enorme comércio ilegal, afirmam conservacionistas.

Afirma-se que muitos répteis são fruto de reprodução em cativeiro, e as vendas desses animais são legalizadas. Na verdade, muitos foram capturados ilegalmente na natureza.

“A escala é gigantesca, muito maior do que as pessoas se dão conta”, afirmou Vincent Nijman, antropólogo da Universidade Oxford Brookes, na Inglaterra. 

De 2004 a 2014, a União Europeia importou aproximadamente 21 milhões desses animais; estima-se que 4,7 milhões de lares nos Estados Unidos tenham abrigado ao menos um réptil em 2016.

“Esse mercado provavelmente terá um impacto imenso em ecossistemas e populações de bichos menos conhecidos”, disse.

Tartarugas-estreladas-indianas da Jordânia, rãs-de-olhos-vermelhos da Nicarágua e lagartos-monitores de Gana ou Togo são exportados como se tivessem sido criados em cativeiro, mas provavelmente não foram.

“Esses são descaradamente os casos mais questionáveis, sobre os quais consideramos que algo deve ser feito urgentemente”, afirmou Mathias Loertscher, da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites, na sigla em inglês).

O mercado de bichos de estimação é uma importante fonte de renda para muitos países em desenvolvimento, onde todos os anos os governos determinam cotas para comércio de milhões de pássaros criados em cativeiro, assim como de anfíbios, pequenos mamíferos, insetos e corais. Muitos deles são de espécies ameaçadas e seu comércio é regulado pelo tratado da Cites, que proíbe o comércio desses animais através das fronteiras se os bichos não tiverem sido criados em cativeiro.

Muitos países exportam répteis qualificados como criados em cativeiro que provavelmente foram capturados na natureza, mas a Indonésia se destaca. Pelo menos 80% das mais de 5 mil pítons-verdes que são exportadas anualmente como se tivessem sido criadas em cativeiro foram capturadas ilegalmente na natureza, esgotando algumas populações deste animal nas ilhas, de acordo com estudo da publicação científica Biological Conservation.

De 2006 em diante, Mark Auliya, biólogo de conservação do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, em Bonn, na Alemanha, pesquisou 11 instalações registradas para reprodução de répteis na Indonésia e descobriu que somente uma delas poderia ser usada para algo que não fosse “esquentar” animais selvagens.

“Na maioria dessas instalações não havia qualquer sinal de que ocorresse reprodução em cativeiro”, afirmou. “E no único local em que atividades de reprodução ocorriam, isso somente se aplicava a uma das três espécies encontradas por lá”.

De acordo com a Cites, a Indonésia está envolvida em cinco casos, mais do que qualquer outro país. Funcionários do governo daqui têm agora de provar que certos animais que serão vendidos no exterior, incluindo cobras-rato e lagartos-de-Timor, são realmente criados em cativeiro. A Cites pode barrar o comércio internacional dessas espécies.

Somente em 2016, as autoridades indonésias autorizaram a exportação de mais de 4 milhões de animais criados em cativeiro. Muitos foram quase que certamente retirados da natureza, de acordo com especialistas.

Capturar animais da natureza é mais barato e mais fácil do que montar uma operação de reprodução em cativeiro. Isso é especialmente verdadeiro em relação a animais que geram lucro baixo, como as lagartixas-tokay, que são comercializadas em volumes tão altos que não faria sentido econômico investir na sua reprodução em cativeiro.     

Lagartixas capturadas na natureza podem ser facilmente vendidas por alguns centavos. Mas para criar em cativeiro um milhão de lagartixas, calculou Nijman, um comerciante precisaria de 140 mil fêmeas, 14 mil machos, 30 mil recipientes de incubação, 112 mil gaiolas de criação e centenas de empregados.

Algumas espécies vendidas como crias de cativeiro são sabidamente difíceis de ser induzidas a se reproduzir. Por exemplo, grandes zoológicos de todo o mundo passaram décadas para conseguir criar 50 equidnas – mamíferos estranhos, que põem ovos e se parecem com porcos-espinhos.

Ainda assim, em 2016, o governo indonésio permitiu que a empresa PT Alam Nusantara, de Jacarta, exportasse 45 equidnas “criadas em cativeiro”. 

Geralmente, os indonésios capturam animais em florestas e campos e os vendem para intermediários que os entregam às fazendas de répteis legalizadas. Os donos das fazendas obtêm a documentação do governo para certificar que os animais foram criados em cativeiro.

Adri Tasma, dono de uma fazenda de répteis próxima a Jacarta, afirmou que os comerciantes confiam nas autoridades indonésias e na Cites para estabelecer cotas sustentáveis e responsáveis.

Tasma é especializado em pítons-verdes e, em 2016, foi autorizado a exportar até 2 mil delas. Mas as autoridades também lhe garantiram permissão para comercializar outras 56 espécies, incluindo as criticamente ameaçadas tartarugas-da-floresta, de Sulawesi, e os raros lagartos-monitores tricolores.

Tasma afirmou que não sabe por que o governo lhe concedeu permissão para exportar esses animais e negou que os negocie. Ele acrescentou que não tem licença para criá-los nem mantê-los em cativeiro.

Prama Wirasena, chefe do departamento de reprodução em cativeiro do ministério indonésio de Meio Ambiente e Exploração Florestal, afirmou que a lista da cota indonésia é estritamente controlada e tem como base dados científicos. Ele disse que, todos os meses, funcionários florestais regionais visitam fazendas para contar os adultos em fase de reprodução, e esses registros são usados para estabelecer as cotas de exportação e garantir que os números cresçam.

“Temos certeza de que existem os irregulares, mas eles são menos de 10% do total”, afirmou Wirasena. Um recente estudo na área da biologia da conservação, porém, sugere que esse número é consideravelmente maior. Os autores constataram que as cotas indonésias para 99 de 129 espécies foram calculadas com base em parâmetros biologicamente impossíveis.

“Sei que algumas vezes os comerciantes subornam minha equipe”, afirmou Wiranto, diretor-geral de conservação de recursos naturais e ecossistemas (como muitos indonésios, ele usa somente o primeiro nome). Wiranto disse que tem esperança de implementar reformas, entre elas, um sistema de monitoramento mais robusto, que inclua fiscalizações-surpresa em fazendas, medidas de prevenção à corrupção e investigações em colaboração com importadores como os Estados Unidos.

“Estamos no processo de aprender com os erros do passado, para que, no futuro, não cometamos as mesmas falhas”, disse.

Nem todo mundo concorda que a captura descontrolada de répteis selvagens seja um problema. Em certas instâncias, afirmam alguns comerciantes, colecionadores de animais selvagens podem beneficiar as espécies.

Os dragões-barbudos, por exemplo, são um dos lagartos mais comumente vendidos nos Estados Unidos, onde passarem a ser criados em cativeiro. Todos eles descendem provavelmente de espécimes contrabandeados da Austrália, cuja reprodução pode ter evitado a retirada de animais da natureza.

Alguns cientistas também argumentam que, em muitas espécies, o impacto do comércio de animais de estimação é insignificante.

“No caso da Indonésia, há um monte de cobras e répteis por lá e, para a maioria das espécies, o tema das irregularidades nas fazendas de criação em cativeiro que ‘esquentam’ os animais não tem resultado em impactos negativos sobre as populações”, afirmou Daniel Natusch, herpetologista da Universidade de Sydney.

Um estudo que ele conduziu constatou que os números e o tamanho das pítons permaneceram consistentes durante um período de 20 anos, apesar de elas serem capturadas e vendidas.

E impedir o tráfico ilegal de animais retirados da natureza, dizem outros, não pode ser responsabilidade somente dos países em desenvolvimento.

Sandra Altherr, uma das fundadoras do Pro Wildlife, um grupo conservacionista de Munique, afirmou: “Não podemos acusar somente a Ásia e a África se somos um dos maiores destinos desse comércio”.

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