Fotos de Tom Jamieson para The New York Times
Fotos de Tom Jamieson para The New York Times

A tecnologia poderá salvar uma cidade que ela própria arruinou?

No século 13, Holywell recebeu uma carta real que lhe permitiu criar um mercado, ativo até hoje

Prashant S. Rao, The New York Times

29 Maio 2018 | 10h00

HOLYWELL, País de Gales - As autoridades desta cidadezinha galesa, dentro em breve, instalarão Wi-Fi gratuito em sua única rua de comércio. Já estão construindo estações de carregadores para carros elétricos. E no inverno passado, os pequenos comerciantes locais começaram a participar do sistema americano de pagamentos por celular na esperança de chamar mais compradores às suas lojas.

Esta é uma tecnologia adequada para pequenas cidades - a resposta das comunidades que procuram atrair os consumidores de volta ao comércio de sua Rua Principal. Lugares como Holywell tentam implantar novas tecnologias e serviços digitais como estratégia de defesa contra o predomínio do comércio eletrônico e o atrativo das grandes cidades. Juntamente com as cargas para veículos e Wi-Fi gratuito, as autoridades acrescentaram “guias” digitais que descrevem as atrações locais para ajudar os turistas loucos por smartphones.

Embora estas iniciativas  não devam conseguir acabar com o isolamento de suas economias, a alternativa significaria desistir de vez. Os donos de lojas esperam que estas medidas os ajudem a sobreviver, e melhorar o clima em uma região que assiste ao declínio há dezenas de anos.

“Afinal, somos uma pequena cidade no meio do nada”, disse Ted Palmer, cuja barbearia fica um pouco fora da área comercial de Holywell, a High Street. “Se não estivermos dispostos a mudar, seremos condenados a morrer”.

Holywell fica perto de um local religioso cristão conhecido pelos turistas e bem próximo da costa de Gales, mas sempre  dependeu do comércio local para alimentar a economia da comunidade. Nos últimos anos, muitas lojas fecharam, como uma papelaria, uma drogaria e uma loja de eletrodomésticos. Então, no prazo de poucos meses, três das quatro filiais de bancos da cidadezinha também fecharam as portas.

Sua Rua Principal é uma sombra do que era antigamente. As compras estão sendo feitas principalmente pela internet. Os clientes em Holywell podem solicitar a entrega a domicílio de suas compras em supermercados online como o Ocado, e muitas outras coisas podem ser adquirida da gigante Amazon.

Os fechamentos de bancos aqui são particularmente difíceis. Isto obrigou as lojas a manterem grandes quantidades de dinheiro no lugar. As pessoas que iriam à cidade para fazer suas operações bancárias vão para alguma outra parte. E o trânsito de pedestres no centro de Holywell, uma cidade de 9 mil habitantes, caiu drasticamente.

Os esforços para  Holywell se transformar escondem  sua longa história. No vernáculo britânico, Holywell é uma cidadezinha conhecida pelo seu mercado. No século 13, Edward I concedeu a alguns monges uma carta para estabelecerem um mercado semanal, e eles o usaram para vender cerveja e arrecadar impostos de camponeses e comerciantes que vinham vender suas mercadorias. No início do século 19, havia dezenas de lojas, hospedarias e cervejarias.

O mercado semanal existe até hoje, enquanto na Rua Principal, que tem menos de 300 metros de extensão, há uma variedade de cafés, barbearias e lojas que vendem cigarros eletrônicos e sapatos.

A adoção da tecnologia na comunidade se deu por acaso.

Nos últimos anos, nos encontros mensais de um comitê da prefeitura discutiam-se soluções possíveis para as dificuldades da cidade. A Rua Principal, que foi transformada em lugar de trânsito exclusivo para pedestres há dezenas de anos, será reaberta para veículos, serão instalados pontos de carga de veículos elétricos e será acrescento Wi-Fi gratuito.

Então, no congresso do Partido Trabalhista, em setembro do ano passado, David Hanson, membro do Parlamento de Holywell, se encontrou com Sarah Harvey, que dirige as operações britânicas da Square, a companhia americana de pagamentos por celular. A Square ofereceu suas leitoras de cartões gratuitamente para as empresas de Holywell.

Os donos das lojas aqui são bastante realistas quanto ao impacto positivo disto sobre a economia, até o momento. O serviço não produziu de imediato um aumento significativo do comércio. Mas muitos afirmam que pelo menos deteve a sua queda.

Russ Warburton, 56, foi um dos mais de 60 donos de lojas da Holywell que aderiram à Square. O faturamento  do seu negócio  de iluminação sofrera uma queda de quase 30% depois dos fechamentos das filiais dos bancos. Mas utilizando a Square, conseguiu impedir que caísse ainda mais. Ele admitiu que foi uma pequena vitória, contudo o estimulou a considerar novos investimentos. Warburton agora está expandindo seu negócio da área de iluminação para a de antiquário e reforma de móveis antigos.

“Isto não resolve o problema”, afirmou Warburton, que é presidente da Câmara Municipal da cidade. 

“Nunca conseguiremos a volta da Rua Principal de 30, 40 anos atrás, porque os hábitos de consumo das pessoas mudaram”.

“Só podemos tentar tudo o que está ao nosso alcance para trazer as pessoas de volta à cidade”.

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