Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

A silenciosa estratégia de Kim Jong-un para construir mais bombas

Apesar do encontro com Trump, líder norte-coreano não interrompeu programa de armamentos, afirmam assessores

David E. Sanger, The New York Times

23 Setembro 2018 | 10h30

WASHINGTON - Há sete anos, Kim Jong-un adotou uma estratégia escancarada para a construção do seu arsenal nuclear, com explosões subterrâneas e lançamento de mísseis, para que o mundo soubesse que  o arsenal nuclear do seu país era algo irreversível.

Agora, aparentemente ele mudou seu enfoque, afirmam funcionários atuais e anteriores da inteligência dos Estados Unidos, ajustando-o à leitura que ele fez do homem que encontrou por algumas horas há três meses em Cingapura: o presidente Donald J. Trump.

A Coreia do Norte está produzindo combustível nuclear e armas no mesmo ritmo de sempre, sugerem as evidências. Mas agora aparentemente ele tomou emprestada uma página do manual de Israel, do Paquistão e da Índia. Deixou de fazer alarde a este respeito, e de fazer demonstrações nucleares públicas, portanto de criar crises, permitindo que Trump se convença de que está em curso um esforço de desnuclearização.

A paciência que Kim começou a demonstrar ajudou a fazer com que Trump se refira a ele com palavras calorosas. Recentemente, o presidente elogiou Kim quando o líder norte-coreano renunciou às paradas com mísseis pelas ruas de Pyongyang, durante uma comemoração militar.

Depois de declarar, um ano atrás, que Kim tinha de desarmar-se imediatamente ou enfrentar “o fogo e a fúria”, Trump agora afirma que há muito tempo pela frente.

Mas até mesmo alguns dos principais assessores de segurança nacional do presidente admitem em particular que a declaração de Trump em junho de “que não existe mais nenhuma ameaça nuclear” da parte da Coreia do Norte foi um enorme erro, porque foi entendida pela China e pela Rússia como um sinal de que a crise tinha acabado e que elas podiam retomar o intercâmbio comercial com o país.

Segundo representantes da inteligência, novas avaliações sugerem que Kim entendeu perfeitamente Trump e concluiu que enquanto as perspectivas forem boas, poderá evitar as exigências de um avanço do processo de desarmamento. Se Kim não realizar os testes, é improvável que Trump volte a falar das provas do aumento do arsenal nuclear.

“Estou chocada com a superficialidade do acordo”, disse Jung H. Park, a chefe da missão da CIA para a Coreia do Norte até ela partir no ano passado para a Brookings Institution, um grupo de pesquisa americano. “Acho que os norte-coreanos percebem que as coisas não funcionam como deveriam, e eles veem esta disfunção nos tuites do presidente, em seus cumprimentos e em sua disposição a voltarem a se encontrar”.

Até um dos defensores de Trump, o senador Lindsey Graham da Carolina do Sul, deu indicações de que está preocupado.

“Será que estão brincando conosco? Não sei”, ele indagou no programa de entrevistas ‘Face the Nation’ que vai ao ar aos domingos. “Se estão brincando com Trump, haverá muito sofrimento, porque ele não terá outras opções. “Neste momento, esta é a última e a melhor chance de paz”.

A Casa Branca afirma que foi feito um progresso considerável. A secretária de Imprensa de Trump, Sarah Huckabee Sanders, referiu-se ao fato de que os últimos testes nucleares e de mísseis de Kim ocorreram há dez meses, e insistiu que este é um sinal de que Kim está disposto a negociar.

No entanto, a produção nuclear não cessou, sugerem fotografias por satélite e outras provas.

A estratégia de Kim agora parece simples: imitar o Paquistão, que realizou um importante teste em 1998 e durante anos se desviou das pressões para que desistisse de suas armas. Agora, o país tem um 

arsenal significativo.

“Kim acha que protegeu os paquistaneses”, disse R. Nicholas Burns, subsecretário de Estado de Assuntos Políticos durante o governo de George W. Bush.

“Enquanto você dispõe de um círculo de países que o reconhecem, e negociam com você, é muito difícil que os EUA consigam convencer o país a desmantelar o seu aparato nuclear”, ele disse, e acrescentou, “Trump podia exercer uma enorme influência sobre Kim com fortes sanções internacionais, mas o desperdiçou em Cingapura”.

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, se destacou como o ator mais importante nesta dança nuclear, e ele considera o seu papel nem tanto de aliado americano quanto de um intermediário fundamental.

Quando Moon se reuniu com o seu gabinete este mês, não falou de uma “desnuclearização completa, verificável, irreversível”, como o governo Trump descrevia o objetivo das conversações com a Coreia do Norte. Mas falou em promover um diálogo diplomático.

“Agora, o Sul e o Norte precisam não apenas de outra declaração conjunta, mas encontrar maneiras de desenvolver substancialmente suas relações“, afirmou. “Não podemos cessar os nossos esforços para intermediar e facilitar as conversações, a partir do meio, até que o diálogo e a comunicação entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos fluam sem problemas”.

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