Marian Carrasquero/The New York Times
Marian Carrasquero/The New York Times

‘A roupa de hoje é a confiança': uma atípica estrela do TikTok encanta o México

De meia-idade e com cicatrizes, uma jornalista mexicana está quebrando o modelo dos influenciadores com uma mensagem de pura positividade ressoando em tempos sombrios

Oscar Lopez, The New York Times - Life/Style

27 de janeiro de 2022 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - Aos 49 anos e menos de 1,5 metro de altura, Martha Izquierdo não se encaixa exatamente nos moldes de uma influenciadora do TikTok. Mas tendo sobrevivido a abusos sexuais, um sequestro, duas lutas contra o câncer e dois ataques cardíacos, conquistar as redes sociais foi praticamente uma moleza para essa jornalista mexicana.

Izquierdo, que mora em uma pequena cidade no sul do estado de Oaxaca, conseguiu mais de 600.000 seguidores na plataforma, com seus vídeos acumulando cerca de 24 milhões de curtidas.

Qual é a mensagem que a tornou tão popular em tempos de pandemia e em um país com níveis recordes de violência?

“Comecei a falar sobre questões que tinham a ver com ver a vida de maneira positiva”, disse Izquierdo. “Enfrentar seus medos, fazer as pessoas entenderem que cada um de nós é único, insubstituível.”

Em um vídeo típico de seu conteúdo, Izquierdo se aproxima da câmera com uma simples camiseta preta e uma calça com flores. “A roupa de hoje é a confiança”, ela diz. “Para que você não deixe de acreditar em si mesmo.”

Em outro vídeo, este com mais de 300.000 visualizações, ela sai correndo de casa a caminho do trabalho.

“Estou atrasada, mas sempre com a melhor atitude para enfrentar o dia a dia”, ela diz. “Como vocês todos acordaram - vocês se deram sua dose de amor?”

Jornalista premiada com décadas de experiência em reportagens, Izquierdo é relativamente nova no estrelato das redes sociais. Quando a pandemia começou a assolar o México em 2020, ela decidiu abrir uma conta no TikTok, @marthaizquierdooficial.

“Estávamos com medo de sair, com medo de morrer”, ela disse em uma entrevista recente. “Acho que estar vulnerável fez muitas pessoas se sentarem e dizerem: 'Ei, vamos refletir sobre a vida e o que estamos fazendo de errado'. E foi aí que eu apareci.”

Em maio, Izquierdo postou um vídeo de si mesma vestida de Mulher Maravilha para comemorar a remissão de seu câncer. O vídeo viralizou e logo Izquierdo começou a ganhar legiões de fãs.

“Eu dançava, me arrumava toda, usava fantasias”, ela disse. “Eu não sou um personagem - essa pessoa no TikTok sou realmente eu. E na verdade estou ainda um pouco mais louca.”

Em um país onde a pandemia teve um impacto devastador na saúde pública e na economia, Izquierdo oferece a seus fãs uma dose de puro deleite. E em uma era digital onde tudo é glamour em photoshop, a própria banalidade de Izquierdo, seja se exercitando, dirigindo para o trabalho ou dançando cumbia em seu quintal, acabou tornando-a extraordinária.

Suas roupas coloridas são parte de seu charme, desde vestidos tradicionais de Oaxaca até biquínis para a praia - a longa cicatriz de uma cirurgia de câncer que corta sua barriga orgulhosamente em exibição. Mas a marca de Izquierdo não é a alta costura e sim a confiança.

“Se você tiver que começar de novo, comece de novo”, ela disse em um vídeo. “É disso que se trata a vida - nunca desistir.”

Cristina Méndez Sánchez, que descobriu os vídeos de Izquierdo há alguns meses, sofre de depressão e obesidade desde que seu parceiro morreu há 15 anos. Ela logo se tornou uma grande fã.

“Eu a amo, quero ser como ela”, disse Méndez, 49. “Essa mulher com certeza é corajosa!”

Ser um ícone da afirmação não veio naturalmente para Izquierdo, que teve que passar por alguns dos momentos mais dolorosos de sua vida antes de aproveitar a exuberância que a tornou uma estrela da mídia social.

Nascida no estado de Veracruz, na fronteira com o Golfo do México, filha de pai contador e mãe dona de casa, ela sabia desde cedo que queria ser jornalista.

"Quando me perguntavam: 'O que você quer ser quando crescer?', eu dizia: 'Cientista, cantora ou jornalista', lembrou Izquierdo. “Mas como Deus não me deu o QI de Einstein ou a voz de Pavarotti, fiquei com a profissão de jornalista.”

Depois que seus pais se divorciaram, Izquierdo foi morar com membros de sua família em Oaxaca, onde ela disse que um parente a estuprou várias vezes desde seus 9 anos.

"Eu bloqueei isso na minha cabeça", ela disse.

Foi apenas anos depois, depois de conhecer seu parceiro, que ela se lembrou devidamente do que havia acontecido e, por meio de terapia, foi capaz de enfrentar o abuso - e até perdoar seu agressor.

“Não consigo guardar nenhum ressentimento ou emoção negativa em meu coração”, disse Izquierdo. “A vida não é para ser vivida com isso.”

Depois de terminar o ensino médio, Izquierdo voltou para Veracruz para estudar jornalismo e acabou se tornando correspondente nacional de um dos principais jornais do México, o Reforma. Ela agora trabalha em uma estação de rádio local em Oaxaca, transmitindo notícias atualizadas.

“Ela era uma jornalista muito reconhecida”, disse Soledad Jarquín, uma repórter que conheceu Izquierdo há mais de 20 anos. “Ela tinha conexões muito boas com pessoas no poder, mas também com pessoas comuns.”

Em abril de 2013, enquanto cobria um conflito entre proprietários de terras locais, ela foi cercada e detida por homens armados. Foi somente quando o exército chegou que Izquierdo foi libertada.

Ainda assim, apesar de enfrentar continuamente o perigo no trabalho, Izquierdo disse que seu maior desafio na vida veio quando seu parceiro de 18 anos, que tinha câncer e problemas renais, finalmente faleceu.

“Eu queria me matar porque o amava tanto que parei de me amar”, ela disse.

Então, em 2015, ela foi diagnosticada com câncer de ovário e disseram que só teria mais oito meses de vida. Mais uma vez, ela pensou em desistir.

Mas seus amigos e familiares a convenceram a continuar lutando. Ela passou por quimioterapia e várias cirurgias, o que fez com que seu corpo ficasse cheio de cicatrizes.

“Eu chorava na frente do espelho quando me olhava porque meu corpo parecia mutilado”, disse Izquierdo. “Eu me senti como Frankenstein.”

Eventualmente, ela derrotou o câncer - mas em 2017 ele voltou, desta vez em seu estômago. Em fevereiro daquele ano, ela teve um ataque cardíaco.

Depois de sobreviver a um segundo ataque cardíaco meses depois, Izquierdo disse que tudo mudou. Enquanto estava inconsciente, ela disse que teve uma visão durante a qual ouviu a voz de seu falecido parceiro dizendo-lhe para continuar vivendo.

“Se voltei à vida, foi por um propósito”, ela disse. “Continuar vivendo, ser feliz e ajudar outras pessoas com minha experiência de vida.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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