Billy H.C. Kwok para The New York Times
Billy H.C. Kwok para The New York Times
Amy Qin, The New York Times

31 de outubro de 2018 | 06h00

NOVA TAIPÉ, TAIWAN - Enquanto a noite cai no Mercado Noturno Lehua, clientes famintos começam a aparecer, ansiosos por experimentar os aperitivo que dão a esta ilha a fama de uma das principais capitais da culinária asiática.

Bolinhas de peixe artisticamente dispostas. Tigelas com bolinhos de tapioca em calda ligeiramente doce. Omeletes de ostras borbulhando, mal retiradas da chapa. Batata doce frita, ainda pingando óleo.

Experimente qualquer um destes pratos, e descobrirá uma textura única. Mas como descrever exatamente esta textura perfeitamente calibrada, tão procurada por cozinheiros e gourmets?

Escorregadia? Com a consistência da borracha? Granulosa? Não seriam exatamente os adjetivos mais lisonjeiros.

Felizmente, os taiwaneses têm uma palavra para esta textura. Bom, na realidade, uma letra.

A letra “Q”.

“É difícil explicar o que Q significa exatamente”, disse Liu Yen-ling, a gerente da Chun Shui Tang, uma cadeia muito conhecida de casas de chá. “Basicamente, significa elástica, suave, flexível”.

Para os taiwaneses  a textura ‘Q’ equivale a ‘umami’ para os japoneses e ‘al dente’ para os italianos - ou seja, algo muito apreciado, essencial. Em Taiwan, é possível vislumbrar frequentemente a letra Q entre um labirinto de caracteres chineses, nas tabuletas das lojas, nas embalagens de alimentos e nas lojas de conveniência ou em anúncios.

A textura serve na maioria das vezes para descrever os alimentos que contêm algum tipo de amido como macarrão, pérolas de tapioca e bolinhos de peixe. Se alguma coisa é realmente elástica, pode ser chamada QQ.

“Você saberá se o chá com leite com bolinhas de tapioca é bom pela textura das pérolas de tapioca”, disse Liu. “Se a textura é perfeita, é muito gostoso”.

Q é uma denominação tão antiga em Taiwan que muitos em Hong Kong e do outro lado do estreito, na China continental, também usam o termo.

Em outras partes da Ásia, é uma textura familiar, embora o termo em si talvez não seja usado. Tteok-bokki, um bolo de arroz frito coreano, e o mochi, um bolo de arroz japonês, por exemplo, também seriam considerados Q. Na cozinha ocidental, a textura é encontrada menos frequentemente, embora seja possível descrever alimentos, como o ursinho de borracha e certos tipos de macarrão, como Q.

As origens da denominação são vagas. Alguns afirmam que deriva do taiwanês Hokkien, k’iu. Diga Q a um velho taiwanês e é possível que ele não conheça o termo. Mas ninguém explica como e quando a 17ª letra do alfabeto se tornou a abreviação da textura dos bolinhos de tapioca.

Recentemente, no Mercado Noturno Lehua, multidões flanavam pelo calçadão ladeado por ambulantes.

Um grupo de jovens barulhentos foi atraído por uma banca com um luminoso que dizia “Picolés QQ”. À pergunta sobre o motivo pelo qual a textura Q é tão atraente para o taiwanês, Lu Wei-chen, a proprietária da banca, sorriu enquanto entregava uma barra gelatinosa de cor vermelho vivo a uma criancinha deliciada.

“É simples”, ela respondeu. “Quando você a come, se sente com uma disposição ótima”.

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