Shiho Fukada para The New York Times
Shiho Fukada para The New York Times

A trajetória excêntrica do vencedor da Maratona de Boston

Yuki Kawauchi, conhecido como 'Cidadão Corredor', correu sua nona maratona deste ano; a maioria dos corredores compete em duas

Jeré Longman, The New York Times

08 Novembro 2018 | 06h00

KUKI, JAPÃO - Mesmo a duas quadras de distância, o passo era familiar - muscular, insistente, braços abaixados e abertos. O corredor só poderia ser uma pessoa, Yuki Kawauchi, o improvável vencedor da Maratona de Boston de 2018 e o homem mais veloz com uma fantasia de panda.

Já naquela manhã, ele tinha percorrido facilmente 20 quilômetros, dando voltas em um parque da cidade. Pouco depois, foi correr um uma estrada asfaltada, vestindo uma camisa, calças compridas normais e sapatos de couro marrom. Ele começaria a trabalhar minutos mais tarde. O escritório ficava a cerca de um quilômetro de casa. Ele podia cronometrá-lo perfeitamente.

Kawauchi é uma personalidade cult, uma ligação entre atletas de classe mundial e batalhadores de fim de semana. Seu apelido é "Cidadão Corredor".

A maioria dos grandes maratonistas é formada por atletas em tempo integral que correm duas maratonas por ano. Kawauchi correu sua nona maratona de 2018 no dia 8 de outubro, em Chicago. Enquanto agosto dava lugar a setembro, ele correu duas em oito dias.

Kawauchi, 31, trabalha no escritório de administração da Kuki High School da cidade, no norte de Tóquio. Como funcionário público, pode ficar com o que ganha correndo, (US$150 mil em Boston) e as gratificações, mas não pode aceitar patrocínio de empresas, inclusive um contrato que renderia um bom dinheiro para uma marca de calçados.

Isso mudará em abril do próximo ano, quando pretende deixar o emprego e dedicar-se integralmente ao esporte. Ele treina com equipamentos de levantamento de pesos feitos em casa, uma barra de aço com velhos sapatos de corrida com fita adesiva nas pontas. Uma câmara de ar de bicicleta basta para o treinamento de resistência para as suas pernas. Ele mesmo prepara sua bebida isotônica, uma mistura de água, suco de laranja, suco de limão, sal e mel, preparada por um dietista da escola local.

No dia 25 de março, três semanas antes da Maratona de Boston, Kawauchi correu meia maratona com uma roupa que imitava um panda. Na mesma corrida, em 2016, ele estabeleceu o recorde mundial não oficial de 1 hora, 6 minutos e 42 segundos em uma meia maratona em que correu vestido com a roupa que usa para ir ao escritório.

"Quero divertir um pouco as pessoas", disse.

Kawauchi já correu 26 maratonas em menos de duas horas e doze minutos, e 81 em duas horas e vinte minutos, ambos recordes. Em seis semanas no início de 2013, ele correu as duas competições mais rápidas da sua carreira, 2:08:14 e 2:08:15.

Como consegue recuperar-se tão rapidamente? Segundo cientistas, Kawauchi tem uma maior capacidade de consumir oxigênio do que a maioria dos corredores de elite japoneses. A mãe de Kawauchi, Mika, corredora de média distância e sua primeira treinadora, o obrigava a correr voltas extras quando não atingia o tempo diário na escola primária. No ensino médio, ele teve problemas com contusões nas canelas e inflamações nos joelhos por excesso de treinamento.

Na faculdade, Kawauchi descobriu sua paixão pela maratona, mas também se sentiu oprimido pela ortodoxia dos treinos. Para aliviar o estresse, foi a um clube de karaokê e cantou sozinho em uma sala durante horas.

Em abril, na Maratona de Boston, desabou uma tempestade que poderia acabar com a corrida. Kawauchi ficou feliz. Seu desempenho é excelente nas corridas em um clima frio e com muito vento.

No entanto, quase ninguém esperava que ele ganhasse. Quando deu a arrancada decisiva faltando cerca de dois quilômetros ao final, Geoffrey Kirui, do Quênia, que foi campeão em Boston em 2017, estava correndo entre algumas das mulheres mais velozes. Kawauchi não tinha certeza de ter assumido a liderança até que um funcionário da corrida indicou para ele a fita na frente e outro o cumprimentou depois que ele cruzou a linha de chegada.

Parecendo estupefato, Kawauchi tirou o boné e os óculos e gritou: "Consegui!". Ele terminou com um tempo de 2:15:58, derrotando Kirui por mais de dois minutos.

Em uma festa depois da corrida em Boston, Kayauchi dançou e jogou Jenga. E, precisando de um lugar silencioso, foi à toalete e telefonou para o diretor da escola de Kuki. A coletiva de imprensa com os vencedores só se realizaria na manhã seguinte. Ele teve de mudar o voo de volta para casa.

"Desculpe, mas eu ganhei a Maratona de Boston", explicou ao chefe. "Posso tirar mais um dia de folga?"

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