Sally Deng/The New York Times
Sally Deng/The New York Times

A rocha que acabou com os dinossauros foi muito mais do que uma assassina

Buscando a história da origem do impactador Chicxulub, os cientistas também esperam desvendar segredos sobre a origem da própria vida

Becky Ferreira, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 05h00

A primeira arte rupestre. O começo da agricultura. Embora esses sejam alguns dos momentos mais cruciais do início da humanidade, nossa história de origem mais dramática começa há 66 milhões de anos. Foi o momento apocalíptico em que uma rocha do espaço sideral se chocou com a Terra, encerrando a era dos dinossauros e, por fim, oferecendo um farto novo mundo aos nossos ancestrais mamíferos.

Por 40 anos, os cientistas estudaram a história desse objeto catastrófico, conhecido agora como o asteroidde Chicxulub. Hoje, o impacto representa mais do que apenas um dia ruim na Terra; tornou-se uma espécie de Pedra de Roseta que pode decifrar enigmas mais profundos sobre as origens da vida e o futuro da civilização humana, tanto em nosso planeta quanto em outros mundos da galáxia.

“O evento do impacto de Chicxulub modificou completamente a evolução geológica e biológica do planeta Terra”, disse David Kring, geólogo planetário que lidera o Centro para Ciência e Exploração Lunar em Houston e fez parte da equipe que anunciou a descoberta da cratera do impacto de Chicxulub abaixo da Península de Yucatán, no México, em 1991. “Essa é uma grande história científica com apelo popular porque extinguiu os dinossauros e limpou a área, se você quiser, para a evolução dos mamíferos que levou aos humanos, ela vai cativar tanto a comunidade científica quanto o público nos próximos anos.”

Por décadas, os cientistas discutiram sobre a causa da morte dos dinossauros. Erupções vulcânicas e outras hipóteses exóticas foram propostas, mas o consenso científico definiu que uma rocha vinda do espaço foi a assassina. A teoria de Chicxulub agora reina tão suprema que os cientistas montaram cronogramas detalhados sobre o que ocorreu naquele dia fatídico, e outros pesquisadores estão escrevendo o que poderia ser chamado de prequela, buscando as origens extraterrestres do evento ao qual devemos parcialmente nossa existência.

À medida que ferramentas e técnicas mais avançadas se tornam disponíveis, os cientistas têm sido capazes de extrair percepções novas e precisas sobre esse extermínio épico em nosso planeta e o que isso pode significar para o início da própria vida.

A última descoberta vem de um estudo publicado em julho na revista Icarus, que buscou o lar original do asteroide de Chicxulub. O estudo aproveitou o imenso poder de processamento de um supercomputador da NASA para modelar os movimentos de aproximadamente 130.000 asteroides no cinturão principal entre as órbitas de Marte e Júpiter.

“Finalmente, queremos resolver grandes questões e este tipo de trabalho nos permite ir atrás de algumas delas”, disse Bill Bottke, coautor do estudo e diretor do departamento de estudos espaciais do Southwest Research Institute em Boulder , no Colorado.

O estudo da Icarus faz parte de um fluxo constante de ideias sobre o impacto que pode ser ofuscante em sua criatividade, muitas vezes a ponto de gerar controvérsia. Este ano, por exemplo, uma equipe da Universidade de Harvard reavivou a possibilidade de que o objeto fosse um cometa, provocando resistência de muitos cientistas da área.

Bottke disse que o acesso ao supercomputador Pleiades da NASA “virou o jogo" para sua equipe, permitindo que os pesquisadores fizessem simulações de uma enorme população de asteroides ao longo de centenas de milhões de anos.

Esta técnica de Big Data ajudou a combinar a forte evidência geológica de que o objeto era um asteroide carbonáceo - e não um cometa - com uma possível origem no cinturão de asteroides externo. Esta região distante entre Marte e Júpiter contém muitos asteroides carbonáceos de tamanho semelhante ao impactador Chicxulub. Mas essas rochas não são içadas gravitacionalmente em rotas de colisão com planetas tão frequentemente quanto asteroides na região interna do cinturão, onde há menos objetos que correspondem à composição de Chicxulub.

“Não estávamos encontrando uma solução óbvia para a origem de um dos maiores objetos que atingiu a Terra recentemente”, disse Bottke. “Essencialmente, muitas das possibilidades que tentamos simplesmente não estavam dando resultado. Foi muito frustrante e parecia que estava faltando alguma coisa. ”

A abordagem do supercomputador revelou que asteroides semelhantes ao Chicxulub escapam do cinturão externo cerca de 10 vezes mais frequentemente do que indicado pelos modelos anteriores. Isso aumenta as chances de que a rocha assassina de dinossauros possa ter se originado lá.

“Esta é a confirmação de uma ideia muito legal e acho que me ajuda a entender muito mais sobre como o cinturão de asteroides pode estar influenciando a Terra ao longo de bilhões de anos”, disse Bottke.

Sean Gulick, um geofísico planetário da Universidade do Texas em Austin que foi um dos líderes de uma expedição científica de perfuração em 2016 e conseguiu preciosos núcleos de rocha da cratera Chicxulub, disse que o artigo era uma abordagem interessante para realizar "a perícia, se quiser, sobre a origem do objeto. É intrigante porque foi um evento muito importante para a evolução do nosso planeta e de nós mesmos.”

A missão que Gulick ajudou a liderar continua a esclarecer o papel do impacto tanto como um destruidor como um cadinho de vida. Enquanto os pesquisadores sondavam as profundezas do soterrado evento do Juízo Final, eles encontraram vestígios empoeirados do asteroide, o refluxo de areia do tsunami que ele havia criado e os restos fossilizados de organismos que prosperaram na sequência.

Talvez o mais espantoso seja um estudo publicado neste verão (no hemisfério norte) que descreveu os descendentes microbianos modernos daqueles que primeiramente adotaram as crateras, ainda vivendo à sombra da catástrofe que foi colonizada pelos seus antepassados.

“Acho incrível que você possa ter um impacto e gerar um ecossistema, 66 milhões de anos depois, você ainda tem vida presente naquele local por causa dessa condição anterior”, disse Gulick. “Em uma escala maior, talvez você possa gerar habitats com impactos realmente no início da história da Terra e fazer com que os ecossistemas sobrevivam depois. Isso reflete uma das maneiras pelas quais você pode levar a vida adiante.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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