Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

A preservação está virando a vida de cabeça para baixo em Pequim

Campanha de renovação nos bairros históricos da cidade divide opiniões

Steven Lee Myers, The New York Times

12 Dezembro 2018 | 06h00

PEQUIM - A mais recente campanha de preservação urbana de Pequim chegou quebrando tudo neste verão pelo meio das lojas da Yonghegong, uma rua arborizada entre dois marcos da cidade: os templos de Confúcio e Lama. Trabalhadores empunhando pés-de-cabra, britadeiras e mandados derrubaram telhados e colunas de madeira decoradas com lanternas vermelhas e bandeirolas tibetanas. Depois, ergueram e pintaram paredes de tijolos onde antes haviam portas e janelas.

Yuan Hong, que uma década atrás abriu um salão de cabeleireiro em uma das ruelas conhecidas como hutongs, perto da Yonghegong, chegou para trabalhar certa manhã e se deparou com trabalhadores demolindo sua vitrine de vidro. “Você pode pelo menos esperar eu lavar o rosto?”, disse ela, que implorou a eles. “Vocês podem ir um pouco mais devagar?”


Mesmo enquanto ela seguia cortando, lavando, tingindo e secando o cabelo dos clientes, os trabalhadores continuavam empilhando tijolos onde antes era a entrada, até que ela ficou presa dentro do salão. No final do dia, a única abertura era uma janela nova. Quando o primeiro andaime desceu em Yonghegong, em outubro, os edifícios haviam voltado a ser algo mais próximo de seu projeto original, datado do final do século 19. O custo, no entanto, foi o fechamento de pelo menos uma dúzia de lojas que até então vendiam incenso, joias, pinturas e esculturas para visitantes que lotavam a rua.

Durante décadas, as autoridades de Pequim pareciam decididas a demolir os bairros históricos da cidade, apagando as hutongs. Agora, segundo dizem, estão tentando restaurar o que sobrou. O objetivo é “polir cuidadosamente cada um dos quarteirões históricos e culturais”, como disse o prefeito de Pequim, Chen Jining, na primavera passada.

Os preservacionistas, no entanto, encararam o trabalho com ambivalência. Muitos aplaudiram as melhorias nos antigos bairros, observando que as autoridades também reformaram os banheiros públicos. Outros dizem que grande parte do novo trabalho não passa de cosmética. Em muitos lugares, em vez de usar tijolos, os trabalhadores estão afixando ladrilhos finos nas paredes externas. 

Isso pode recriar as aparências históricas dos lares e templos das hutongs, mas não faz nada para restaurá-los. O trabalho de restauração na área da Yonghegong faz parte de uma campanha de “reconstrução” que já está em seu segundo ano. Hu Xinyu, curador do Centro de Proteção ao Patrimônio Cultural de Pequim, disse que a cidade estava trazendo ordem aos bairros onde as forças econômicas e a falta de zoneamento resultaram em condições caóticas e perigosas.

“A campanha está ajudando a traçar uma linha clara”, disse ele. “Caso contrário, Pequim se tornará uma megacidade com cada vez mais problemas”. Para lojistas, clientes e moradores, o impacto tem desvendado o próprio tecido da cidade. “Como as pessoas podem viver assim?”, perguntou Yuan.

Rosie Levine, pesquisadora acadêmica que trabalhou com o Centro de Proteção do Patrimônio Cultural de 

Pequim, disse que o objetivo era a derrubada dos pequenos negócios. “Historicamente”, ela disse, “a sociedade chinesa sempre viu a comercialização como uma força poluidora”.

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