Sydney Paulsen via The New York Times
Sydney Paulsen via The New York Times

A vida íntima das bonecas, revelada na internet

Brinquedos entram na categoria de influenciadores do Instagram

Beatrice Hazlehurst, The New York Times

18 de novembro de 2018 | 06h00

Começou no bufê do café da manhã. Era impossível não notá-lo: de uma beleza áspera, o queixo quadrado com uma longa cicatriz. Seguramente de formação militar, o estilo de sua roupa permitia a ampla visão dos músculos esculpidos do tronco.

Joe, um fuzileiro naval que se tornou estagiário da mídia, era o tema da conversa em nossa mesa. Até parecia que tínhamos nos esquecido de que ele tinha apenas 15 centímetros de altura e era totalmente de plástico. 

Grande parte da sociedade, e não apenas as crianças, há muito tem uma fascinação por coisas diminutas. Alguns adultos colecionam minúsculas bolsinhas Chanel ou tesouras em miniatura. Mas as bonecas tornaram-se o material com o qual é possível criar um mundo minúsculo, perfeito para compartilhar na mídia social.

A canadense Simone Paget, 38 anos, que escreve sobre sexo e relacionamentos, passou horas incontáveis criando o @Joe, a história elaborada do estagiário (ele sofre de distúrbio de estresse pós-traumático, não tinha casa, morava em uma caixa perdida e depois achada de Burger King), e viajando com ele, na função de sua diretora artística nas redes sociais. Simone espera que a conta supere 100 mil seguidores - atualmente são mais de 2.100.

"Agora eu o uso como teste decisivo", afirmou. "As pessoas acham que é gozado ou totalmente absurdo, mas é uma espécie de 'promoção dois por um': quando você tem a mim, tem também uma foto do boneco".

Ellen Jones, que mora em Belgrado, na Sérvia, diz que por meio de @Ellesn_thebarbie ela pode viver seus "sonhos". A Barbie Ellen é tudo que esperamos ser aos 22 anos: uma artista modelo morando com o namorado, um golden retriever e 11 mil seguidores. Ellen se surpreende pelo fato de tantas "pessoas reais" estarem fascinadas pela vida de sua Barbie.

Jana Sanderson e Luise Miller, populares "blogueiras sobre estilo de vida", frequentemente são patrocinadas por algumas marcas no Instagram para fins promocionais. Elas foram criadas por Eva-Julie e Désirée Remmy, duas irmãs alemãs que fundaram as contas da dupla em 2015, e fazem todas as suas roupas, acessórios e apetrechos com refugos.

Um cenário para as bonecas (como uma viagem para o festival de rock Coachella ou um chá de bebê) pode levar semanas para sua preparação. O objetivo das duas é simplesmente criar uma existência tão realista que Jana e Luise parecem pessoas reais.

Não surpreende que uma quantidade de especialistas em nichos tenha se apresentado para ajudar. Janelle LaFond, estilista de bonecas de Tampa, Flórida, garimpa pequenos looks do mundo todo.

"Gasto uma quantia absurda de dinheiro em roupas feitas à mão para as minhas bonecas", disse Janelle, 31.

São poucas as pessoas que conseguiram transformar a chamada Dollstagramming (promover bonecas pelo Instagram) em uma atividade diária. Depois de dedicar os últimos dois anos a fotografar bonecas American Girl, Sydney Rose Paulsen, 20, é uma delas. Com a mãe, ela trabalha com algumas marcas para a criação de conteúdo sobre a American Girl.

"Não acho que muita gente de carne e osso tenha reagido estupefata quando eu disse que sou uma fotógrafa de bonecas", observou. "Acho que a maioria acredita que meu negócio é um acaso lucrativo. Talvez isso seja verdade em parte, mas este acaso com certeza se sustenta graças a centenas de dias feitos de 14 horas de trabalho".

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