David La Spina / The New York Times
David La Spina / The New York Times

A vida logo abaixo dos andaimes de Nova York (e sua arquitetura perigosa)

Morte de uma estudante, que foi atingida por um pedaço de alvenaria enquanto caminhava, jogou luz sobre a regularização de obras arquitetônicas da cidade

Penelope Green, The New York Times

07 de fevereiro de 2020 | 06h00

Detestados e bagunçados, os andaimes são a arquitetura paralela de Nova York, seu exoesqueleto de brinquedo. Já enfureceram e inspiraram seus moradores, ao mesmo tempo alterando para sempre o comportamento deles — há quem busque seu abrigo durante o mau tempo e quem os evite com destreza — enquanto se queixam da sua persistência e onipresença, talvez sem conhecer a história por trás de boa parte desses andaimes.

Em uma noite de maio de 1979, Grace Gold, aluna do primeiro ano da Barnard College, caminhava pela Rua 115 quando um pedaço de alvenaria caiu de um edifício da Universidade Columbia, matando-a. No ano seguinte, a cidade de Nova York aprovou uma lei exigindo que as fachadas dos edifícios fossem inspecionadas com regularidade. Se forem reprovadas na inspeção (o que acontece com frequência, levando em conta o desgaste das construções mais antigas), os proprietários são obrigados a instalar na calçada uma proteção para os pedestres.

A lei fazia sentido, protegendo o público de projéteis vindos do céu, mas muitos donos de prédios optaram por simplesmente armar um andaime de proteção em vez de cuidar das obras necessárias – e mais caras. Passadas quatro décadas, o legado de Grace Gold — Lei Municipal 11, ou “Programa de Inspeção e Segurança de Fachadas” — responde por cerca de metade dos andaimes da cidade, com quase 28 mil metros de andaimes armados em mais de 3 mil locais.

Às vezes o sistema funciona, mas nem sempre. Em uma manhã antes do Natal, Erica L. Tishman, mãe de três filhos, caminhava pela Sétima Avenida quando tijolos caíram de um prédio de 17 andares sobre ela, matando-a. O prédio tinha sido multado em abril por falta de segurança da fachada, infração repetida em julho, enquanto os proprietários recorriam da multa no tribunal. Naquela manhã de dezembro, ainda não tinham armado um andaime.

O tempo médio de permanência dos andaimes é de aproximadamente um ano, mas há casos de andaimes mantidos por 11 anos.

A Lei Municipal 11 não é a única responsável pelos andaimes na calçada. O restante deles envolve construções; reunidos, são mais de 480 quilômetros de andaimes, boa parte em Manhattan.

Os andaimes sobre as calçadas servem de abrigo para os operários durante a pausa para o cigarro, e são procurados por quem passeia o cachorro em dias de mau tempo. Fazem as vezes de lar para alguns sem-teto; um homem afasta os vândalos com um cartaz na cama dizendo: “Infestação de piolhos, não chegue perto!”.

Há morcegos que fazem seus ninhos nesses andaimes, como foi o caso de um morcego visto alguns anos atrás em andaimes com vista para a High Line. “Ficou ali pendurado por uns dois dias e depois seguiu seu rumo”, lembrou Kaitlyn Parkins, especialista em morcegos. Os ratos, por sinal, não habitam as estruturas, ao menos não tipicamente, de acordo com Matthew Combs, noivo de Kaitlyn, cujo doutorado examinou o parentesco existente entre os ratos marrons urbanos.

De acordo com ele, os ratos precisam de água e alimento, coisa que poderiam encontrar nos andaimes, mas também precisam de paz. Não fazem seus ninhos em lugares movimentados.

Em seu romance de estreia, The Next, a autora Stephanie Gangi criou para sua protagonista um lar nos andaimes. A personagem principal é o espírito vingativo de uma mulher que dedica seu tempo no além ao tormento do ex-namorado, vagando perto do antigo apartamento. “Queria que ela habitasse um trecho perigoso, mas ao mesmo tempo familiar”, justificou Gangi. “Com aquela estranha rede de proteção flutuando ao vento, o lugar me pareceu perfeito para uma fantasma".

Para a professora de ioga Hannah Casey, os andaimes trazem motivação: “É algo que sempre me dá vontade de fazer ginástica. Se eu soubesse fazer pole dance, tentaria me balançar neles”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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