Nicole Craine - The New York Times
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À procura da melhor dieta para a saúde humana

Um estudo mostra que embora não exista 'a dieta ideal', desistir de hábitos primitivos de alimentação pode ser um passo para doenças

Anahad O'Connor, The New York Times

16 de janeiro de 2019 | 06h00

Os nutricionistas debatem há muito tempo se o homem chegou a criar uma dieta ótima ao longo de sua evolução. Mas um estudo recente acrescenta uma reviravolta ao debate. Pesquisas mostraram que provavelmente não existe uma dieta natural única mais adequada para o ser humano.

Publicado na revista Obesity Reviews, o estudo avaliou as dietas, os hábitos e os níveis de atividade física de centenas de modernos grupos de caçadores-coletores, e de sociedades em pequena escala, cujos estilos de vida são semelhantes aos de antigas populações. E concluíram que todos eles apresentam, em geral, excelente saúde metabólica, embora costumem consumir diferentes dietas.

Alguns extraem 80% de suas calorias dos carboidratos. Outros comem principalmente carne. Mas foram encontradas amplas variedades: quase todos eles comem carne, peixe e vegetais e consomem alimentos em geral repletos de nutrientes.

De modo geral, eles comem muitas fibras. A maioria de seus carboidratos vem de legumes e plantas ricas em amido com baixo índice glicêmico, o que significa que não produzem rápidos picos de açúcar no sangue. Mas também é comum comerem açúcar, fundamentalmente sob a forma de mel.

As conclusões sugerem que não existe uma única "verdadeira" dieta para o ser humano, que "pode ser muito saudável com uma ampla variedade de dietas", disse o autor principal do estudo, Herman Pontzer, professor da Duke University da Carolina do Norte. "Sabemos disso porque vemos uma série de dietas entre essas populações muito saudáveis".

As populações de caçadores-coletores têm em comum um intenso grau de atividade física. Muitos andam até seis quilômetros por dia. Entretanto, paradoxalmente, não apresentam níveis de gastos de energia maiores do que uma pessoa que trabalha em um escritório, o que sugere, segundo os autores, que as autoridades de saúde deveriam recomendar fundamentalmente exercícios como uma maneira de melhorar a saúde metabólica, mas não necessariamente como um antídoto que os ajude a queimar calorias e combater a obesidade.

Os modernos caçadores-coletores podem se destacar mais por sua relativa falta de doenças crônicas, como doenças cardíacas, hipertensão e câncer. As taxas de obesidade são baixas. Eles têm altos níveis de capacidade cardiorrespiratória, mesmo na velhice. E o diabetes Tipo 2 e disfunções metabólicas são vistos raramente.

No entanto, a vida não é fácil nas sociedades de caçadores-coletores, nas quais as taxas de mortalidade infantil são elevadas por causa das doenças infecciosas. As mortes por acidentes, moléstias gastrointestinais e infecções agudas também são comuns. Mas os que sobrevivem até a idade adulta muitas vezes chegam à velhice relativamente sem doenças degenerativas, comuns nas nações industrializadas. Eles permanecem tipicamente em boa forma e ativos até o fim, o que sugere que algo em seu modo de vida permite que envelheçam de maneira saudável.

É possível que a genética e outros fatores não relacionados ao estilo de vida os protejam de doenças crônicas. Mas os estudos mostram que quando as pessoas nascidas nas sociedades de caçadores-coletores mudam para grandes cidades e adotam estilos de vida ocidentais, desenvolvem elevados graus de obesidade e doenças metabólicas como todas as outras pessoas.

O antropólogo da Universidade da Califórnia Michael Gurven realizou uma ampla pesquisa entre os tsimane, uma população boliviana que leva uma vida de subsistência, caçando, coletando, pescando e cultivando a terra. Ele publicou estudos detalhados que mostram que os tsimane têm excelente saúde cardiovascular e quase não têm diabetes. 

Entretanto, o especialista também observou vários casos de pessoas que tiveram diabetes tipo 2 e morreram em consequência da doença depois que elas deixaram suas aldeias e se mudaram para a cidade vizinha de San Borja, onde passaram a levar uma vida sedentária, trabalhando em escritórios e abandonando sua dieta tradicional.

"Elas modificaram sua dieta tradicional e passaram a comer na cidade, onde toda comida é frita", disse. "Começaram a comer frango frito, arroz e a tomar refrigerante. Algumas dessas pessoas notaram uma mudança bastante rápida de sua saúde".

Para seu estudo, Pontzer e seus colegas incluíram novos dados levantados com os hadza, uma comunidade cujos membros passam o dia caçando e procurando alimentos no norte da Tanzânia, como seus ancestrais fizeram por dezenas de milhares de anos. Eles se alimentam de um modo que alguns chamam de "a dieta mais antiga".

Os hadza consomem um número relativamente reduzido de alimentos. A falta de novidade e de variedade nas dietas dos caçadores-coletores pode ser em parte o motivo pelo qual eles não comem excessivamente e nem se tornam obesos. Os estudos mostram que quanto maior a variedade das opções de alimentos que estão em nossa frente, mais tempo levamos para nos sentirmos satisfeitos, fenômeno conhecido como saciedade específica sensorial.

"É a razão pela qual as pessoas sempre têm espaço para sobremesa em um restaurante, mesmo quando já se saciaram", explicou Pontzer. "Mesmo que você tenha feito uma refeição saborosa e não consiga comer mais carne, ainda está interessado no cheesecake porque é doce".

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