Cecilia Carlstedt para The New York Times
Cecilia Carlstedt para The New York Times

A vez da moda no sofá da analista

Dawnn Karen, que se define como psicóloga de moda, tenta decifrar como a roupa pode influenciar os sentimentos da pessoa que a veste

Jennifer Miller, The New York Times

02 Maio 2018 | 10h15

Em fevereiro, Dawnn Karen, consultora de marca, terapeuta e instrutora do Fashion Institute of Technology de Nova York, compareceu a um desfile de moda de Marcel Ostertag usando sapato de salto altíssimo coberto de rebites e uma jardineira preta com uma capa. “Esta capa faz com que eu me sinta a Supermulher”, ela disse. “Ela dá uma sensação de controle”. E lá foi toda altiva posar para os fotógrafos na entrada do desfile.

Karen, que se define uma “psicóloga de moda”, analisa a relação entre o traje e a atitude: não só como a roupa faz a pessoa parecer, mas como faz com que ela se sinta. Karen contou que foi ao desfile de Ostertag para analisar a psicologia da coleção.

Quando uma modelo surgiu com uma blusa de seda cor de rosa, ela a definiu como um exemplo de “teoria que potencializa o humor”: ou seja, uma roupa pode intensificar emoções positivas. Quando outra modelo passou flutuando em um peignoir prateado, Karen disse que o traje  representava “o complexo do guarda-roupa repetitivo”, a tendência a usar roupas pelo conforto emocional.

Nenhuma destas teorias ou rótulos será encontrada nos textos de psicologia. Karen, 29, os criou nos últimos anos, enquanto cultivava sua carreira acadêmica e sua marca pessoal.

A psicologia da moda, como ela a define, é “O estudo e a terapia de como cor, imagem, estilo e beleza afetam o comportamento humano, enquanto expressam normas culturais e sensibilidades culturais”. Ela acredita que o campo é particularmente relevante hoje, porque os consumidores são cada vez mais críticos em relação à indústria da moda e à sua surdez no tratamento da imagem corporal e da raça.

“A publicidade e a moda cometem inúmeros erros”, afirmou Karen, que é afroamericana. Ela destacou os equívocos da H&M que usou um menino negro vestindo o seu moleton com a frase “O macaco mais legal da selva”; a minissaia da Zara com o símbolo da direita alternativa, Pepe the Frog; e uma campanha da Dove de produtos para a pele com uma modelo negra que ficava branca.

Karen não é a única a se preocupar com o aspecto psicológico da moda. A Universidade de Delaware oferece um curso chamado “Aspectos Psicológicos Sociais do Vestuário”. “Nós falamos de percepções e padrões de atração”, disse o professor que ministra o curso, Jaehee Jung.

O London College of Fashion tem programas de graduação e pós-graduação em psicologia da moda aplicada.

“A indústria da moda fala tanto da memória, da solução de problemas e de nostalgia”, disse Carolyn Mair, que patrocinou os programas. “E, no entanto, na indústria, estes conceitos psicológicos carecem de rigor e de formação acadêmica”.

Mair deu o exemplo de roupas produzidas de maneira sustentável. Algumas marcas tiveram sucesso em despertar a consciência do problema, mas não em influenciar nossas decisões de compra. “Se a indústria da moda trabalhasse com psicólogos que entendem o comportamento humano”, ela disse, “poderiam implementar programas de mudança comportamental com bases científicas para influenciar o que o consumidor compra.”

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